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Conheça o Linfield, multicampeão irlandês que nunca chegou a uma fase de grupos continental

"Noite histórica" e "impressionante" foram apenas alguns dos termos que estamparam sites e jornais esportivos de Belfast, na Irlanda do Norte, em 13 de agosto de 2019.

A vitória do Linfield FC, time da capital, sobre o FK Sutjeska, de Montenegro, significava o retorno do clube aos playoffs da Liga Europa pela primeira vez desde 1966, e a possibilidade de fazer história mais uma vez - algo comum para a maior equipe do país.

Donos de uma história mais rica do que sua pouca popularidade internacional possa sugerir, os Blues da Irlanda do Norte são a equipe mais vitoriosa não apenas do país, mas da história do futebol. Com 223 títulos acumulados, possuem a marca do segundo time a vencer mais vezes a primeira divisão nacional, tendo o feito 53 vezes, uma a menos que o Rangers (54), da Escócia.

Mesmo com tantos triunfos, porém, o clube jamais se classificou para a fase de grupos de uma competição europeia, bem como seus compatriotas. Sem vagas diretas pelo baixo desempenho da Irlanda do Norte no esporte, o principal torneio nacional distribui uma única vaga para as rodadas preliminares da Champions League, e outras seis para a Europa League.

Além das quatro linhas

A riqueza do enredo do Linfield não se limita ao que é feito dentro de campo. Fundado em 1889, o clube tem sua história fortemente entrelaçada a de seu país natal, em especial nas esferas política e religiosa. De origem protestante, o clube teve durante anos como parte de seu estatuto uma regra que proibia a contratação de jogadores que seguissem outras religiões, em especial a católica, bandeira defendida pelo Belfast Celtic.

Um dos grandes marcos do embate entre os dois rivais aconteceu em 1948, em um derby realizado durante o Boxing Day. No Windsor Park, casa do Linfield e da seleção nacional que conta com 21 mil lugares - diferente dos grandes palcos da vizinha Irlanda -, um grupo de torcedores da casa invadiu o gramado após o dramático empate em 1 a 1 e feriu um dos jogadores da equipe católica por ser protestante.

O centroavante Jimmy Jones, na época com 20 anos, sofreu uma fratura na perna direita e foi deixado inconsciente, o que levou o episódio a ter grande repercussão na mídia internacional. Nos registros históricos do clube, o próprio Linfield relata o incidente como o dia em que sua imagem "foi jogada no lixo por um grupo de pessoas frias e irresponsáveis que se diziam torcedores".

A gravidade do acontecimento levou a Irish Football Association (IFA) a se posicionar publicamente, punindo os dois clubes. Os pesos aplicados, porém, foram no mínimo questionáveis, pois deixavam claro o favorecimento ao clube protestante. Enquanto o Belfast Celtic foi excluído da liga, o Linfield foi penalizado em jogos como mandante, tendo de realizar duas partidas fora de Windsor Park.

Em meio aos confrontos entre nacionalistas e unionistas que decorriam desde a década de 20, motivados pelo desejo de união à República da Irlanda e o desejo de permanecer no Reino Unido respectivamente, o episódio ganhou contornos ainda mais políticos, sendo usado como argumento para ambas as partes.

Novos tempos em Belfast

No mesmo período em que decorria a Segunda Guerra Mundial, a Irlanda do Norte vivia uma crescente no que dizia respeito à fé católica, fator que começou a pressionar não apenas o governo por igualdade de tratamento, mas também as instituições esportivas.

Apesar de contar com um membro não protestante em seu staff, o Linfield continuava a evitar a contratação de atletas católicos. Após a guerra, porém, o clube não havia voltado a olhar para atletas da fé oposta, condição que se manteve até a década de 90.

Em 1992, a Cúpula Nacional Irlandesa, fundada e comandada pelo padre Sean McManus, deu início a uma campanha de repúdio à discriminação religiosa e direcionou alguns de seus protestos ao Linfield por sua política de contratações. A ideia era pressionar o clube a fazer mudanças em seu estatuto, exigindo até mesmo intervenções financeiras da IFA ou a exclusão da liga se necessário para que houvessem mudanças.

Mesmo com o temor da rejeição e de protestos por parte da torcida em especial, os primeiros jogadores católicos do clube no pós-guerra chegaram poucos meses depois, entre eles o atacante irlandês Dessie Gorman.

Já à porta do novo milênio, a contratação de atletas independentemente de sua fé não deixou de ser um tabu em Belfast, mas não era também uma raridade. O progresso em termo de aceitação se tornou uma crescente no Linfield, que em 2011 teve Michael Gault como seu primeiro capitão católico.

Voos mais altos

A rica história dos Blues da Irlanda do Norte pede, agora, mais uma nova quebra de paradigmas. A apenas um passo de sua primeira fase de grupos da Liga Europa, o Linfield terá pela frente o desafio de bater o Qarabag, do Azerbaijão.

Fazendo em Belfast o primeiro jogo nesta quinta-feira (22), o desconhecido time que já foi bandeira do protestantismo agora busca seu lugar ao sol mesmo que por alguns minutos para mostrar ao mundo a grandeza pouco conhecida de sua história.