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Como Manchester United fracassou e desceu de patamar na Europa

NUR-SULTAN, Cazaquistão - São 16h50 de quarta-feira. O Manchester United está fazendo sua primeira visita ao Cazaquistão para disputar um jogo da Liga Europa contra o Astana, a 6.700 km de Old Trafford, em uma cidade mais próxima de Pequim do que de Manchester. Do ponto de vista do futebol, Nur-Sultan é a cidade mais longe que o United poderia estar no âmbito da Uefa, mas é um jogo que resume onde estão time e clube.

Nur-Sultan pode ser o marco zero do United, o ponto de onde eles começam a navegar de volta ao topo do esporte. Uma equipe jovem formada por jogadores da base - seis adolescentes fazem sua estreia no United na Arena Astana - sofreu uma derrota por 2 a 1 contra os campeões do Cazaquistão. Esse resultado não foi um choque - o técnico Ole Gunnar Solskjaer deixou quase todos os jogadores de primeira equipe em Manchester devido ao fato de o United já ter garantido vaga na próxima fase - mas foi um lembrete da grande queda do time.

Desde a aposentadoria de Sir Alex Ferguson, em maio de 2013, quando os Red Devills conquistaram o título da Premier League com uma margem de vitória de 11 pontos, o clube se afastou ainda mais da posição de poder que possuía. O Manchester City se tornou a força dominante na cidade e na Inglaterra, conquistando três títulos em seis anos, enquanto o Liverpool acabou vencendo a Champions League e parece que está prestes a acabar com uma seca de 30 anos de título inglês.

Técnicos vêm e vão - Solskjaer é o quarto contratado desde Ferguson - um impressionante valor de 840 milhões de libras (R$ 4,6 bilhões) foi gasto e desperdiçado em jogadores. Foram cometidos erros na sala de reuniões e só agora estamos ouvindo falar de um "reinício cultural" em Old Trafford.

Mas como isso poderia dar tão errado, tão rapidamente? O Manchester United deveria ser muito grande, muito rico e muito bem-sucedido para fracassar.


'Os caras queriam uma estrela... nós contratamos o Fellaini'

"ELE É UM PALHAÇO OU UM GÊNIO F...", sugeriu David Moyes a um membro de sua comissão técnica após uma reunião com Ed Woodward, então recém-nomeado vice-presidente executivo do United, em julho de 2013.

Anunciado como o "escolhido" após assinar um contrato de seis anos como sucessor de Ferguson, Moyes foi levado a acreditar que grandes mudanças estavam acontecendo para contratar Gareth Bale, Cesc Fàbregas e Cristiano Ronaldo. Woodward até disse a ele que o clube estava apenas esperando para puxar o gatilho, independentemente do acordo que ele quisesse fazer. Tendo trabalhado com um orçamento apertado no Everton por 11 anos, Moyes ganhou o apelido de "Dithering Dave" por causa de seu hábito de avaliar minuciosamente todas as contratações em potencial, mas Woodward agora estava lhe dando a chance de jogar uma Master Liga.

Mas nada aconteceu. Moyes queria o par do Everton, Leighton Baines e Marouane Fellaini, mas o que ele realmente queria era dar uma declaração ao fazer isso, ele tinha que contratar jogadores famosos para agradar aos fãs. No final de julho, Woodward voou de volta da turnê de verão da equipe na Austrália dizendo que havia feito "grandes negócios" para o clube. Enquanto isso, Fellaini tinha uma cláusula em seu contrato com o Everton (que expiraria em meados de agosto), permitindo que ele partisse por cerca de R$ 100 milhões. Baines, por outro lado, deixou claro que não forçaria uma ida para o United.

Com o passar dos dias, ninguém chegou para impulsionar a equipe. O pânico começou. Mas, a três minutos do prazo de transferência de 31 de agosto, Fellaini foi contratado.

Foi uma janela de transferências desastrosa, e fez com que Woodward e Moyes começassem a apontar os dedos um para o outro.

