O Santos trava duas grandes disputas na Justiça. E dois depoimentos recentes dificultam a atuação do clube nos tribunais.
O primeiro é do ex-presidente Modesto Roma no imbróglio com o escritório de advocacia Bonassa Bucker, por meio da advogada Fátima Cristina Bonassa Bucker. A empresa cobra R$ 12.963.989,72 em honorários da gestão passada, por causa de diversos acordos, mas principalmente pelo acerto para o fim da disputa com a Doyen Sports.
Por ter ajudado a encerrar o litígio com o fundo maltês, R$ 9.971.271,00 são exigidos pela profissional. O acordo com a Doyen foi concluído por 23 milhões de euros (R$ 109,6 mi). Falta uma parcela de 5 milhões de euros (R$ 22 milhões) a ser paga até setembro deste ano.
O Santos não reconhece a cobrança. A advogada busca o pagamento e conseguiu o bloqueio das contas do clube. Modesto testemunhou a favor do escritório (veja abaixo).
“Advogada fazia parte da defesa do Santos, segundo ela intermediária do acordo Santos e Doyen. Não houve sucumbência. Ela já R$ 11 milhões e assinou quitação total. O ex-presidente (Modesto Roma) foi na Justiça e disse de punho que ela tinha direito a mais R$ 13 milhões. Temos que obedecer as decisões judiciais. Ela não venceu, mas garantem o dinheiro para o caso dela vencer. Ela pode não ganhar (os R$ 13 milhões) e ainda ter de devolver os R$ 11 milhões. Folhas trabalhistas têm prioridade, por isso vamos conversar com o juiz. Não é justo não pagar ao elenco por causa dessa pendência. A advogada recebeu R$ 11 milhões em novembro como intermediária, assinou uma quitação. Agora apareceu e quer mais. Juiz vai decidir e vamos respeitar”, diz o presidente José Carlos Peres.
“O escritório Bonassa Bucker defendeu o Santos em algumas ações. Uma delas foi a Doyen versus Santos, no caso Leandro Damião. Era uma ação por R$ 80 milhões pela perda do vínculo com o atleta. Provamos que não perdemos o vínculo, ganhamos a ação. A ação zerou uma sucumbência, quando um juiz manda o perdedor da ação pagar ao advogado os honorários, 10% da ação. Essa dívida tinha de ser paga pela Doyen, pois perdeu a ação. E foi pago. Faz parte do acordo o pagamento pelo Santos em nome da Doyen, descontando da Doyen, esse valor (dos honorários). É um ponto isolado, pago e resolvido, terminado. Ponto final. No começo do ano passado, Santos destituiu, sem acordo e conversa, o escritório. É um direito, mudou a administração. Mas os honorários tinham de ser pagos. O escritório cobra esses honorários, normal. Não adianta o presidente contar historinha e confundir valor com outro. São fatos diferentes. A advogada me fez uma consulta formal, respondi formalmente afirmando a dívida do Santos, nos termos dos contratos que existem entre Santos e Bonassa Bucker. Envolve o acordo com a Doyen, que não foi pago. Foi pago em nome da Doyen a sucumbência dessa ação (do Leandro Damião)”, afirmou Modesto Roma, à reportagem.
“Depois de um ano e meio de gestão, tem que sair (José Carlos Peres) do palanque e administrar o clube. A cada mês sem poder pagar salário, é uma história. Nós pegamos o clube melhor que ele pegou? Não. A administração anterior deixou algo bem complicado, até a história da floricultura. Chega! Tem que administrar o clube. Você me viu reclamando das gestões passadas? É só ler o balanço. Acho que o presidente sabe ler um balanço. Não parece, pois não diz o que está no balanço, mas acho que sabe. Se não souber, não sei o que está fazendo lá. Vejam meu prejuízo e o prejuízo na gestão dele. Nós pagamos muitas dívidas e nós diminuímos o déficit, ao contrário dele, que aumentou. A primeira coisa que sempre respeitarei é o Santos Futebol Clube. Nome do Santos é mais importante do que qualquer outra coisa”, completou o ex-presidente.
A advogada Fátima Cristina Bonassa Bucker diz que “o clube também deixou de honrar os honorários convencionados, igualmente por escrito, para outras demandas nas quais também obtivemos êxito para o clube. Esses também serão cobrados judicialmente”.
O Santos busca não ter de pagar os honorários na Justiça. O Peixe diz ter sido avisado por um juiz na última segunda-feira sobre uma melhor avaliação do caso nos próximos dias. O Alvinegro apontará suposto conflito de interesse na contratação do escritório de advocacia.
No início dessa década, a firma Bonassa Bucker representava a empresa Giroflex, enquanto Osvaldo Ribeiro, superintendente administrativo do Santos na gestão Modesto Roma, era presidente. E a doutora Fátima consta como advogada de processo pessoal do dirigente em 2015.
QUANTUM
O Santos também tem um imbróglio com a Quantum Solutions Limited, empresa de Malta supostamente intermediária de uma negociação com o Paris Saint-Germain pelo mecanismo de solidariedade na compra de Neymar, em 2017, junto ao Barcelona. O clube santista teve direito a 5% por ser clube formador – R$ 34 milhões dos R$ 820 mi da multa rescisória.
A Quantum cobra pouco mais de R$ 2 milhões, 5% de comissão do valor recebido pelo Santos. A firma garante ter sido decisiva já que, como a transferência se realizou por meio de multa, o mecanismo de solidariedade poderia não ser obrigatório.
O Santos não admite a dívida e, assim como no caso da Bonassa Bucker, tem o reconhecimento do débito pela antiga gestão, de Modesto Roma.
E neste caso, há um agravante. Ex-coordenador do departamento de contratos, registros e transferências de atletas, Felipe Nóbrega testemunhou a favor da Quantum no dia 12 de abril (veja um trecho abaixo). O profissional afirma o seguinte: “Após a contratação da Quantum Limited Solutions, a negociação começou a fluir e o PSG passou a responder os e-mails”.
Felipe foi demitido em agosto de 2018, apontado como responsável pela punição da Conmebol após a escalação irregular de Carlos Sánchez contra o Independiente-ARG, nas oitavas de final da Libertadores de 2018. O Alvinegro foi declarado derrotado por 3 a 0 na ida, empatou em 0 a 0 na volta e acabou eliminado.
De acordo com o departamento jurídico do Santos, Felipe Nóbrega não obedeceu ao processo de checagem na confederação sul-americana e, quando questionado, disse que esqueceu. Sánchez havia sido expulso em 2015, ainda pelo River Plate, na Sul-Americana, e não poderia atuar.
À época, Felipe negou a acusação e se disse “bode expiatório”. Ele não atendeu ao contato da reportagem da Gazeta Esportiva a tempo da publicação desta matéria.
O Santos diz ter provas de que Nóbrega não tinha conhecimento das conversas pelo recebimento do mecanismo de solidariedade junto ao PSG. Testemunhas prestaram queixa no GAECO (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado).
