Jurgen Klopp não se lembra do nome da rua, mas se recorda do trânsito impressionante que atrasou sua chegada a Manhattan para a reunião que deu início a tudo. Ele não consegue distinguir exatamente qual prédio era, dada a quantidade de arranha-céus em Nova York, mas ele se lembra da alegria de entrar na entrevista que mudaria a sua vida e de uma das mais importantes instituições esportivas do planeta.
A rua era a Lexington Avenue. O tal prédio era da Shearman & Sterling, escritório de advocacia. A data era 1º de outubro de 2015, e o Liverpool queria avaliar a visão de longo prazo do homem que eles gostariam que se tornasse o técnico da equipe.
Klopp levou 6h para ir até o leste de Nova York, devido à reunião anual da Assembléia Geral das Nações Unidas. O principal proprietário do Liverpool, John W. Henry, o presidente da Fenway Sports, Mike Gordon, o presidente Tom Werner e o ex-diretor executivo do clube, Ian Ayre, ficaram tão impressionados com o detalhamento do alemão que começaram a pensar em um acordo com o agente de Klopp, Marc Kosicke. A conversa durou cerca de 1h. Klopp insistiu que restauraria os Reds como uma potência mundial. E ele conseguiu.
Criar uma identidade certificada no campo? Sim. Despertar a torcida apaixonada do clube? Sim. Devolver o Liverpool ao posto de gigante nacional e europeu? Sim.
No icônico Lotte Palace Hotel, a 10min a pé de onde ele desenhou sua estratégia para o clube, Klopp reflete sobre a evolução da equipe nos quase quatro anos desde sua contratação. "Para ser honesto, naquele dia em que estivemos aqui, estávamos cheios de esperança, cheios de sonhos, cheios de otimismo", disse ele à ESPN. "Eu vim para o Liverpool porque é um clube maravilhoso. Eu gostei do time, amei a história, todas essas coisas. Então eu estava muito, muito otimista de que seríamos bem-sucedidos."
A equipe de longa data que fica em Melwood, o QG de futebol do clube, compartilha suas perspectivas de uma "mudança absurda em todos os aspectos" do Liverpool, da nutrição ao recrutamento, da qualidade do time de bastidores até os analistas de desempenho. Vencer o sexto título europeu ao derrotar o Tottenham por 2 a 0 em Madri e obter 97 pontos na Premier League não foi por acaso.
"Tomamos muitas decisões e vamos fazer muito mais no futuro. Mas sei nem todas podem funcionar no final", disse Klopp. "Você tem que aceitar que você precisa de sorte nessas situações também, então isso significa que você pode falhar. Você não tem que mudar só por mudar. Você tem que melhorar as coisas. E melhorar quer dizer que ter a mesma pessoa fazendo o mesmo trabalho por mais um ano. Isso é uma melhoria. É realmente sobre todos nós, usando a experiência que ganhamos para ser melhor do que antes."
Klopp viu o seu talentoso Borussia Dortmund ser desbancado pelos predadores do jogo no mercado de transferências: Nuri Sahin partiu para o Real Madrid, Mario Gotze e Robert Lewandowski foram seduzidos pelo Bayern de Munique e Shinji Kagawa foi para o Manchester United. Ele não queria que isso acontecesse de novo com o Liverpool, que se tornou mais preparado para se defender de seus astros sob sua orientação.
Com exceção da venda de cerca de R$ 540 milhões de Philippe Coutinho para o Barcelona em janeiro de 2018, o clube não cedeu um jogador chave desde que Klopp assumiu o comando. Ao mesmo tempo, o Liverpool se certificou de que seus principais jogadores permanecessem ali. Salah, Mané, Firmino, Jordan Henderson, Joe Gomez, Trent Alexander-Arnold, Andy Robertson e Divock Origi assinaram extensões de contrato com o Liverpool no ano passado. Virgil van Dijk quer chegar a um acordo, James Milner está à espera de um e Alex Oxlade-Chamberlain deverá receber em breve.
"Na verdade, essas são as nossas contratações, mas ninguém está interessado em ouvir isso", disse Klopp.
"Você tem um jogador, ele é bom, você quer mantê-lo, se ele assinar um contrato novo, para algumas pessoas, isso significa apenas que ele será mais caro quando nós o vendermos, ou algo do tipo."
"No nosso caso, estas são as nossas transferências. Os novos contratos e manter esses meninos aqui são sinais forte e forte para o mundo exterior. São sinais maravilhosos para ser honesto."
Klopp prega que o triunfo na Champions League não teria sido possível sem aprender com a derrota para o Real Madrid na final do ano passado. De fato, todos os "momentos quase" do Liverpool - perder a final da Copa da Liga de 2016 nos pênaltis para o Manchester City, a Liga Europa para o Sevilla na mesma temporada e as dolorosas cenas em Kiev - contribuíram para o sucesso final.
Ele explica como isso aconteceu.
