Ele esteve por apenas dois anos à frente do departamento de futebol do Palmeiras. Mas a influência de Roberto Frizzo, não apenas no clube alviverde, mas no futebol brasileiro como um todo, começa antes desse período e, gostem ou não, se estenderá para sempre.
"Hoje, quando olho a inscrição 'Primeiro Campeão Mundial', na parede do Allianz Parque, e a estrela vermelha na camisa, chego a me arrepiar", revelou ele, em entrevista ao ESPN.com.br.
Foi Frizzo, conselheiro vitalício e ex-vice presidente do clube entre janeiro de 2011 e janeiro de 2013, o idealizador do dossiê que levou a Fifa, em 2014, a reconhecer a Copa Rio de 1951 como o primeiro Mundial de Clubes - e, por consequência, o Palmeiras como primeiro campeão mundial da História.
Dos primeiros momentos em que se debruçou sobre o tema, ao reconhecimento da conquista por Joseph Blatter, presidente da Fifa, em 2014, treze anos se passaram. E Frizzo, que tinha apenas 6 anos quando da conquista, afirma ter apenas ajudado a dar publicidade a uma verdade que ele já conhecia.
"O Palmeiras sempre foi o campeão mundial de 1951".
Em 2020, Frizzo vai promover um workshop sobre a conquista e o processo para o reconhecimento da conquista. Inicialmente, o evento aconteceria neste ano. Mas foi adiado por conta de uma cirurgia a que Arnaldo Branco, jornalista que elaborou o dossiê juntamente com Frizzo, teve de se submeter.
Fernando Prass e Tirone na praia
Frizzo tem ainda outras participações importantes na linha da vida do Palmeiras.
Sua gestão no futebol ficou marcada por ter sido rebaixada à Série B do Brasileiro. E Frizzo se lembra bem do dia em que o time caiu - bem como do dia seguinte, quando o presidente Arnaldo Tirone foi flagrado na praia do Leblon, no Rio.
"A gente num clima danado de velório e o Arnaldo na praia", relembra-se, aos risos. "É claro que ele tem direito de ir à praia quando quiser, mas naquele dia, especificamente, ele poderia ter se exposto menos", diz ele sobre o presidente com quem, ele afirma, poderia ter tido uma relação melhor.
"Os outros vices foram deixando o apoio a ele, com o tempo. Vieram para mim e disseram que estavam de saída, para eu ir junto, mas eu fiquei até o fim", conta.
Além de Frizzo, foram vice-presidentes da administração Edvaldo Frasson, Mario Gianinni e Walter Munhoz
Também foi durante a gestão de Frizzo como diretor de futebol que o Palmeiras voltou a ser campeão nacional (Copa do Brasil de 2012). "Sem estádio e sem dinheiro", faz questão de ressaltar.
E, no apagar de suas luzes, o dirigente ainda ajudou a desembarcar no clube Fernando Prass, possivelmente o maior entre os ídolos mais recentes da história palmeirense.
Apedrejamento
Frizzo viveu muitos momentos tensos. Como no dia em que seu restaurante foi apedrejado por torcedores, após um a derrota em um Dérbi, em setembro de 2012. Ele estava no local, com o presidente Arnaldo Tirone. Mas eles não foram avistados pelos torcedores.
Teve também de administrar a tentativa de motim comandada por Kleber, depois de o volante João Vitor ser agredido por torcedores em frente à sede social do Palmeiras.
E por causa de um gracejo, ele quase melou a vinda do atacante Hernán Barcos para o clube.
Indagado se o Palmeiras traria o atacante, ele disse que o Palmeiras "não era marina para ter barcos".
"Eu fiz a piada para fugir da pergunta", conta ele, já que o negócio ainda estava pendente. "Mas pegou mal com o clube dele lá (LDU)", relembra-se.
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Como frustração para Frizzo, além do rebaixamento, fica o fracasso de uma negociação da qual ele fazia muito gosto.
"Eu gostaria de ter contratado o Riquelme", diz ele. "Era um cracaço e tinha futebol por mais um tempo. Tanto que eliminou o Corinthians da Copa Libertadores no ano seguinte", diz.
"Eu cumpri meu dever", afirma ele, que já não pensa em ter cargos administrativos no Palmeiras. "O que tinha que fazer, já fiz".
"Foram dois anos em que só entrava em casa para trocar de roupa, fazer mala e sair de novo, para o clube ou para viajar com a delegação", diz.
