Adeus, Juarez Soares

Reprodução/RedeTV

Ele foi um dos grandes do jornalismo esportivo brasileiro. Apesar de sua estatura não ser das maiores, tinha 1,68m, no máximo, de altura.

Seu jeito autêntico e simplório de falar no rádio e na TV foi um divisor de águas numa época em que a formalidade e a robustez da língua portuguesa imperavam também na crônica esportiva brasileira.

Juarez Soares foi um ícone da nossa profissão. Era um modelo para quem queria praticar o jornalismo de forma isenta e combativa, compromissado sempre com a verdade e com a notícia.

Foi esse homem que eu conheci quando eu era “foca” (nome dado ao jornalista iniciante) na década de 90.

No meu caso, trabalhar e vê-lo caminhando e desfilando sabedoria na redação da TV Bandeirantes era algo inacreditável para um iniciante que via, além dele no ar, gente da estirpe de Gílson Ribeiro, Eli Coimbra, Luciano do Valle, entre outros gigantes que faziam parte de um dos maiores times de jornalistas esportivos que a TV brasileira conseguiu reunir.

Durante uns três ou quatro anos, Juarez, além de comentarista de jogos e de programas, foi também chefe de redação daquele “Dream Team”, o time dos sonhos que tocava o “Show do Esporte”.

Juarez era o comandante que nos dava segurança e retaguarda para que desafiássemos os obstáculos e desenvolvêssemos a criatividade. Era como um maestro na regência de uma equipe que, somada, chegava a mais de 200 profissionais.

Lembro das histórias contadas por ele, principalmente das passagens no rádio onde, ao lado de Osmar Santos, revolucionou a linguagem jornalística com o programa “Balancê”, da extinta rádio Excelsior.

Amigo de Fausto Silva, Edson Scatamachia e outros gênios da comunicação, Juarez só fez somar no comando da equipe de Luciano do Valle durante o período que esteve à frente e atrás do vídeo na TV Bandeirantes.

Era um visionário que dava espaço para os grandes e, principalmente, para os jovens talentos que chegavam para trabalhar naquela equipe de “superstars”.

Se metia nos roteiros dos programas, sempre com a intenção de deixá-los, além de mais informativos, mais atraentes e inteligentes.

Juarez era assim, pai e mãe de todos na redação. Fazia questão de que colocássemos nas reportagens e transmissões um pouco mais de cinema, música, teatro e cultura brasileira a cada trabalho. Talvez tenha sido a convivência com Osmar Santos que o fez ser assim, pouco previsível e sempre surpreendente.

Lembro-me bem de uma de suas grandes frustrações na profissão quando foi demitido da Band, praticamente dentro do avião, quando voltava dos EUA onde trabalhou na transmissão do tetracampeonato do Brasil em 1994.

No nosso último encontro, chorei ao abraçá-lo na Rede TV! quando gravei com ele depoimentos para o documentário: “Vai Garotinho que a Vida é Sua”, em comemoração ao aniversário de 65 anos do Pai da Matéria, Osmar Santos.

À época recordamos minhas travessuras na Band e os conselhos que ele sempre me dava para que eu não me metesse com mulheres erradas. Rimos muito, sem falar da saída dele do canal que foi traumática. Aliás, foi por causa da saída dele que me senti órfão na profissão e logo decidi também sair da emissora. Isso, na verdade, eu nunca tive coragem de falar para ele, nem para ninguém.

Recordo que, quando já estávamos guardando o equipamento de gravação, pouco antes de nos despedirmos, perguntei da esposa dele, a Helena de Grammont, uma das maiores e mais competentes repórteres da história do jornalismo brasileiro, e ele respondeu: “Marcelinho, a Helena está na cama já faz algum tempo. Está com Alzheimer, não fala mais e não reconhece ninguém. Acho melhor você ficar com a imagem dela como a grande repórter que você conheceu. A vida é assim, meu filho”, desabafou.

Foi um dia que eu jamais vou esquecer. Pouco antes de gravar com o meu velho chefe e mestre, havíamos gravado com o Fausto Silva nos corredores da Globo, coisa rara, já que o apresentador não dá entrevistas para ninguém e só havia nos recebido porque a pauta era uma homenagem a Osmar Santos.

Passados cinco anos desse nosso último encontro, fico aqui refletindo como é a vida e como são os ensinamentos que o grande “China” despejava a cada vez que abria a boca para falar. Heleninha ainda está por aqui, já Juarez...

Vá com Deus, China.

E quando tiver a permissão do “Homem lá de cima”, nos mande a velha sabedoria na tentativa de tornar a humanidade um pouco mais generosa como você sempre foi.

Beijo grande, Amigo!