Na última quarta-feira, o MP-MG (Ministério Público de Minas Gerais) informou que instaurou procedimento investigatório criminal para apurar possíveis irregularidades praticadas por dirigentes do Cruzeiro. E, para um dos membros da diretoria, isso é mais do que benéfico.
Trata-se de Ronaldo Granata, 2º vice-presidente da Raposa e que foi eleito na chapa de Wagner Pires de Sá, mas que atualmente está rachado com o grupo político do mandatário.
Na última terça-feira, em entrevista à Rádio 98FM, ele afirmou que o Cruzeiro vive "a maior crise do futebol mundial". Questionado na última quarta-feira se mantinha sua posição em relação à forte frase, Granata foi enfático.
"Não é que eu acho. Eu tenho certeza", sentenciou, em conversa com a ESPN.
O vice pediu que o Ministério Público e a Polícia Civil concluam as investigações da forma mais rápida possível e defendeu o afastamento de Wagner e também do vice Itair Machado enquanto o processo é concluído.
Além disso, admitiu que teme o rebaixamento da Raposa no Campeonato Brasileiro e revelou como é hoje sua relação com o antigo aliado.
"É cordial e fria. Dou 'bom dia' e 'boa tarde'".
VEJA A ENTREVISTA COM RONALDO GRANATA
ESPN: O senhor acha mesmo que o Cruzeiro vive a crise mais grave do mundo, como disse à Rádio 98FM?
Ronaldo Granata: Essa frase repercutiu muito... Foi uma frase forte, e saiu no calor da emoção...
ESPN: Mas o senhor pensa mesmo que é uma crise de proporções nunca antes vistas na história cruzeirense?
RG: Não é que eu acho. Eu tenho certeza.
ESPN: Por quê?
RG: Por causa do teor das denúncias, da gravidade do que está sendo apurado... Ainda mais agora, com a entrada do Ministério Público!
ESPN: Qual a importância da entrada do Ministério Público nas investigações?
RG: Fundamental. A gente espera que tudo seja esclarecido, essa situação toda. E o Ministério Público chega para resolver de vez.
ESPN: Para o senhor, o que essa entrada do Ministério Público sinaliza?
RG: Sinaliza que está ocorrendo uma apuração conjunta com Polícia Civil e Polícia Federal. São agora três entidades de credibilidade em ação, e a gente acredita que será apurado quem é culpado e quem é inocente.
ESPN: E se o Ministério Público entrou de vez na investigação, é sinal de que os indícios de que de fato houve irregularidades são fortes?
RG: São fortíssimos! Eles têm que ser apurados com urgência. O que a gente torce é para ter uma celeridade nessa apuração. O quanto antes for resolvido, melhor para o Cruzeiro. No momento, o tempo é inimigo do Cruzeiro...
ESPN: Por quê?
RG: Por causa das matérias (publicadas e exibidas diariamente sobre a crise)... Hoje, o Cruzeiro está tendo uma exposição muito negativa na mídia. Isso, para a imagem do clube, é péssimo. A gente tem que resgatar a credibilidade junto ao nossos investidores e patrocinadores. A entidade precisa dessa credibilidade para continuar vivendo e voltar à sua rotina normal.
ESPN: Como é hoje sua relação com Wagner Pires de Sá?
RG: Cordial e fria. Dou 'bom dia' e 'boa tarde'.
ESPN: O senhor se decepcionou com ele?
RG: Não... Falar nessa palavra, decepção... Em jogo político e na vida da gente, eu não tenho esse rancor de decepção... Não posso falar, não uso essa palavra.
ESPN: Mas existia uma relação entre os senhores antes, e ela mudou, não mudou?
RG: Mudou... Porque chegou o poder, ele sentou na cadeira... Tem um ditado que diz que a maioria das pessoas, quando senta na cadeira e tem o poder da caneta, mudam. Isso aí eu não condeno... Acho que (se eu fosse presidente) não seria assim, eu continuaria sendo a mesma pessoa. Mas não posso esperar atitudes de outros seres humanos. Não posso criar expectativa...
