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No aniversário de 7 anos da 'praia pós-queda' do Palmeiras, Tirone se defende: 'Não caí sozinho, a gente tinha um técnico de seleção'

"Pô, e você me liga depois de sete anos para me perguntar disso? Aí, não dá...", disse Arnaldo Tirone, ex-presidente do Palmeiras, bastante irritado, ao ESPN.com.br.

"Como você acha que eu me senti? É óbvio que eu fiquei muito triste", complementou, ao ser perguntado sobre o que se lembrava daquele dia.

Em respeito ao nervosismo do dirigente, a reportagem agradeceu e disse a ele, então, que desligaria o telefone. Mas que faria uma matéria relembrando a data de qualquer forma - e que gostaria de ouvi-lo.

Tirone, então, se acalmou. E decidiu falar.

Pressão alta e pé na areia

Na segunda-feira, 18, nenhum palmeirense queria mesmo se lembrar do dia em que o clube caiu, pela segunda vez, para a Série B do Brasileiro. Muito menos o presidente que ficou marcado pelo acontecimento.

"Ninguém se lembra que eu ajudei muito para que o Allianz Parque fosse aprovado, por exemplo. Ou que fomos campeões da Copa do Brasil. O que fica marcado é a queda", diz Tirone, em uma defesa tímida de seu legado positivo como mandatário máximo do clube alviverde.

Só que, para ele, além do 18, o dia 19 de novembro traz também uma amarga lembrança. Se ontem foi o aniversário da queda, nesta terça faz, então, sete anos que Tirone foi flagrado na praia do Leblon, no Rio, por um fotógrafo. Um dia após o rebaixamento.

"Pô, tava um clima de velório danado e o Arnaldo na praia...", disse Roberto Frizzo, seu vice e homem forte do futebol alviverde na gestão do dirigente, em recente entrevista à ESPN.

"Ele deveria ter se preservado. O homem público deve se preservar", disse, à época, o ex-presidente Paulo Nobre, que o sucederia no clube.

A foto se espalhou rapidamente pelas redes sociais, despertando também a ira da torcida. A cena, inclusive, foi reproduzida em protestos de torcedores, pouco tempo depois, num dos mais geniais gestos de insatisfação contra uma diretoria do clube em 105 anos de história palestrina.

"Deixa eu te explicar isso aí, então", disse Tirone. "Eu fui à praia porque o médico me disse para ir", conta. "Minha pressão estava batendo 20 e o médico me disse que eu deveria tentar relaxar um pouco. E me sugeriu, por exemplo, ir à praia, já que eu ia ficar no Rio. Tomar um banho de mar", conta.

"Eu não estava bebendo, não estava comemorando nada. Estava tentando baixar minha pressão", diz.

O Palmeiras soube do rebaixamento no ônibus, voltando de Volta Redonda, após empatar com o Flamengo em 1 a 1. O time dependia de uma vitória do Grêmio sobre a Portuguesa no Canindé, que não veio - o jogo acabou 2 a 2.

Tirone não estava com a delegação. De carro, para economizar, como conta, ele dirigiu até o Rio, onde tinha uma reunião com a Rede Globo, no dia seguinte. Foi então que ele aferiu sua pressão arterial, que estava muito acima dos saudáveis 12:8 recomendados pela Organização Mundial de Saúde.

O dirigente não ficou nem dez minutos com o pé na areia, conforme conta. Acompanhado de sua mulher, ele logo voltou para o hotel. Mas foi tempo suficiente para o flagra.

"Eu fiquei marcado, mas não fiz nada sozinho", diz. "Eu não chutei a bola, eu não jogava. A gente tinha um técnico de seleção brasileira lá, não tinha?", diz.

'Meu mandato foi mais difícil que o do Paulo Nobre'

Tirone assumiu o Palmeiras com algumas heranças da gestão anterior, de Luiz Gonzaga Belluzzo. Além do caixa combalido, ele encontrou no elenco jogadores que custavam caro, como Kleber Gladiador, Lincoln e, principalmente, Jorge Valdivia.

"Eu recebi várias proposta pelo Valdivia e queria vendê-lo", diz Tirone. "O problema é que ele nunca aceitava o que ofereciam a ele".

"O meu mandato foi mais difícil que o do Paulo Nobre", afirma. "A gente não tinha estádio. Eu não tinha nem sala para despachar", revela Tirone.

"Sem estádio, você não tem um ambiente seu. Fica muito difícil conseguir algo assim", diz.

Primeiro turno foi fatal

Em que pese a reta final do time ter sido muito ruim, Tirone atribui a queda do Palmeiras, principalmente, ao fraco primeiro turno da equipe.

"O Campeonato Brasileiro é muito cruel. Todo mundo entra pensando em título e vaga na Copa Libertadores. E é no primeiro turno que os times estão melhores", teoriza.

Além da campanha cambaleante, a possibilidade de um título também mobilizou aquele grupo, que abriu mão de somar pontos em prol da conquista da Copa do Brasil.

Mas Tirone não crê em relaxamento pós-título.

"A verdade é que, após a Copa do Brasil, ficou tarde para revertermos", diz.

"Felipão era um técnico sério, um cara de confiança. A verdade é que não deu mesmo para somar os pontos necessários", diz.

Missão Riquelme e a manutenção de Barcos

Um dos últimos atos de Tirone no clube foi a contratação de Fernando Prass, talvez o último ídolo da torcida a atuar pelo clube.

Mas Tirone teve a chance de mais duas transferências. A primeira foi a tentativa de trazer o meia Román Riquelme, do Boca Juniors.

"Eu acertei tudo com ele, mas não era justo que eu fechasse o negócio, já que era praticamente meu último dia na presidência. Deixei tudo para o meu sucessor, ele quem deveria decidir", diz.

Pela mesma razão, o tempo escasso, Tirone não negociou o atacante Hernán Barcos.

"Ele também recebia muitas propostas. Quando eu estava no Rio, um representante veio com uma proposta formal. Mas eu também decidi que era melhor deixar para o próximo", diz.

Valeu a pena?

Tirone não quer mais saber da política do clube. Como todo ex-presidente, é conselheiro vitalício. Mas não participa de articulações.

"Não, a minha contribuição, eu já dei", diz ele.

A despeito de todas as dificuldades, indagado se valeu a pena ter sido presidente do clube, ele não titubeia.

"Valeu, sim. Ao menos, conquistamos um título, algo que muitos presidentes do clube não conseguiram", afirma.