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"Antes dos jogos, [David Moyes] dizia: 'Precisamos fazer 500 passes hoje.' 500 passes? Nunca tivemos esse tipo de coisa com o Sir Alex [Ferguson]. Antes de jogarmos contra o Bayern de Munique nas quartas de final da Champions League, na Allianz Arena, ele nos disse para tentar ganhar escanteio chutando a bola nas canelas dos jogadores do Bayern. Foi muito engraçado." - disse um ex meio-campista do United


"Os caras queriam uma estrela para levantar o vestiário, e nós conseguimos o Fellaini ", disse um membro do primeiro time de Moyes à ESPN. "Felli era um bom rapaz e fez um bom trabalho, mas o resto de nós estava apenas olhando um para o outro, imaginando o que diabos tinha acontecido. David julgou mal o time. Ele precisava de dois zagueiros centrais, porque Ferdinand e Vidic estavam se machucando muito. Mas ele estava preocupado demais em fazer uma contratação bombástica logo de cara. Ele não assumiu riscos e não queria correr riscos ".

O United continuaria com seu pior início de temporada na era Premier League, seguido de outra compra sem sentido. Na janela de transferência de janeiro, eles contrataram Juan Mata, levando-o para o CT do clube de helicóptero. O clube estava desesperado para promover o feito de Woodward em dar um golpe no Chelsea e contratar seu meia titular, mas os jogadores não ficaram tão impressionados.

"Grande rapaz, o Juan, mas não precisávamos dele", disse um jogador titular à ESPN. "Tínhamos Shinji Kagawa na época e ele era um jogador muito popular e respeitado no vestiário. Moyes não sabia como usá-lo. Ele não confiava nele. Mas Shinji era mais rápido e mais direto do que Juan, que desacelerava muito a equipe".

Com Fellaini e Mata, um padrão havia sido estabelecido. O United estrava comprando jogadores que não encaixavam no time.


Nenhuma das contratações nos impressionou

O UNITED SACOU MOYES EM ABRIL DE 2014, mas a abordagem dispersa no mercado continuou sob seu sucessor, Louis van Gaal. Desta vez, Woodward fez acordos, quebrando o recorde de transferências britânico para assinar com Ángel Di Maria por 59,7 milhões de libras e acertando o empréstimo de Falcao Garcia. Mais uma vez, os jogadores ficaram desapontados com as contratações, que também incluíram Daley Blind, Luke Shaw, Morgan Schneiderlin e Matteo Darmian, enquanto que atletas locais como Jonny Evans e Danny Welbeck foram vendidos por menos dinheiro.

"Para ser justo com Ed, ele fez tudo por Louis", disse um ex-membro da comissão técnica do United à ESPN. "Louis queria Di Maria, [Bastian] Schweinsteiger e Memphis Depay, e ele fez os acordos".

"Nenhum dos jogadores contratados impressionou os que já estavam lá", disse um jogador da época à ESPN. "Di Maria era o único que pensávamos ser um verdadeiro jogador do United. Ele era um grande garoto, mas acabou tendo brigas feias com o Louis e pediu para sair. Um conceito errado cresceu sobre Di Maria. Ele era popular entre os jogadores e um jogador de alta qualidade, mas ele e Louis simplesmente não se deram bem.

"Falcao era um cara adorável, tão humilde, mas não tinha sofrido uma lesão grave no joelho, por isso nunca deu certo com ele. O resto das contratações não foram boas o suficiente, no entanto. Louis queria esclarecer a influência de Ferguson e construir um time vencedor de novo, mas ele foi longe demais".

A teimosia de Van Gaal também levou ao caro erro de contratar Depay do PSV Eindhoven por 25 milhões de libras em 2015.

"Louis era um grande fã do Depay", disse o ex-membro da comissão técnica do United à ESPN. "Ele descobriu que o Liverpool o estava pensando em fazer uma proposta e disse par ao Ed que precisávamos ser mais rápidos. O PSG também estava de olho. Albert Stuivenberg havia trabalhado com Memphis quando ele era jovem e aconselhou Van Gaal que não contratasse o jogador.

"Louis havia se decidido, e Ed fez o acordo. Albert estava certo. Memphis não servia para o United".

Depay marcou sete gols em 53 jogos antes de ser enviado para o Lyon, com uma história enfatizando por que ele falhou em Old Trafford. "Ele cometeu um erro que levou a um gol em um jogo no Stoke", lembra um companheiro de equipe do United. "Louis estava furioso, então ele o puniu fazendo com que ele treinasse com os reservas. Memphis apareceu para o jogo em um Rolls Royce. Alguns dos rapazes disseram que não era uma boa ideia. No dia seguinte, ele apareceu para treinar no mesmo carro ".

