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Olímpico, o lendário estádio do Grêmio que definha antes de seu triste fim

Do palco onde batalhas foram travadas e vencidas, a América foi conquistada e inúmeras 'avalanches' vieram a baixo, restou apenas o cenário de pós-guerra.

O Estádio Olímpico Monumental reserva uma memória afetiva imensurável para qualquer gremista. Seu presente, no entanto, gera apenas melancolia e dores de cabeça à vizinhança.

Substituído pela moderna e bela Arena, o estádio deu seu último suspiro futebolístico em 17 de fevereiro de 2013, quando foi utilizado na vitória do time tricolor sobre o Veranópolis por 1 a 0, pelo Campeonato Gaúcho.

A partir de então, o Grêmio não voltaria mais a sua antiga casa. O time seguiu brilhando, conquistou a Copa do Brasil e a Copa Libertadores, e os holofotes estavam apenas no moderno estádio. O Olímpico, por sua vez, sequer ficaria com as luzes dos seus próprios refletores.

O estádio construído em 1954 faz parte do acordo entre Grêmio e OAS e, embora ainda pertença ao clube, este não pode realizar qualquer intervenção no local - o máximo que faz é a limpeza e algumas poucas ações de manutenção. Além disso, uma equipe de 12 seguranças atua 24 horas no local, segundo informou o assessor especial da presidência, Luis Moreira.

Como a empreiteira entrou em recuperação judicial em meio a escândalos na Operação Lava Jato, esta não foi adiante no plano de demolir o local para construir um conjunto de prédios.

Enquanto isso, o Grêmio atua em sua nova casa, que pertence à Arena Porto-alegrense. O interesse do presidente Romildo Bolzan Júnior em que os tricolores consigam assumir o controle administrativo não é novo, mas ele não se mostra esperançoso de que isso ocorra até o fim de 2019.

Neste cenário, o Olímpico definha. Quem anda ao redor do estádio percebe as janelas quebradas, as pichações e partes do estádio em ruínas. O clube até já foi notificado pela Secretaria da Saúde há um tempo.

“O Grêmio não tem nenhuma atividade no Olímpico, nenhuma situação de funcionabilidade. O sentimento é uma situação triste, porque na verdade não foi assim que o negócio foi concebido. O negócio foi concebido para ir à frente. Aquele patrimônio da forma que ficou é uma situação bastante desagradável para todos, porque tem muita memória, muita história, e ficando daquela maneira cria um grande constrangimento aos gremistas”, afirmou Bolzan.

Luis Moreira diz que o fim desta realidade não está distante. “Está meio perto, pelo que estamos vendo, de chegarmos a um acordo com eles. As empresas que vão fazer a demolição até já andaram, faz uns 30 dias, olhando e fazendo um levantamento, mas isso já faz 6 anos que está nessa. Agora parece que está perto, parece que chegaram a um acordo com os bancos e com uma empresa que vai assumir lá”, declarou, no começo de julho.

O que dá para assegurar com este impasse é a dor que causa nos gremistas. O ex-goleiro e ídolo Danrlei viveu intensamente o clube e o estádio, lembrando que a concentração era feita no próprio local, onde, por exemplo, o elenco dormiu antes do primeiro jogo da final da Libertadores de 1995 contra o Atlético Nacional.

“Eu tive minha vida aqui dentro, morei dentro do Olímpico e posso dizer literalmente a minha casa. Ela ficar deteriorada da forma que está hoje, quase deixada de lado, dói bastante, porque a gente sabe tudo que viveu aqui. Dos meus 14 anos até os meus 30, eu vim todos os dias da minha vida para cá, sendo que sete anos eu morei aqui dentro. Chegar a este ponto o nosso Olímpico, a casa de todos os gremistas, eu fico triste, porque sabemos o significado que tem para todos nós gremistas”, declarou.

Até a pé nós iremos

O verso inicial do hino de Grêmio fez, literalmente, parte da infância da professora Rosane Denardi.

A longa caminhada da Cidade Baixa até o Olímpico era uma constante para seu pai, Venceslau, e os três filhos. “Ele passava nas proximidades e dizia: ‘quero morar perto do Olímpico para a gente não precisar passar por todo esse sacrifício’”.

A oportunidade surgiu, e Venceslau alugou uma casa de frente para o estádio. Pouco tempo depois, a proprietária ofereceu para venda, o que acabou se consumando.

O gremista fanático ficou ainda mais apaixonado pelo futebol. E pelo time de coração. “Ia na arquibancada e ficava dando palpite. Tinha um grupo de aposentados que fazia esse papel de técnico adjunto dos técnicos do Grêmio. Depois ele trabalhou como voluntário na escolinha do Grêmio treinando a gurizada”.

Vivendo a rotina do clube de perto, Venceslau pôde ver talentos surgirem. “O Ronaldinho dava show no pátio do Olímpico. Isso o meu pai foi testemunha”.

O sorriso para falar da construção, porém, só se dá quando o tempo é o passado. Seguindo a lógica inversa ao habitual, o vizinho era melhor quando tinha perfil festeiro e juntava multidões. Hoje, o escuro, solitário e silencioso estádio virou apenas um terreno que proporciona um misto de nostalgia e melancolia.

Além dos seguranças, seus únicos frequentadores são eventuais moradores de rua. “Afinal, as pessoas não têm onde morar, e tem um espaço aberto”.

Rosane participa de um grupo de WhatsApp chamado ‘Vizinhos do Olímpico’, que tem como finalidade prezar pela segurança de quem vive no entorno. Afinal, um lugar vazio e sem tanta iluminação é mais propenso a assaltos.

“A proximidade do estádio dava mais valorização. O Grêmio saiu deste estádio com a perspectiva da obra da empreiteira, havia até uma procura grande por construtoras. Minha mãe recebeu oferta para vender o terreno, mas quando aconteceu essa parada na situação da obra, tem muitas casas, imóveis à venda e baixando o preço. Além da crise econômica no país todo, tem também essa crise em função deste lugar estar desvalorizado, por segurança, abandono do estádio, até mesmo pela condição da limpeza e manutenção da rua”, contou.

Após ver o Grêmio retornar à primeira divisão do Campeonato Brasileiro, Venceslau pôde descansar em paz, em 2006, após uma luta contra um câncer. Assim, não viu os dias mais melancólicos da história de seu tão querido Olímpico.

“Sabemos que nós nos reconstruímos diariamente, mas o meu pai tinha uma ligação muito forte com o Grêmio. Acho que ele ia ter um sentimento de depressão, de tristeza muito grande.”