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Nikão catava latinhas, fugiu do tráfico e superou o alcoolismo antes de virar herói do Athletico-PR na Copa do Brasil

Um dos heróis do Athletico Paranaense para chegar à final da Copa do Brasil contra o Internacional, Maycon Vinicius Ferreira da Cruz não teve uma vida fácil. O garoto criado em um bairro da periferia de Montes Claros-MG tinha medo de traficantes que o marcavam com cigarro aceso em suas costas.

Nikão só viu o pai uma única vez e perdeu aos oito anos a mãe, que faleceu de câncer. Criado com os irmãos por Rita, sua avó materna, o jogador catou latinhas, capinou terrenos e vendeu alumínio para conseguir dinheiro e ajudar a família.

A história do meia canhoto tratado como uma joia foi contada pela primeira vez pelo jornal Gazeta do Povo na série "Ronaldinhos do Futuro", em 2005.

Aos 11, foi descoberto em um terrão por Wanilton César Silva, o Cesinha, que o levou para as categorias de base do Mirassol. Apesar de ter chorado bastante no começo por sentir a falta de casa, ele virou destaque em pouco tempo na equipe do interior paulista.

O jovem foi levado para fazer testes no CSKA Moscou, da Rússia, onde ganhou o apelidado de "Maradona Negro". Depois, ainda passou pelo PSV, da Holanda, e pelo Príncipe, da Arábia Saudita. Como ainda era muito jovem e não tinha um representante legal para ficar com ele, não conseguiu permanecer fora do país.

Ao voltar ao Brasil, começou uma vida de peregrino por vários clubes. Primeiro, passou pela base de Palmeiras, Santos e Atlético-MG, pelo qual se profissionalizou, em 2010.

As tristezas não pararam na vida do jovem. Aos 16, ele perdeu a avó e dois anos depois ficou sem seu irmão Thiago, que também faleceu. As perdas agravaram os problemas com o alcoolismo, que começaram antes mesmo de entrar na adolescência

Sem conseguir se firmar no Galo, rodou por Vitória, Bahia, Ponte Preta, América-MG, Linense-SP e Ceará.

Em todas as equipes, seu talento era reconhecido, mas ele não tinha uma vida de um jogador profissional. Abusava das noitadas e não conseguia manter a forma física.

Volta por cima

Mesmo assim, foi contratado em janeiro de 2015 pelo Athletico-PR em uma aposta do dirigente Mário Celso Petraglia, que conhecia Nikão desde a base.

O atacante chegou bastante acima do peso e por muito pouco não enterrou sua carreira em alto nível para sempre. Fora da pré-temporada do elenco principal, na Espanha, ele ficou treinando no CT do Caju para entrar em forma.

Nikão queria abandonar o clube, mas foi convencido por Cesinha a permanecer depois de uma ríspida discussão por telefone. Ele corria o risco de ser mandado embora por Petraglia.

Após “engolir seco”, o atacante conseguiu se destacar a última rodada do Torneio do Morte do Campeonato Parananese de 2015. Ele marcou um gol e deu duas assistências no jogo contra o Nacional-PR e ajudou a salvar o time sub-23 do Athletico do rebaixamento.

Apesar de sua carreira começar a andar, ele ainda enfrentava graves problemas matrimoniais e com álcool fora de campo. Por ter perdido tantas pessoas queridas, o jogador parecia não ver muito sentido na vida e queria aproveitar cada dia como se fosse o último.

Em agosto, ele teve uma briga feia com sua esposa e foi buscar na religião uma mudança em sua vida.

Desde então, Nikão mudou. Parou com a bebida, passou a se dedicar mais à sua família e virou um atleta profissional de fato. Entrou em forma e conseguiu depois engravidar a esposa, que recebeu o nome de Thiago Vinícius, uma homenagem ao irmão falecido de Nikão.

Desde então, ele venceu o Campeonato Paranaense (2016), Copa Suruga Bank (2019) e a Copa Sul-Americana (2018). No ano passado, o jogador chegou a ser cobiçado pelo Grêmio e quase acertou com o Baniyas Sports, dos Emirados Árabes.

Ele deixou claro que gostaria de sair, mas Petraglia não aceitou a oferta do time árabe. O próprio técnico Tiago Nunes disse que o jogador perdeu espaço por estar pensando em uma transferência. Nikão recuperou seu espaço nos últimos jogos e foi responsável direto pela classificação do Athletico-PR à final da Copa do Brasil.

O camisa 11 marcou o segundo gol do Furacão que venceu o Grêmio por 2 a 0 no tempo normal e depois superou os gaúchos nas penalidades.