Van Gaal tentou contratar Sadio Mané do Southampton em agosto de 2015 apenas para o atacante rejeitar uma mudança para Old Trafford porque, segundo fontes, deixou claro que não queria jogar pelo holandês. Em vez disso, o United contratou Anthony Martial do Mônaco; o francês permanece no clube até hoje.

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Mourinho chega, mas a instabilidade continua

A ERA VAN GAAL DEIXOU O UNITED COM UM ELENCO INSTÁVEL, levando seu sucessor, José Mourinho, a gastar muito na tentativa de injetar velocidade, gols e experiência. Paul Pogba, Zlatan Ibrahimovic, Henrikh Mkhitaryan e Eric Bailly chegaram no primeiro verão de Mourinho. Romelu Lukaku, Victor Lindelof e Nemanja Matic fizeram o check-in um ano depois, antes de Alexis Sánchez chegar em janeiro de 2018 do Arsenal.

O Manchester City tinha sido o favorito para contratar Sánchez, mas o United estava preparado para pagar a ele cerca de 400.000 libras por semana e se tornou uma das piores contratações da história do clube. Ex-jogadores do United falaram com seus contatos no Arsenal e a mesma mensagem voltou: "Ele não tem o que é preciso para jogar no United".

"Por que alguém no clube não conseguiu que um dos rapazes falasse com Danny Welbeck sobre ele?" disse um jogador do United à ESPN.

Nesta fase, Mourinho estava reclamando sobre as contratações. Woodward apresentou a ideia de criar o cargo de diretor de futebol, mas Mourinho estava relutante e a ideia foi arquivada. Mas com o técnico reclamando publicamente da estratégia de transferência do clube durante a turnê de verão pelos EUA em 2018, quando ficou claro que os olheiros e a equipe de recrutamento de jogadores do United se opunham ao desejo de Mourinho de contratar Jérôme Boateng, do Bayern de Munique, como seu novo zagueiro, a água começou a subir para José Mourinho. O histórico de lesões de Boateng foi a grande preocupação do departamento de olheiros do United. Havia também uma suspeita dos motivos de venda do Bayern, com o United vendo Schweinsteiger e Owen Hargreaves chegarem da Allianz Arena com dificuldades de manter a forma física.


"O problema de Ed [Woodward] é que ele não sabe o que não sabe. Ele quer o bem do United, mas ele acha que tem a solução para tudo. Ele não tem, o United não tem, e ele precisa contratar as pessoas certas nas posições importantes Ele também é legal demais. Um problema que ele e os Glazers compartilham é que eles não têm uma vantagem. Esse não é o caso no City ou no Chelsea, ou com Levy no Spurs." - disse uma fonte, para a ESPN.


Mourinho também sentiu que o United se movia muito devagar no mercado - a única exceção foi quando Woodward superou o Chelsea para contratar Lukaku - e sua abordagem abalou a determinação do clube em ser estratégico, a fim de evitar os erros de Moyes e Van Gaal. Woodward havia revisado o sistema de recrutamento do clube, espalhando mais de 60 olheiros por todo o mundo, mas Mourinho seguia insatisfeito.

Ele seria demitido em dezembro do ano passado, com Solskjaer nomeado em período integral em abril, depois de inicialmente ocupar o cargo de técnico interino. Woodward anunciou que o norueguês ajudaria o United em um "reinício cultural", voltando o foco para o desenvolvimento de talentos da base. Em setembro, ele disse que o clube contratou Aaron Wan-Bissaka do Crystal Palace após um processo exaustivo que começou com "804 laterais em nosso sistema, com base em relatórios de observação".

Desde a contratação no último minuto de Fellaini, em 2013, até a de Wan-Bissaka, orientada por dados, o United finalmente parecia estar seguindo um plano coerente.


Futebol pouco inspirador

A CULPA É DO TÉCNICO. Você até pode culpar os jogadores e os donos, mas quem paga o preço pelo fracasso é o técnico. O problema do United pós-Ferguson é que eles contrataram o cara errado na hora errada a cada passo. O tempo dirá se o mesmo se aplica a Solskjaer.

"Foi um caos com David Moyes", disse um ex-jogador do United à ESPN. Outro lembrou como o "treinamento realizado na Austrália foi uma m..." durante as primeiras semanas.

"Ele nos disse que nos tornaria mais aptos. Acabamos de ganhar a Premier League com 11 pontos de vantagem, mas éramos um grupo de jogadores que sempre se esforçavam para melhorar, então compramos a ideia", disse um ex-jogador. "Mas o treinamento ... era chato e incontestável. Com o Sir Alex, nós nos aquecíamos em rodas de um toque na bola. Era divertido. Com David, tínhamos dois toques. Piorou tudo.