Mundial: convencimento interno
Quando a conquista da Copa Rio completou 50 anos, em 2001, o Palmeiras programou uma solenidade de comemoração com os jogadores que haviam participado do campeonato. Frizzo, então conselheiro, pediu ao presidente Mustafá Contursi para participar do comitê de organização.
"Ao pesquisar o que tínhamos de material no clube sobre a Copa Rio, encontrei pouca coisa. E então, decidi resgatar essa memória", conta.
"Meu trabalho de reconhecimento interno foi mais trabalhoso que o externo", diz ele. "Todos sabiam da grandeza da conquista no clube. Mas essa questão de reconhecimento dela como um Mundial não havia ocorrido a ninguém. E eu entendia que aquela conquista merecia ter o seu real tamanho", diz.
Acompanhado do jornalista Arnaldo Branco, contratado para tal, Frizzo visitou todos os clubes que participaram do campeonato e redações de jornais pela Europa, recolhendo material, para então desembarcar na Fifa com um extenso documento que viria a dar chancela para a conquista.
Neste ano, porém, em visita ao Presidente da República Jair Bolsonaro, Gianni Infantino, atual presidente da Fifa, voltou a dizer que a entidade não reconhece a conquista palmeirense.
"De verdade, não me importa o que os rivais ou a Fifa dizem", diz Frizzo. "Essa gestão da Fifa não participou do processo, que foi um trabalho minucioso e sério. Se eles querem desdenhar o reconhecimento que eles mesmo deram, também não faz diferença", acrescenta.
O então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e até mesmo o ministro do esporte, Aldo Rebelo, envolveram-se na questão. "Quem leu o dossiê, não tem dúvidas", diz.
Kleber: Xingamentos em público, desculpas em particular
Uma das heranças da gestão Belluzzo para a dupla Tirone-Frizzo foi o atacante Kleber, o Gladiador, muito querido pela torcida. E tudo ia bem com ele, até o dia em que João Vitor foi agredido na frente da sede social palmeirense.
Kleber decidiu iniciar um motim, em outubro de 2011, que visava impedir que o time viajasse para enfrentar o Flamengo no Rio.
"Caiu como uma bomba na minha sala", relembra-se. "O Felipão chegou e disse que o Kleber não ia viajar. O Kleber vinha bater boca comigo, dizendo que ser recusava a ir. E eu tinha de administrar os dois e dar um jeito para que tudo isso não prejudicasse o Palmeiras", conta O jogador foi afastado e não mais atuou pelo Alviverde.
"Eu ainda consegui, posteriormente negociar o Kleber com o Grêmio, por um bom valor", relembra-se (R$ 5,5 milhões por 50% dos direitos).
Quis o destino que Frizzo e Kleber se cruzassem depois de o Alviverde bater os tricolores por 2 a 0, no Estádio Olímpico, na semifinal da Copa do Brasil de 2012, cerca de um ano depois.
"Ele me abraçou, pediu desculpas, foi carinhoso", conta. "Mas eu o tinha ouvido no rádio, no mesmo dia, me xingando de tudo que é nome. Daí, eu falei: 'Você é engraçado! Pra milhares de pessoas, me xinga. Mas, na hora da desculpas, é no particular'", contou.
Betinho corajoso, hino 'insuportável e o bônus de Felipão'
A conquista da Copa do Brasil, como tudo naquela época do Palmeiras, também veio cheia de dificuldades. Que começaram com o fato de o time não ter estádio e culminaram com a apendicite do atacante Barcos no dia da 1ª final, contra o Coritiba.
"A gente viajou o estado inteiro, Jundiaí, Barueri, Araraquara, Canindé... E o Pacaembu, que era bem mais confortável para nós, estava fora de questão, porque o Felipão dizia que era estádio do Corinthians", relembra-se.
"Eu estava no hotel, em Alphaville, quando bateram na minha porta, avisando que o Barcos já estava indo a São Paulo, para operar de apendicite", conta.
Foi pouco depois que o herói daquele título surgiu.
"O Felipão dando a preleção, o Valdivia olhando celular, todo mundo disperso, até pela situação. Aí, o Felipão pergunta: 'Quem aí está pronto para substituir o Barcos?'. E O Betinho levantou na hora e gritou: 'Eu!'. Ali, ele ganhou o Felipão e a posição", relembra-se.
Betinho estava há poucos dias no clube e veio praticamente de graça. "Naquela época, o Galeano ou outro membro da comissão viam o jogador num dia, no outro ele chegava, no terceiro ele jogava. Teve o Betinho e o Max Pardalzinho assim, por exemplo", revela.
