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O guia definitivo para quem quer acompanhar a janela de transferências

A janela de transferências pode ser o melhor e o pior momento como torcedor.

Ou seu time está ligado aos melhores jogadores do mercado, ou acaba contratando alguns jogadores por empréstimo para tentar manter a relevância. Rumores e sussurros não faltam nessa época do ano. Há também um monte de jargões para manter você confuso.

Quem define uma taxa de transferência? A transferência "gratuita" é realmente de graça? Como os clubes compensam os custos das negociações? O que um intermediário faz e por que as equipes precisam deles, afinal?

Gab Marcotti, escritor sênior da ESPN coloca luz sobre o mercado de transferências e tira suas principais dúvidas.


Todas aquelas histórias de transferência por aí ... é tudo clickbait, né?

Algumas delas, claro, outras podem não ser inventadas no sentido de que há uma fonte, mas talvez não seja uma fonte confiável. Quando você vê matérias em algum lugar atribuídas a outras matérias, isso significa que quem está escrevendo essa matéria que você está lendo não conseguiu confirmar a informação, mas há algum nível de credibilidade para ela, então elas a atribuem a outra pessoa.

Algumas até têm fontes, mas existe um interesse por trás. Por exemplo, um clube ou um empresário podem dizer aos repórteres que eles têm interesse nos jogadores X, Y e Z. Isso pode ou não ser verdade, e a razão pela qual isso pode não ser verdade é que pode ser uma tentativa de despertar o interesse no Jogador X. Isso é, fazer outro time achar que vai perder a corrida e se apressar para contratar o jogador. Um leitor instruído precisa decidir sobre a credibilidade da publicação e do indivíduo que a reporta.

Mas várias matérias com reportagem séria por trás são publicadas também. Basta saber onde procurar.

Ah, é? Bom, o que são essas fontes?

As pessoas não percebem que, no ecossistema de transferências, há muitas pessoas que sabem o que está acontecendo. Alguns têm o quadro completo, outros apenas parte dele, mas há muitos que falam. Os jogadores têm familiares, amigos e companheiros de equipe que conversam. Há diretores de futebol, olheiros e técnicos que falam. E, claro, também temos empresários e intermediários que falam.

Mas por que eles falam? Não seria mais esperto manter tudo em sigilo?

Depende da situação. Muitos clubes têm assessores de imprensa cujo trabalho é fornecer informações à mídia, uma forma de controlar a narrativa. Às vezes, eles não comentam sobre certos assuntos. Às vezes (raramente, para ser justo), eles mentem e, às vezes, dizem o que está acontecendo de verdade.

Às vezes, um clube pode querer divulgar informações para deixar a torcida feliz. Isso mostra que eles estão tentando fazer alguma coisa. Seu nome fica nas manchetes e, às vezes, pode acelerar um acordo.

O melhor exemplo que posso pensar envolve o atacante argentino Gabriel Batistuta. Em 2000, a Roma queria contratar um centroavante. Gabriel Batistuta, da Fiorentina, só seria vendido por US$ 40 milhões. Se hoje é bastante, imagine antes. O dono do clube, Franco Sensi, decidiu que era muito dinheiro, então Fabio Capello, o técnico da Roma na época, disse a um jornal que o acordo por Batistuta estava para acontecer, mesmo com o dono do time tendo dito "não".

Quando isso foi para a capa dos jornais no dia seguinte, o telefone de Sensi começou a tocar sem parar, com pessoas o parabenizando pela contratação. A torcida cantava seu nome nas ruas. Ele se tornou um herói por abrir os cofres e fazer a contratação do argentino. Resultado? A Roma foi campeã italiana no ano seguinte.

Dito isso, há muitas outras ocasiões em que pelo menos uma das partes do acordo quer manter as coisas em sigilo. Felizmente, em qualquer transação, há várias partes e raramente é do interesse de todos não falar.

Me explique o que esses intermediários fazem de novo? Por que os clubes não se falam diretamente?

Simplificando, os intermediários fazem coisas que os clubes não podem, como abordar um jogador (através de seu empresário) sem o consentimento do clube em que ele está, o que é tecnicamente ilegal. Antes de fazer uma abordagem oficial e oferecer uma boa quantia para um jogador, você quer saber quanto vai custar em termos de salários e duração do contrato. Isso é algo que o intermediário pode fazer em seu nome: ele ou ela também pode fazer a abordagem inicial com um clube para ter uma ideia do que o preço pedido pode ser.