"Um grande fator para David não ter sucesso no United foi que ele demorou muito para perceber o que havia herdado. A equipe parou de pressionar com Sir Alex. Começamos a defender mais profundamente devido à idade e à experiência da equipe, mas David veio e pensávamos que podíamos jogar futebol em ritmo acelerado. Não podíamos e tivemos um começo terrível do qual nunca nos recuperamos".

Moyes lutou para conquistar a equipe, mas suas tentativas de torná-los mais profissionais, como banir a tradição de jogadores comerem batatinhas na noite anterior a um jogo, irritaram muitos que achavam que ele estava fazendo mudanças simplesente por fazer.

Taticamente, os jogadores também lutaram para se acostumar a Moyes. "Antes dos jogos, ele dizia: 'precisamos fazer 500 passes hoje'", disse um ex-meia do United à ESPN. "O quê? 500 passes? Nós nunca tivemos esse tipo de coisa com o Sir Alex. Antes de jogarmos contra o Bayern de Munique nas quartas de final da Champions League, na Allianz Arena, ele nos disse para tentar ganhar escanteio chutando a bola nas canelas dos jogadores do Bayern. Foi muito engraçado", disse um ex meio-campista do United.

Em sua autobiografia "# 2Sides", Rio Ferdinand afirmou que Moyes não conseguiu se conectar com os jogadores do United. "As inovações de Moyes levaram principalmente a negatividade e confusão", disse Ferdinand. "A maior confusão foi sobre como ele queria que nós movêssemos a bola da defesa para o ataque. Alguns jogadores sentiram que estavam chutando a bola para frente apenas. Toda a abordagem era estranha.

"Às vezes, nossa principal tática era o cruzamento longo, alto e diagonal. Foi vergonhoso. Em um jogo em casa contra o Fulham, tivemos 81 cruzamentos! Eu estava pensando, por que estamos fazendo isso? Andy Carroll não joga para nós!" Quando o United demitiu Moyes, com menos de 12 meses em um contrato de seis anos, o United havia ido de um time campeão para um catado que não conseguia nem se classificar para as competições europeias.


Enquanto Moyes tentou "pegar um peixe muito grande", Van Gaal marchou para Old Trafford no verão de 2014 como vencedor da Champions League com experiência em administrar alguns dos maiores clubes do mundo como Ajax, Barcelona e Bayern de Munique. Ele também havia acabado de guiar a Holanda para a semifinal da Copa do Mundo no Brasil. "Ele se sentiu um 'chefe' desde o primeiro dia", disse um jogador do United à ESPN. "Ele apenas tinha presença e autoridade."

Os funcionários dos bastidores também ficaram imediatamente impressionados. Van Gaal foi cordial e inclusivo a ponto de o bom clima retornar. Mas enquanto Van Gaal colocou o United de volta à Champions League em sua primeira temporada, o futebol se tornou previsível. Ele exigiu que seus jogadores mantivessem sua filosofia de jogo baseado em posse de bola. No momento em que seus rivais na Premier League e na Europa estavam desenvolvendo estilos de jogo mais rápidos e com alta energia, o United de Van Gaal estava ficando mais lento.

"Gostei de Louis", disse um jogador vendido por Van Gaal à ESPN. "Ele era um treinador brilhante. Taticamente, o melhor que já tive. Mas o futebol dele era restritivo e ele não permitia talento no terço final do campo. Se um jogador chutava e errava, ele tinha que se explicar depois. Louis odiava jogadores finalizando de primeira - ele basicamente ordenou que eles dessem um toque na bola antes de finalizar. Louco, sério. "

Van Gaal enviou vídeos para todos os jogadores por e-mail do que eles haviam feito de errado. Quando o ignoraram, os e-mails logo vieram com "recibos de leitura". Durante as reuniões da equipe, o técnico criticava os jogadores na frente de seus colegas pelos erros técnicos mais básicos.

"Foi um trabalho duro para Louis", lembra um jogador veterano. "Chegou ao ponto em que Wayne [Rooney] e Michael [Carrick] foram vê-lo para dizer que era demais e que ele precisava mudar. Ele o fez por um tempo, mas quando foi demitido, os jogadores realmente não aguentavam mais. Os caras ficavam ansiosos pelas datas Fifa para poder fugir um pouco".