Após a conquista, em que Betinho se consagrou com o gol do título, o Palmeiras desembarcou em São Paulo e foi de trio elétrico do Aeroporto de Congonhas para a Academia de Futebol.
"Chovia uma garoa fina e o hino do clube tocou sem parar no trajeto inteiro. Chegou uma hora em que eu não aguentava mais ouvir", conta, entre risos. "E eu olhava para o lado, e o Felipão cantava o hino empolgadíssimo, gritando, fazendo festa. Dias depois, fui ver o contrato dele, e estava lá, previsto um belíssimo valor como bônus pela conquista da Copa do Brasil", revela.
"Aí eu entendi a alegria", diverte-se. "Por essa grana, podiam me levar de volta ao aeroporto que eu voltava cantando o hino o trajeto inteiro de novo", afirma.
O adeus de Felipão e a queda
Uma das atitudes que Frizzo teria tomado, se fosse presidente, e não vice, seria ter dispensado Felipão mais cedo, em 2012.
"Eu cheguei a sugerir para o Arnaldo, mas ele dizia que era melhor mantê-lo, porque ele segurava a bronca", conta.
"Houve outras questões em que discordamos, mas o regime do Palmeiras é extremamente presidencialista", diz. "Mesmo que eu pensasse diferente em alguns momentos, quem tinha a decisão era ele", diz.
Quando o técnico, enfim, avisou que pediria demissão após derrota para o Vasco (1 a 3) no Rio, em setembro de 2012, foi Frizzo quem não quis aceitar, de início.
"Eu disse a ele que ficasse até o fim do ano", revela. "Mas ele estava decidido. Depois, vieram me dizer que ele já estava acertado para voltar à seleção brasileira", diz.
Com Gilson Kleina no comando, o time acabaria mesmo caindo. O rebaixamento foi consumado no ônibus, de volta de Araraquara, depois de o Verdão empatar com o Flamengo, por 1 a 1, com gol de Vagner Love, criado nas categorias de base do clube e que não marcava há nove jogos, até aquele dia.
"Mas foi só uma confirmação. Só de olhar para aquele elenco, pela maneira como se portava, dava para ver que o time não iria mais reagir", diz.
Riquelme queria saber do 'galego'
Com o Palmeiras já rebaixado, quem viajou para a Argentina para tentar a contratação de Riquelme, no fim de 2012, foi o presidente Arnaldo Tirone.
Mas, do Brasil, Frizzo acompanhou cada passo e participou de reuniões via telefone.
Entre negociações e valores, a contratação só não se concluiu porque o presidente eleito Paulo Nobre não quis levá-la adiante, devido aos eu altíssimo custo.
"O Riquelme, mesmo vindo para o Palmeiras ainda ficava fazendo graça", conta Frizzo. "Ele ficava perguntando 'mas e o galego? ele está aí ainda? Bate muito, o galego'", conta Frizzo, entre risos.
O "galego" era Galeano, que pouco tempo antes ainda era supervisor de futebol do Palmeiras, àquela época.
Galeano chegou a dar um soco no camisa 10 do Boca Juniors, então com 22 anos, na semifinal da Libertadores de 2001, quando o Palmeiras foi eliminado nos pênaltis e ficou fora da final (2 a 2 no tempo normal).
Commendatore Frizzo
Por causa do Palmeiras, Roberto Frizzo foi condecorado com uma alta honraria concedida pelos Savoia, a família real italiana.
Ele era diretor administrativo do clube quando a Casa Real quis condecorar o então presidente Luiz Gonzaga Belluzzo e o diretor de Marketing da Adidas na época (em 2009), pelo uso da Cruz de Savoia como distintivo da camisa do time.
"Mas o Belluzzo não conseguiu encaixar na agenda, e sugeriu que eu fosse representar o clube", relembra-se.
Assim, coube a ele receber a "Ordem de São Maurício e São Lázaro", a segunda mais importante da Família Savoia. Por conta dela, Frizzo vai quase anualmente à Itália.
Ainda frequentador assíduo do clube, Frizzo administra alguns negócios, como uma loja de trajes a rigor e os restaurantes Frevo, tradicional rede de lanchonetes de São Paulo.
Entusiasta das artes, ele chegou a "cometer", como ele mesmo brinca, um livro de poesias, em 1968, reeditado, recentemente, por sua filha.
