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Goleiro que 'pega até pensamento' do Bahia tem apelido de Taffarel, jogou no Irã e venceu o câncer

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Bahia orgulha Douglas Friedrich com posicionamentos: 'Usar o futebol, que derruba barreiras, para influenciar novas gerações' (1:24)

Goleiro disse que atletas tem a responsabilidade com sua comunidade de aproximar as pessoas (1:24)

Destaque do Bahia no Campeonato Brasileiro e líder na posição de goleiro do Prêmio ESPN Bola de Prata Sportingbet, com 5,81 pontos, após ultrapassar Weverton, do Palmeiras, o arqueiro Douglas Alan Schuck Friedrich ganhou uma batalha que muitos jogadores profissionais tentam, mas não conseguem: chegar a uma grande equipe da Série A. Esse triunfo, porém, é até pequeno se comparado a outra "guerra", esta bem mais difícil, que o gaúcho de Candelária, a 190km da capital Porto Alegre, teve que disputar: a luta pela vida.

Entre 2007 e 2008, quando ainda dava seus primeiros passos nas categorias de base do Adap Galo Maringá, do Paraná, Douglas foi diagnosticado com câncer no testículo. Teve que fazer uma operação de emergência e ficar quase um ano em tratamento.

"Foram 10 meses parado do futebol, porque tive um tumor no testículo esquerdo. Ele sempre inflamava e minha família me mandou ver isso no urologista. Ele detectou o problema e fiz uma cirurgia de urgência lá em Maringá para retirar, teve que ser rápido para não passar para outros órgãos. Tive que fazer quimioterapia de cinco meses até me recuperar. Só no começo de 2008 eu voltei a ter uma rotina de atleta", conta o arqueiro, em entrevista ao ESPN.com.br, em 2016.

Após a quimoterapia, Douglas ficou esquálido e completamente careca, já que o tratamento contra o câncer sempre cobra seu preço. No entanto, hoje o atleta está completamente curado e só tem motivos para sorrir.

"Tinha perdido muito peso e todo o cabelo, mas graças a Deus fui curado. Foi um período tremendo, minha perspectiva era zero, estava lutando pela vida. Claro que, como jovem, eu queria voltar ao futebol, mas primeiro ter uma vida normal. Foi uma experiência que marcou minha vida e me dá força até hoje", relata.

"Quando estou desanimado lembro desse período na cama sem por sair de casa e hoje tenho toda saúde, não tenho motivo para reclamar, estar triste ou desanimado. Minha família me apoiou muito nesse período, e com amor a gente tem mais força pra lutar", acrescenta.

No início de 2008, Douglas resolveu tentar retornar ao futebol. A chance para recomeçar a carreira veio bem longe de casa, em um lugar no qual o gaúcho nunca esperou atuar.

"Cada dia eu dava uma melhorada, mas tinha que me cuidar muito, porque os remédios eram muito fortes e minha imunidade estava muito baixa. Voltei bem fisicamente e sem sequelas, e aí veio minha chance, quando fui emprestado para um time do Irã. Tinha feito um DVD bem humilde, que foi passando de mão em mão aá chegar a um empresário iraniano que mora em Londres. Ele gostou e me indicou. Foram seis meses de volta ao futebol até chegar lá", lembra.

As aventuras de Taffarel no Irã

Nascido em uma cidade de 30 mil habitantes no interior do Rio Grande do Sul, Douglas é descendente de alemães, como indicam seus sobrenomes. Apaixonado por futebol desde a infância, tentou começar como jogador de linha, mas, como ele mesmo admite, era "grossão". O jeito foi se arriscar no gol, posição na qual se destacou desde o primeiro treino. Uma opção até natural para quem tem 1,94m de altura.

Quando os habitantes da pequena Candelária viram aquele branquelo e loirinho fechando os gols da cidade, não teve jeito do arqueiro ganhar outro apelido.

"Os mais antigos da minha cidade me chamam até hoje de Taffarel, porque sou goleiro, loiro, pareço com ele, né? Daí o apelido pegou (risos)", diverte-se.

Após iniciar em uma escolinha, em 2005, foi aprovado em peneiras no Guarani, Ponte Preta e Mogi Mirim, em São Paulo. Depois, foi para uma equipe de empresários do Paraná, aos 16 anos, sendo repassado ao Mirassol na sequência.

Em 2006, chegou ao Adap Galo Maringá, onde completou as categorias de base, mas teve que interromper a transição ao profissional depois de descobrir o câncer no testículo. Após o tratamento, foi emprestado ao Naft Abadan, da segunda divisão do Irã, clube pelo qual acabou fazendo sua estreia como profissional.

"Fui com apenas 19 anos e cheguei lá na cara e coragem. É um país bem diferente do que a gente imagina, é muito seguro lá dentro. O povo não é fechado, ao contrário, eles amam futebol e os brasileiros, fui muito bem recebido. Nunca tive problemas por ser cristão em um país muçulmano. A cobrança com os brasileiros é enorme porque acham eu você precisa ser do nível de seleção. Foi uma experiência incrível mais do que profissional, foi de vida mesmo", recorda.

"Fiz minha estreia como jogador profissional no Irã, antes nunca tinha atuado oficialmente. Essas temporadas que passei foram muito boas, consegui o acesso para a primeira divisão e depois voltei ao Brasil, pois eles não permitiam goleiros estrangeiros na primeira divisão", completa.

Sempre bem humorado, Douglas não teve problemas para vencer as diferenças culturais entre Brasil e Irã. Aprender um pouco de parse, a língua local, e em pouco tempo estava até atuando como tradutor para os outros atletas brasileiros do elenco.

"Achei engraçado no começo que não pode nem dar a mão para uma mulher, mas os homens todos 'barbudões' se cumprimentam com três beijos (risos). Depois virou normal, é da cultura deles e você se acostuma. Eu era muito respeitado e ainda tenho muitos amigos lá, porque eu procurei conhecer a cultura deles", conta.

Após retornar do Irã, Douglas se viu sem time no Brasil. Esperou por alguns meses e conseguiu uma chance no Capivariano, equipe que hoje disputa a elite do Campeonato Paulista, mas à época estava na 4ª divisão estadual.

Logo de cara, foi vice-campeão e conseguiu o acesso para a Terceirona. Foi contratado na sequência pelo Ituano, e depois retornou a Capivari para disputar a Série A-2 do Paulista. Ainda jogou no Caxias-RS e passou mais uma vez pelo Capivariano, desta vez para disputar a elite do Estadual, antes de ser emprestado ao Bragantino.

No clube de Bragança Paulista, fez excelente Série B e chamou a atenção do Corinthians, que o contratou no fim de 2016.

Como não teve chances no Parque São Jorge, ele foi emprestado para o Grêmio e o Avaí antes de chegar ao Bahia, em 2018. Pela equipe tricolor, ele foi bicampeão baiano.

"Você tem que plantar dia após dia. Sou muito grato a Deus, cada lugar que passei me acrescentou na vida profissional e pessoal", afirma.

Neste ano, Douglas vive o melhor momento de sua carreira em Salvador, com grandes atuações nas últimas rodadas. Contra o Atlético-MG, ele fechou o gol e garantiu o triunfo de sua equipe por 1 a 0 mesmo fora de casa.