Van Gaal foi demitido 48 horas após o United vencer a FA Cup em 2016 - seu primeiro troféu na era pós-Ferguson - com Mourinho contratado em seu lugar depois que o clube também considerou Mauricio Pochettino do Tottenham e o assistente de Van Gaal, e lenda do United, Ryan Giggs.

Com Pep Guardiola assumindo o comando do Manchester City, Mourinho foi a resposta do United: um técnico de grande nome descrito como uma "máquina de troféus" por uma figura importante em Old Trafford. Mas a essa altura, o United era uma sombra da equipe que Ferguson havia liderado ao título três anos antes. Os homens experientes se foram, deixando jogadores como Phil Jones, Chris Smalling, Ashley Young e Antonio Valencia, ao lado de estrelas envelhecidas como Rooney e Carrick. Acrescente as contratações falhas de Depay, Schweinsteiger, Darmian e Schneiderlin e foi fácil sugerir que Mourinho assumiu um desafio maior do que ele imaginara.

O fato de Mourinho ter entregue dois troféus (Europa League e Copa da Liga), chegar à final da FA Cup e se classificar para a Champions League talvez seja testemunho de sua conquista. Mas ele gastou pouco menos de 400 milhões de libras em dois anos e, quando foi embora, o clube não estava em uma situação melhor do que aquela quando ele chegou.

O futebol do United também foi pouco inspirador, quase nos níveis da era Van Gaal, e Mourinho reagiu mal às críticas de ex-jogadores, principalmente de figuras icônicas como Paul Scholes e Gary Neville. Ele também se tornou impopular em todo o clube e no vestiário durante seus últimos meses no comando.

Segundo uma fonte, as coisas ficaram tão ruins com Mourinho que, quando Solskjaer se tornou técnico interino, o pessoal de Old Trafford se referia a ele como o "anti-veneno".


O problema do Ed é que ele é legal demais

NA ESTEIRA DAS MALAS EM NUR-SULTAN, o torcedor do Manchester United aplaudiu os jogadores, mas eles vaiaram Ed Woodward. Ele se acostumou às críticas desde que sucedeu David Gill em 2013, e mesmo em lugares tão distantes quanto o Cazaquistão, a história permaneceu a mesma. Woodward se descreve como um "pára-raios" e, com isso, o abuso que recebe, pessoalmente e nas mídias sociais. Ele pode ser corajoso, mas fontes disseram que a negatividade pode consumi-lo. "Ele é um cara normal e só quer ser amado", disse uma fonte.

Woodward se misturou com torcedores em um bar irlandês em Nur-Sultan, por exemplo, apenas para um se aproximar dele e cutucar o dedo no ouvido do executivo antes que o incidente fosse publicado nas mídias sociais. Fontes do United disseram à ESPN que Woodward não gosta de socializar com a proteção da equipe de segurança do clube. Incidentes como este, no entanto, talvez enfatizem sua ingenuidade.

Os fãs estão frustrados com a forma como Woodward e os Glazers, os proprietários, administram o clube, parecendo se preocupar mais com o sucesso comercial do que com o sucesso em campo. Quando os Glazers, que também são donos do Tamba Bay Buccaneers, compraram o clube em 2005, eles mergulharam o United em dívidas de cerca de 350 milhões de libras. Desde então, os americanos fizeram do United a marca comercial mais poderosa do futebol mundial, mas, ao contrário de Roman Abramovich no Chelsea ou Sheikh Mansour bin Zayed al Nahyan no City, os Glazers não investem seu próprio dinheiro, mas recebem dividendos regularmente. Desde que o Sheikh Mansour comprou o City em setembro de 2008, ele investiu mais de 1 bilhão de libras no clube. Em Old Trafford, os pagamentos de juros sobre a dívida e o dinheiro sacado em dividendos viram mais de 1 bilhão de libras serem drenados dos cofres do United.

Ex-banqueiro de investimentos por profissão, Woodward aconselhou os Glazers durante a aquisição do United enquanto trabalhava na JP Morgan. Ele fala com o co-presidente Joel Glazer diariamente e, apesar das falhas no futebol, uma fonte do United disse à ESPN que ele está "firme" em seu cargo. Mas, assim como os técnicos sucessivos não conseguiram escapar da sombra de Ferguson, Woodward continua sendo medido contra Gill, que presidiu um incrível sucesso e estabilidade ao lado de Ferguson.