"Você tem que perder muito para perceber que não é um perdedor. Você aceita que isso aconteceu, mas que ainda pode ser um vencedor. Essas são as coisas que nos deixaram mais fortes e eu estou feliz que eu tenho esses meninos, que eu mantenho esses meninos juntos porque eles passaram por todas essas coisas."
"Este grupo à parte, os jogadores que contratamos no ano passado sofreram uma derrota muito dura na final da Champions League. Aliás, nós perdemos para o Real Madrid e vencemos em Madri. Foi como deveria ser."
A maneira pela qual o Liverpool reagiu a uma derrota por 3 a 0 para o Barça no Camp Nou foi sinalizada por Klopp como seu momento de de destaque. Na partida de volta, em Anfield, Firmino, Salah, Oxlade-Chamberlain e Naby Keita ficaram fora por lesão. Mesmo assim, eles conseguiram uma virada histórica e fizeram 4 a 0 no time catalão.
"Eu sabia que nós podíamos fazer isso. Mas somos seres humanos. Às vezes funciona e nós podemos sair vitoriosos naquele dia, ou podemos ter um dia ruim e ainda estar ali", disse Klopp. ”Mas aquela foi uma atuação perfeita contra o Barcelona."
"O que quer que façamos, se não o fizermos de maneira corajosa, não vai dar certo no mais alto nível. A forma como jogamos naquele dia, essa foi a prova de que 'Uau, tudo é possível'."
"Ter essa experiência como técnico de futebol, estar envolvido nesse jogo... Eu não sinto orgulho por muitas coisas, mas fiquei muito orgulhoso desse momento. Eu realmente pensei: 'Uau, isso é especial'."
A imagem daquela noite fala mais frequentemente é o escanteio cobrado por Alexander-Arnold que pegou todo mundo de surpresa, exceto Origi, que marcou e mandou o Liverpool para a final.
"Quando conto às pessoas a história do jogo contra o Barcelona, não deixo de mencionar o escanteio", disse ele. "É a coisa mais inteligente que eu já vi no futebol. A melhor coisa é que o Trent tem só 20 anos. E melhor ainda, ele cresceu do lado de Melwood, e eu sei como as pessoas apreciam as figuras locais. Para alguns, pode ser muita pressão. Mas não para o Trent."
Alexander-Arnold ganhará um mural, que está sendo montado perto do estádio, onde o momento decisivo da carreira do lateral-direito aconteceu. "Espero que seja grande o suficiente, que ele goste e que tenha bastante amigos e família em Liverpool para aproveitar", disse Klopp. "Espero que eles tirem fotos na frente dele como acontece comigo."
O cuidado genuíno de Klopp e o vínculo com seus jogadores ajuda muito a explicar como tantos conseguiram contribuir durante uma temporada fenomenal para o Liverpool, apesar de estarem frustrados com a falta de oportunidades. Origi marcou cinco dos gols mais importantes do clube em 2018-19. Joel Matip, que se lesionou e começou a campanha como o quarto zagueiro do time, acabou sendo tão influente quanto Van Dijk nos últimos jogos.
"Daniel Sturridge, [Xherdan] Shaqiri ...", Klopp continua. "Não havia ninguém que não fizesse o seu trabalho."
"A melhor decisão da história, e eu sou muito crítico da Uefa e da Fifa e de quem quer que seja quando falamos sobre o calendário, foi permitir que todos os jogadores estivessem no banco na final da Champions League. Isso foi ótimo."
"Para ser honesto, um dos meus destaques pessoais é o momento em que o Alberto Moreno pula nas minhas costas. Eu não sabia que era ele. Não é importante que ele pule nas minhas costas, é importante ver o quanto isso significava para ele. Eu desejo tudo de melhor para ele, do fundo do meu coração."
"Eu adoraria tê-lo ajudado mais, mas eu não podia. E a comemoração mostra tudo sobre ele. Significava tudo para ele fazer parte desse time e ser uma lenda do Liverpool, que ele é agora."
Klopp ficou encantado com o fato de Sturridge e Moreno terem conseguido se despedir do Liverpool em alta, como campeões europeus e participando de um desfile de mais de 700 mil pessoas.
"A única coisa boa de ficar algum tempo sem vencer títulos. Você pega todo o desejo, todos os sonhos e espera até que você possa usá-lo no dia em que você ganhar alguma coisa. E será difícil superar isso no futuro. Eu adoraria se algum cientista pudesse me explicar como 700 mil pessoas podem manter um tom, constantemente, durante quatro horas."
O Liverpool é o Rei da Europa pela sexta vez, mas Klopp quer mais. Com a preparação para a próxima temporada se intensificando a cada dia, Klopp não tem tempo a perder.
Durante a reunião na Lexington Avenue, Klopp havia insistido que o maior concorrente do Liverpool será sempre o próprio Liverpool. Um aumento em ganância e crescimento coletivo não é mais uma demanda. Se torna lei.