Isso funciona ao contrário também. Se você quiser vender um jogador, seja para melhorar em uma posição ou para levantar dinheiro, você pode contratar um intermediário para divulgar isso. Ou, às vezes, o próprio empresário dele fará isso. Por quê? Porque se um clube divulga que um certo jogador está a venda, é apenas lógico pensar que o preço desse jogador despencará, afinal, o clube detentor dos direitos está interessado na venda.

Ok, então o que determina o preço de alguém? Como é um mercado livre, pode ser aquilo que o clube quiser pagar, não?

Não é bem assim. Na verdade, termos como "valor de mercado" não têm sentido nenhum. Claro que algumas coisas determinam o preço: talento, idade, nacionalidade, salários atuais e duração do contrato. Mas na extremidade superior do mercado, esses fatores geralmente são distorcidos. Os melhores talentos são raros e os clubes geralmente acreditam (com ou sem razão) que apenas um determinado jogador pode resolver seus problemas.

Pegue o exemplo de Eden Hazard. O Real Madrid pagou cerca de R$ 450 milhões pelo belga. Isso não significa que eles teriam ficado tão felizes com 10 caras que custam R$ 45 milhões.

Outro exemplo é que o preço acaba sendo ligado à urgência do clube comprador. Depois que Neymar deixou o Barcelona e se juntou ao PSG por cerca de um quarto de bilhão de dólares, o clube catalão se viu sentado em uma pilha de dinheiro e precisando desesperadamente de um ponta. Eles gastaram cerca de R$ 390 milhões em Ousmane Dembélé do Borussia Dortmund. Ele é um bom jogador, mas é seguro dizer que, se eles tivessem tentado comprar Dembélé no início da janela de transferências, em vez de no final, provavelmente teriam gasto a metade. O tempo pode fazer a diferença.

E o que dizer sobre as multas rescisórias? Por que um clube jamais colocaria algo como esse em um jogador?

Sim, as multas são outro fator que distorce o mercado. Então, primeiro precisamos distinguir as cláusulas na Espanha, onde cada jogador tem uma e elas funcionam como uma cláusula de compra. Ou seja, por uma determinada taxa, um jogador pode ir e vir.

Normalmente, um jogador pede a existência dessa cláusula para o clube em troca de um salário um pouco inferior. É uma forma de o jogador apostar em si mesmo, essencialmente dizendo: "Ok, eu vou deixar de ganhar um pouco agora, mas se eu jogar bem, quem me comprar não terá uma taxa enorme para pagar, então serão capazes de me oferecer mais dinheiro quando eu for embora."

Qual é o maior equívoco quando falamos sobre o mercado de transferências?

Muitos ainda não parecem entender como a maioria dos clubes pensa sobre o preço de um jogador. Quando os clubes compram jogadores, eles amortizam a taxa de transferência durante a vida do contrato. Assim, se o Jogador X for comprado por R$ 50 mi e assinar um contrato de cinco anos no valor de R$ 5 mi por temporada, ele está custando ao clube R$ 15 mi por ano (R$ 10m em amortização e R$ 5m em salários). Se o Jogador Y se unir em uma transferência gratuita e assinar um contrato de cinco anos no valor de R$ 20 mi por temporada, ele está custando mais do que o Jogador X.

Mas existe uma pegadinha. Vamos dizer que ambos joguem muito mal e depois de dois anos, o clube quer se livrar deles (lembrem-se, o contrato era de cinco). No caso do Jogador X, se ele for vendido por R$ 30m ou mais, o clube recebe seu dinheiro de volta (em termos contábeis) porque esse é o valor que resta no contrato. No caso do jogador Y, que não custou nada, qualquer taxa de transferência significa que eles tiveram lucro.

Importante lembrar que, como ele assinou um contrato maior de R$ 20 mi por temporada, vai ser difícil encontrar um comprador que esteja disposto a arcar com esses salários e pagar a multa rescisória.

Aliás, a amortização é também a razão pela qual os clubes são incentivados a oferecer contratos mais longos, e até aumentam, em algumas situações. Pegue o jogador X como exemplo de novo. Se, depois de dois anos, ele assinar outro contrato de cinco anos no valor de, digamos, R$ 6 milhões por temporada, ele está feliz porque receberá um aumento de 20%, certo? Mas o clube também está feliz porque pode dividir o valor de sua multa (R$ 30 milhões) por mais cinco anos, o que significa que agora está custando R$ 12 milhões por temporada (R$ 6 milhões em amortização mais R$ 6 milhões em salários).

Então eles conseguiram pagar 20% a mais, economizando 20%. Todo mundo ganha.