ESPN: E o Wagner mudou enquanto pessoa?
RG: Nitidamente.
ESPN: Os conselheiros devem pedir ainda hoje mais uma vez o afastamento de Wagner Pires e Itair Machado? [N.R.: O pedido de afastamento se confirmou após a entrevista]
RG: Os conselheiros têm sempre me procurado querendo o afastamento dessa diretoria que está sendo investigada, como também os sócios do clube, os sócios do futebol... Todos pedindo afastamento. O que eu acho um pedido até justo, até que seja apurado tudo o que está sendo investigado.
ESPN: E como está o clima interno no clube com todos esses pedidos de afastamento, vindos tanto dos conselheiros como do presidente do Conselho Deliberativo, Zezé Perrella?
RG: Não está nada favorável... Por isso a gente pede que essas investigações sejam concluídas, para a gente poder voltar a trabalhar com a cabeça fria e o Cruzeiro voltar a ter uma gestão profissional, e focar nisso para seguir adiante e se dedicar ao futebol, que é nosso carro-chefe.
ESPN: Na visão do senhor, o que seria mais benéfico ao clube no momento: que o Wagner e o Itair se afastassem por vontade própria ou fossem forçados a se afastar?
RG: A gente precisa é da apuração dos fatos o quanto antes, para voltar a ter uma vida em paz e correr atrás de títulos, que são nossos objetivos.
ESPN: Então, correr atrás de títulos com o Wagner e Itair nos cargos?
RG: Isso aí quem vai falar, quem continua e quem sai, são as investigações. Não sou Juiz de Direito para falar quem vai ser afastado ou não...
ESPN: O senhor, se estivesse na posição do Wagner, faria o quê? E na posição do Perrella?
RG: Se fosse eu na presidência do clube [caso de Wagner], já teria aberto o Cruzeiro para investigações logo que aconteceram as denúncias. Eu teria escancarado a nossa realidade. E se eu fosse presidente do Conselho [caso de Perrella], teria pedido a apresentação de documentos essenciais e mais clareza nos fatos que estão sendo apurados.
ESPN: E como o time de futebol está sendo afetado por toda essa crise?
RG: O futebol tem que ficar blindado. Temos que dar estrutura para dar retaguarda para que essas questões internas não afetem o rendimento do time. Blindagem total.
ESPN: Mas isso é possível? O próprio técnico Mano Menezes não acha...
RG: Tem que ser possível. Não tem outra opção. O time tem que estar preservado, pensando apenas em conquistar vitórias e ganhar títulos.
ESPN: Em carta recente aos conselheiros, Zezé Perrella disse que se preocupa com um possível rebaixamento do Cruzeiro, seja no tribunal ou mesmo em campo. O senhor também tem esse temor?
RG: Lógico que preocupa. Como a qualquer torcedor, me preocupa. Mas eu defendo que o Cruzeiro não pode ser penalizado (pelo STJD), pois, se houve erros, foram dos dirigentes. A instituição tem que ser preservada a todo custo. O Cruzeiro não pode pagar por um erro humano. A instituição não merece sofrer por causa de erros de dirigentes. E nem deve.
ESPN: Como vêm sendo as cobranças dos torcedores que o senhor encontra?
RG: A maior preocupácão dos torcedores é justamente essa: a crise política afetar o futebol e o time. A maior preocupação é o time dentro de campo, e nisso o torcedor está com a razão.
ESPN: Como o Cruzeiro vai passar por cima de tudo isso?
RG: Vai passar... É um clube centenário, um dos maiores do mundo, e vai enfrentar essa crise. Vai ser tudo apurado, quem foi inocentado será mantido, quem for culpado terá que ser banido. E não só do Cruzeiro, mas do futebol como um todo, pois as acusações são gravíssimas.