"Os jogadores costumavam se referir a David como 'Sr. Gill'", disse um ex-jogador do United. "Mas Ed Woodward nunca teve esse nível de respeito. Ele é um cara legal, as pessoas gostam dele, mas David Gill tinha um status no clube e o United perdeu isso."

No jogo, Woodward estabeleceu fortes relações com figuras de destaque no ramo, incluindo Ferran Soriano, do Manchester City, Daniel Levy, do Tottenham, e outros de Juventus, Bayern de Munique e Real Madrid. Mas uma figura de um clube importante da Premier League disse à ESPN que Woodward sofre de "síndrome do jockstrap", pois fica muito deslumbrado com a relação com jogadores e agentes famosos.

"O problema de Ed [Woodward] é que ele não sabe o que não sabe. Ele quer o bem do United, mas ele acha que tem a solução para tudo. Ele não tem, o United não tem, e ele precisa contratar as pessoas certas nas posições importantes Ele também é legal demais. Um problema que ele e os Glazers compartilham é que eles não têm uma vantagem. Esse não é o caso no City ou no Chelsea, ou com Levy no Spurs".

Um ponto a ser destacado é a falta de um diretor de futebol do United, uma posição que envolve mapear a abordagem de longo prazo do clube em campo e contratar jogadores e treinadores que se encaixam nessa ideia. Quando Mourinho foi demitido, esse papel foi citado como um compromisso urgente. Quase 12 meses depois, fontes disseram à ESPN FC que não é mais uma prioridade.

Woodward admitiu que, às vezes, foi o homem que bloqueou as transferências. "Às vezes eu tenho que ser quem diz 'não', o que não é fácil", disse ele. "Nossa tendência natural é apoiar o técnico em todas as circunstâncias possíveis, mas também precisamos ouvir os especialistas".


'Ole vai precisar ser egoísta'

SOLSKJAER ESTAVA TRANQUILO, sentado no café do Ritz-Carlton Hotel, em Nur-Sultan. O técnico do United estava aliviando as temperaturas extremamente baixas do lado de fora, alegando que "está mais frio do que quando vou para minha casa na Noruega".

"Sejamos justos com Ole, ele está fazendo grandes mudanças", disse um ex-membro da comissão técnica do Solskjaer no United à ESPN. "Mas não sei o quanto sua voz é realmente ouvida no clube e se ele é capaz de fazer o que realmente quer".

A nomeação de Solskjaer como técnico interino, vencendo seus primeiros oito jogos e guiando a equipe a uma notável vitória na Champions League por 3 a 1 contra o PSG na França. Ele recebeu um contrato de três anos em abril. Woodward declarou que Solskjaer era o homem que lideraria o "reinício cultural" do United, oferecendo um futebol atraente e vencedor, com um time predominantemente formado por jogadores da base. Nos bastidores, o departamento de olheiros estava dando certo, com Wan Bissaka sendo a prova de que as coisas estavam mudando. Por sua parte, Solskjaer eliminou jogadores de alto custo, mas com baixo desempenho, como Lukaku, Sánchez e Darmian.

Quando o United entrou em campo contra o Astana, a média de idade de seus 10 jogadores em campo foi de 20,1. O abate foi brutal e a falta de reforços - apenas três contratações nesta janela - significa que Solskjaer deve usar jovens quando quiser dar uma folga aos jogadores mais velhos. É por isso que o United está no meio de tabela nesta temporada, mas os que estão em Old Trafford dizem que o clube não vai gastar muito em janeiro.

O dinheiro está disponível para gastar, mas não se classificar para a Champions League colocaria em cheque a capacidade do United de contratar grandes nomes. E a perspectiva de terminar entre os quatro primeiros da Premier League parece tão distante quanto o Cazaquistão.

Fontes disseram à ESPN que a hierarquia do United está preparada para suportar um período de "dor" para chegar no fim do túnel. Há também uma visão de que a paciência trará recompensas. City e Liverpool são os dois grandes neste momento, mas ninguém em Old Trafford espera que Guardiola permaneça no City por muito mais tempo, enquanto também há uma crença - talvez uma esperança - de que o Liverpool terá que planejar uma vida sem Jurgen Klopp em algum momento nos próximos dois a três anos. Mas esperar que seus rivais falhem não é um plano. Seis anos de erros subsequentes foram extremamente prejudiciais ao Manchester United, mas, quando saíram da Arena

O United vai ter que melhorar em algum momento.