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EXCLUSIVO - Tim Howard e a aposentadoria: doença, jogo histórico e até cuspe em uma carreira irrepreensível

Na tarde de domingo em Los Angeles, depois de uma derrota por 3 a 1 para o LAFC, que terminou oficialmente nossa temporada 2019 no Colorado Rapids, saí do campo como jogador de futebol profissional pela 815ª e última vez. Antes de atravessar a linha final, parei, fiz uma breve oração, beijei minhas luvas e apontei o céu. Então, segui o meu caminho.

Assim, 22 anos chegaram ao fim. É impossível colocar minhas emoções em palavras. Todo mundo assume que estou triste. Eles perguntam se vou pensar melhor. Mas, na maioria das vezes, no esporte, você não escolhe o seu final. Eu já vi isso com colegas de equipe e amigos - o contrato deles não é renovado. Eles tentam dar um último suspiro. Não conseguem. E é isso.

Eu sou um dos sortudos. Consigo dizer adeus nos meus próprios termos. No meu último jogo em casa no Colorado, em 29 de setembro, meus três melhores amigos de New Jersey - caras que eu conheço desde a escola primária - sentaram-se atrás do gol durante o aquecimento. Foi demais. Eu estava tão inspirado - acho que foi o melhor aquecimento que já tive. Recebido homenagens de tantos jogadores e treinadores de toda a minha carreira - Rio Ferdinand, Carlos Bocanegra, Landon Donavon, David Moyes, a lista continua. E pude compartilhar tudo isso com meu filho, minha filha e minha mãe. Isso é como um conto de fadas.

Após o jogo, realizei uma pequena festa com cerca de 100 amigos e familiares. E nem uma vez me lembro de me sentir triste ou pensar "é isso". Tenho certeza de que tudo vai me atingir em algum momento. Mas, por enquanto, parece o fim de todas as outras temporadas. Isso é tudo que eu sei há 22 anos. As temporadas começam, as temporadas terminam. Talvez isso aconteça no próximo mês de março, quando a nova temporada começar e, em vez de ficar na frente do gol, estarei sentado no sofá.

Desde que me lembro, o futebol sempre foi um grande equalizador. Todo mundo sabe que eu luto contra o transtorno obsessivo-compulsivo e a síndrome de Tourette pela maior parte da minha vida. Não foi fácil. Mas em campo, ninguém se importava. Meus tiques faciais, as tosses, nada disso importava desde que eu não deixasse a bola atravessar a linha e bater na rede. O campo era um lugar onde eu me sentia livre para ser eu mesmo. Era um porto seguro. E o melhor remédio que eu poderia ter tomado.

E é louco pensar em como tudo começou. Seis anos de idade. Jogando pelo Rangers em North Jersey. Pensei que jogar como goleiro era chato. Eu queria estar perto da bola. Então, meu treinador prometeu que eu poderia jogar metade do jogo no ataque se eu passasse metade no gol. Nós tinhamos um acordo. E quando a primeira bola veio voando no meu caminho, eu fui fisgado.

O futebol me ensinou muito sobre a vida. E quem eu sou como pessoa. Mas não houve lição maior do que a de resiliência. Penso em 2003 e aquele garoto nervoso e ingênuo de 24 anos que estava no voo para Manchester, prestes a assinar com o maior clube de futebol do mundo, e não posso deixar de sorrir.

Se eu pudesse voltar, diria àquele garoto que apertasse o cinto. Vai ser um passeio infernal. Haverá dias bons e ruins. Você vai a lugares muito escuros e precisa sobreviver a momentos difíceis. As pessoas vão criticá-lo por décadas sem parar.

Eu também diria a ele que o jogo nem sempre é justo. Assim que você achar que já entendeu tudo, vai dar um tapa na sua cara e colocar você de costas. Sua confiança vai e vem. Mas nunca perca essa crença inabalável de que você pode fazer isso. Por que você pode.

Joguei com tantos grandes jogadores e líderes em minha carreira, mas, para mim, nenhum foi melhor que Roy Keane. Ele era o filho da p... mais durão que eu já conheci na minha vida. Nada menos que brilhante. Ele me ensinou sobre resiliência. E nunca desistir de si mesmo. Peguei muito do que aprendi ao estar com ele e usei durante o resto da minha carreira, tentando passar para a próxima geração.

