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Lado B da Copa América: quando a Bolívia foi campeã com brasileiro que superou de atropelamento a 'Maracanazo'

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Esta é mais uma matéria da série Lado B da Copa América, que traz, semanalmente, histórias relacionadas ao torneio que acontece no Brasil em 2019. Nada de esquema tático ou entrevistas de frases feitas, porém. Aqui, o conteúdo irá muito além das quatro linhas...

Quando a Bolívia entrar em campo na próxima sexta-feira, contra o Brasil, na abertura da Copa América de 2019, jogará contra a fama de ser dos “saco de pancadas” do continente.

Uma reputação justificada pelos resultados dos últimos anos, de uma equipe que ficou entre as duas últimas colocadas em todas as eliminatórias para a Copa do Mundo desde 2002.

Há na história boliviana, contudo, uma inspiração vitoriosa: o único título sul-americano, conquistado em 1963, até hoje o maior feito da história do país no futebol profissional.

Um príncipe brasileiro

Rivais na próxima sexta, Brasil e Bolívia tem uma conexão na conquista histórica para a seleção andina. Há 56 anos, era um treinador brasileiro que comandava os bolivianos, que como o time verde e amarelo em 2019, era o anfitrião da disputa que deu origem à Copa América.

Danilo Alvim, aliás, antes de escrever seu nome na história do futebol boliviano, foi figura importante nas terras onde nasceu. Nascido no Rio de Janeiro, ganhou apelido de Príncipe pela elegância com que tratava a bola. Como jogador, teve passagens de destaque pelo América-RJ e, principalmente, Vasco. Depois, passou pelo Botafogo e se aposentou no Uberaba-MG.

Uma carreira para lá de bem sucedida para quem foi atropelado com apenas 19 anos e teve fraturas em 39 lugares diferentes da perna. Tudo aconteceu quando, já como jogador do América, tentava pegar um bonde e foi atingido por um carro. Foram 18 meses engessado.

O atropelamento não o impediu de chegar à seleção brasileira e conquistar o próprio Sul-Americano de 1949. Estava também na Copa do Mundo do ano seguinte. Infelizmente...

Se conseguiu superar o trauma do início da carreira, Danilo acabou marcado como os demais presentes no “Maracanazo” da Copa de 50. Da derrota para o Uruguai em diante, sua carreira não foi mais a mesma, e o status daquele que era um dos principais meio-campistas de sua época foi se perdendo. A aposentadoria veio em 56 e, logo depois, iniciou como técnico.

Acontece que a primeira experiência como treinador, no mesmo Uberaba em que deu os últimos passos dentro de campo, também não foi positiva. Foram seis anos de desemprego...

Nas alturas

Foi a Federação Boliviana de Futebol que resgatou Danilo Alvim, já em 1963. O brasileiro assumiu com a nada fácil missão de comandar os anfitriões no Sul-Americano no que seria a primeira edição do torneio no país – sobrava desconfiança do campo à organização.

Dentro das quatro linhas, a situação do técnico brasileiro ficou pior depois de um torneio amistoso disputado contra o Paraguai: em dois jogos, duas derrotas, por 3 a 0 e 5 a 1.

Danilo Alvim, que já era visto com desconfiança pela pouca experiência como treinador, foi duramente criticado na Bolívia, mas se segurou no cargo. Veio, então, o Sul-Americano.

Nos bastidores, a situação foi caótica. A Bolívia não abriu mão de jogar nas alturas, para se favorecer da altitude. O Uruguai, atual campeão, boicotou o torneio. Brasil e Argentina não enviaram suas seleções principais, como já havia acontecido em outras edições. E, por fim, o Chile se negou a disputar a competição em virtude de uma briga diplomática entre os países.

Glória boliviana

A Bolívia estreou em La Paz contra o Equador, também acostumado à altitude. Coincidência ou não, foi o único que os donos da casa não venceriam, empatando em 4 a 4. Brasil e Argentina, por outro lado, começaram triunfando, batendo, respectivamente, Peru e Colômbia.

O time brasileiro, que havia sido campeão do mundo em 1962, tinha poucas figuras conhecidas, com jogadores de clubes como Taubaté-SP (Almir) e Comercial-SP (Marco Antônio). Os argentinos, por sua vez, apostavam em jovens – como o goleiro Andrada, que anos mais tarde atuaria no futebol brasileiro e se notabilizaria por sofrer o gol mil de Pelé.

Os anfitriões voltaram a campo uma semana mais tarde, em Cochabamba, contra a Colômbia. Favoritos, os visitantes abriram 1 a 0, mas a Bolívia buscou a virada, por 2 a 1. Logo depois, triunfos sobre Peru (3 a 2) e Paraguai (2 a 0) levaram o país ao delírio rumo ao título.

No dia 28 de março de 1963, então, a Bolívia entrou em campo, em La Paz, para uma espécie final antecipada contra a Argentina, na disputa que acontecia em pontos corridos.

O jogo foi dramático: os bolivianos abriram o placar, mas a Argentina empatou pouco depois. A Bolívia voltaria a ficar na frente, só que novamente cederia a igualdade em 2 a 2. Tudo no primeiro tempo. No segundo, então, veio a chance da consagração dos anfitriões em um pênalti já nos minutos finais de jogo. Brilhou, no entanto, a estrela de Andrada.

A defesa no pênalti era fundamental para os argentinos, que, na última rodada do Sul-Americano, enfrentariam o Paraguai, enquanto a Bolívia precisaria vencer o Brasil. Não à toa, a festa foi geral após Andrada defender o pênalti com os pés e mandar para escanteio.

O problema é que o jogo seguiu mesmo em meio à comemoração da Argentina. Castillo, autor do primeiro gol boliviano, cobrou rápido o escanteio e Camacho mandou para o fundo do gol.

Àquela altura, para o improvável título, a Bolívia só precisaria empatar com o Brasil. Fez mais do que isso: venceu por 5 a 4, tendo aberto com autoridade um placar de 5 a 2.

Se o duelo contra a seleção brasileira foi especial para Danilo Alvim, também acabou sendo para Victor Augustín Ugarte, um dos maiores jogadores da história do futebol boliviano que ainda não havia marcado naquele Sul-Americano. Contra o Brasil, fez dois e foi carregado nos braços da torcida. Já aos 37 anos, viveu o ápice de sua carreira, assim como o de seu país.

Danilo Alvim, por sua vez, seguiu com a Bolívia depois da conquista, mas dividiu a função com o comando do Botafogo, de Garrincha. Não voltou, porém, a viver glória semelhante.

O mesmo aconteceu com a Bolívia, que 56 anos depois até pode vir ao Brasil sonhando alto. Mas a chance de título está tão distante quanto La Paz do nível do mar...