Fernando Marchiori está há 20 dias trabalhando como técnico da Portuguesa, local onde é conhecido como Fernandinho, o camisa 10 da base rubro-verde nos anos 90. Chegou com a missão de afastar o time da zona do rebaixamento. Em três jogos, foram duas vitórias, e a equipe já está flertando com a zona de classificação para a fase final do torneio. Pode até fazer parte do "G8" na rodada deste fim de semana, se vencer o São Caetano, no Anacleto Campanella, no ABC Paulista, no sábado.
Este bom início deu uma dose de otimismo em um clube acostumado a sofrer. Situação totalmente diferente do período em que Marchiori viveu na Lusa.
"Lembro de assistir ao Dener no time principal. Tive esse privilégio. Ainda como garoto da base, cheguei a treinar algumas vezes com a equipe profissional que tinha Emerson, Cesar, Rodrigo Fabri e Leandro Amaral, vice-campeões brasileiros de 1996. Até contra o Zé Maria [lateral direito] treinei", disse para a ESPN.
Com cinco anos de profissão, Marchiori promete mais do que uma visão saudosista. A base vem de uma das melhores escolas de futebol: a Espanha.
"Eu tirei a licença de técnico da base na Real Federação Espanhola de Futebol logo depois de encerrar a carreira. Fiz estágio no Deportivo La Coruña e no Cádiz. Acompanhei muitos jogos da primeira, segunda e até terceira divisão. Também vi partidas da Champions. Tudo para criar um banco de dados de conhecimento", disse.
O que o aproximou da Espanha foi o final da carreira como jogador, tendo defendido o Clube Deportivo Puertollano e o San Fernando Club Deportivo.
Durante esse período, Marchiori admite que um dos principais mestres que teve foi Manolo Hierro, irmão de Fernando Hierro, zagueiro por mais de dez anos do Real Madrid, três vezes campeão da Champions League, duas vezes vencedor do Mundial e dono de cinco títulos de LaLiga pelos merengues.
O currículo do irmão não foi tão recheado. Também zagueiro, Manolo teve o momento mais glorioso ao defender o Barcelona no final dos anos 80. No entanto, foi fora das quatro linhas que se encontrou. Trabalhou no Málaga como diretor por mais de dez anos. Também foi treinador e conheceu Marchiori no Puertollano.
"Construí uma amizade sólida com ele e tive uma grande base de aprendizado, especialmente ao conhecer o trabalho que ele fez como diretor técnico. A construção de um planejamento, a construção de uma equipe e a visão para contratações foram muito importantes para o meu aprendizado", disse o brasileiro.
O treinador da Portuguesa até admitiu que, em uma rara oportunidade em que Manolo convidou Fernando Hierro para o visitar, tietou o ídolo do Real Madrid. "Não só eu, mas todos os outros jogadores também. Foi a única vez que tivemos contato e foi muito rápido. Ele é uma referência na Espanha".
Pouco tempo, muito trabalho
Marchiori chegou em 8 de fevereiro na Portuguesa para substituir Moacir Júnior, demitido após cinco rodadas e com apenas quatro pontos conquistados. A Lusa estava na zona de rebaixamento e o projeto para o ano do centenário parecia se desenhar como mais um fracasso.
"A oportunidade chegou em um momento que eu sinto que posso retribuir à Portuguesa tudo o que que ela representou na minha vida. Passei toda a minha infância no Canindé e parte da minha adolescência também. Tenho carinho e quero ajudar, mas tracei metas mais realistas", disse o treinador.
Definiu com a diretoria um plano de pontos para assegurar a permanência na Série A-2. Somente depois buscar a classificação para a fase final.
A expectativa em relação ao treinador é grande no Canindé. Ele tem seis títulos em apenas cinco anos como técnico.
Pelo Cuiabá, venceu o Estadual e a Copa Verde. No Maringá foi campeão da segunda divisão estadual e bicampeão da Copa Paranaense. Mas o maior feito, ou pelo menos o de maior repercussão, ocorreu ano passado. Conduziu o Santo André na Série A-2 até a final, sagrando-se campeão do torneio.
O ponto baixo nesse início de carreira foi o Água Santa. Acabou demitido em 30 de janeiro, com três derrotas em três jogos e nenhum gol marcado. Para ele, mais um aprendizado. Agora, na Lusa, se conseguir ter um trabalho a longo prazo, pode fazer parte de um plano ainda mais ousado.
"A base estava terceirizada, mas o presidente conseguiu trazê-la de volta para o controle da Portuguesa. Estamos pensando o departamento de futebol de forma profissional, fazendo um trabalho conjunto com os técnicos de todas as categorias", disse.
Quis o destino que ele, um jovem forjado na base lusitana, agora ajudasse a plantar a semente para tentar fazer o clube renascer em pleno ano do centenário.
"É algo que necessita de tempo, respaldo, segurança, mas é algo que pode dar novamente vida para a Portuguesa. Cresci ouvindo isso. Era o time do Tico, Dener, Sinval. Também do Zé Roberto. Depois do Leandro Amaral, Fabri. Tantos. A Portuguesa sempre teve isso. Quero participar dessa reestruturação do clube", afirmou.