As pessoas costumam me perguntar sobre minhas melhores lembranças. Honestamente, é tudo um borrão. Todo mundo fala sobre a Copa do Mundo de 2014, na África do Sul, quando defendi 15 finalizações contra a Bélgica. Mas vou ser sincero - por um longo tempo eu fui tão ingênuo sobre o que aquela noite significava para as pessoas. Fiquei tão arrasado que perdemos. Foi quase embaraçoso ver as pessoas perguntando sobre o meu desempenho. Mas, depois que voltamos para casa e percebi o quão épica aquela noite tinha sido para tanta gente, aprendi a ser grato por ela. Quando você inicia sua carreira, quer jogar muito tempo. Você quer que as pessoas se lembrem de você. Ter um desempenho tão espetacular no maior palco do futebol é mais que especial.

Há tantas outras coisas que eu sempre levarei comigo. O dia em que vesti a braçadeira do capitão do Everton quando jogamos contra o Chelsea. Ou no dia em que David Moyes me ensinou o que o termo 'spitting mad' realmente significava. Depois que eu tive um jogo terrível, um dia ele olhou para mim com tanta decepção e começou a gritar e berrar. Eu mal conseguia tirar os olhos do chão. Eu me lembro de ficar olhando para baixo e ver todo aquele cuspe no chão. Foi aí que eu entendi o que 'spitting mad' significava. Ele estava tão bravo, que cuspia ao falar, e me recordo de ter pensado "Entao é isso que significa 'spitting mad'."

São aqueles momentos no vestiário, quando você é desafiado, quando se liga aos seus irmãos e constrói essa camaradagem, que eu mais sentirei falta. Quando comecei, eu era um garoto de 18 anos que jogava com homens na casa dos 20 anos. Este ano, eu tinha 40 anos e jogava com caras dois anos mais velhos que meu filho de 16 anos. E, no entanto, as piadas eram as mesmas. O impulso e a motivação eram os mesmos. A adrenalina que você obtém ao jogar com um monte de caras que querem a mesma coisa é a mesma. É uma droga. É viciante.

Não sei se poderei substituir esse sentimento na aposentadoria, mas estou pronto para seguir em frente. Meu corpo não aguenta mais do jeito que costumava aguentar. Agora eu passo mais tempo com meus filhos. Eu realmente me concentro em continuar crescendo como comentarista. E, no ano passado, me tornei proprietário minoritário do Memphis 901 FC da United Soccer League. Quero nos ajudar a ganhar um campeonato.

Desde que anunciei minha aposentadoria, em janeiro, muitos perguntaram sobre meu legado. Como eu quero ser lembrado? Quero que as pessoas se lembrem de um goleiro que apareceu todos os dias por 22 anos. Não importa o que aconteceu no jogo anteerior, não importa o desafio à frente, eu sempre dei tudo o que tinha. As pessoas terão suas opiniões sobre o meu lugar na história. Mas sempre tentei garantir que, além dessas opiniões, ninguém pudesse questionar meus números. Me levantei a alturas que eu só poderia ter sonhado e depois fui além. E orgulhosamente colocarei minha carreira contra a de qualquer pessoa.

Para os fãs, obrigado por andar comigo todos os jogos, bons e ruins. Desde os aplausos às críticas, cada palavra que vocês disseram me levou a ser o meu melhor. Obrigado também aos meus colegas de equipe. Eu não seria nada sem vocês. Sentirei falta da nossa irmandade e do tempo que dividimos nas trincheiras juntos. Obrigado a todos os treinadores que já acreditaram em mim. Confiar em mim como goleiro titular mais de 800 vezes é o maior elogio que já recebi.

E, finalmente, obrigado, futebol. Você ensinou esse garoto complicado de uma casa sem pai em North Jersey a sonhar grande, acreditar em si mesmo e nunca desistir, não importava o desafio. Eu prometo que isso não é um adeus. É um simples até breve.