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Cocada, o último herói do Vasco contra o Flamengo, ofuscou Romário na final do Campeonato Carioca

Quando Luiz Edmundo Lucas Corrêa, o Cocada, entrou em campo na final do Campeonato Carioca de 1988, entre Flamengo e Vasco, ele não imaginava que seria o herói da partida. “Eu entrei para marcar o Leonardo”, falou o ex-jogador ao lembrar a decisão.

Cocada havia chegado ao Vasco em 1987, após passagens no Americano e um período em Portugal. A ideia do clube era que ele se tornasse o 12º jogador - uma sombra para Paulo Roberto, que estava de saída.

Em sua primeira decisão com o time, o lateral esperou o primeiro tempo no banco para depois se tornar um dos personagem do jogo, que até hoje marca a última vitória do cruzmaltino contra o Flamengo em uma final do Carioca. Um tabu de 31 anos.

O jogador entrou aos 41 minutos no lugar de Vivinho. Aos 44, acertou um belo chute no ângulo de Zé Carlos. A comemoração efusiva em resposta ao técnico rival, Carlinhos, iniciou uma longa confusão, e Cocada acabou expulso do jogo, cinco minutos após ter entrado na partida.

O lance mudaria a vida de Cocada, irmão de Muller, que viu o apelido, ganhado na comunidade Lar do Trabalhador, ser mencionado ao redor do país.

“Em todo lugar que eu vou, alguém sempre lembra daquele gol. Sempre me tratam com muito carinho. No Twitter, a torcida do Vasco está sempre me mandando mensagem e nunca esquecem do meu aniversário”, contou Cocada, que atualmente trabalha na Prefeitura de Mato Grosso como professor de educação física.

A FINAL

Em 1988, o Flamengo conquistou o título da Taça Guanabara, no primeiro turno do Campeonato Carioca. O Vasco, por sua vez, chegou a decisão após ser campeão da Taça Rio e Taça Brigadeiro.

“O Flamengo era bastante favorito, porque tinha muitos jogadores de seleção brasileira. Era Edinho, Aldair, Jorginho, Leonardo, Andrade e, na frente, tinha Renato Gaúcho e Bebeto! Olha isso!”, enfatizou o ex-jogador. “Nosso elenco era ótimo, mas nosso time era cheio de promessas, enquanto, no deles, quase todos já eram realidade.”

Mas, mesmo longe do favoritismo, o Vasco venceu o jogo de ida, após aplicar 2 a 1, com grande atuação do baixinho Romário. O começo do segundo jogo, porém, não foi promissor para os mandantes.

“Estávamos preocupados, porque tínhamos quatro jogadores machucados. Romário entrou no sacrifício, porque estava com problema no joelho. No primeiro tempo, levamos um bombardeio do Flamengo e estávamos prestes a perder a final”, lembrou Cocada.

Lazaroni, então técnico do Vasco, pensou em possíveis substituições para partida. Na época, o treinador só tinha direito a duas alterações e contava no banco com cinco jogadores: PC Gusmão, Sorato, Célio Silva, Josenilton e Cocada.

O herói da final, porém, não foi a primeira alternativa pensada pelo técnico.

“Quando começou o segundo tempo, o Lazaroni mandou o Sorato e o Josenilton aquecerem, porque o Romário e o Henrique não iam aguentar o jogo todo. Foi passando o tempo, mas ninguém queria sair né (risos).”

“O Flamengo começou apertando o jogo pelo lado esquerdo e quase levamos dois gols. O Lazaroni conversou com o Eurico, olhou para mim e me chamou: ‘Cocada, vem cá’.”

O lateral-direito foi realocado para a ponta e entrou no lugar de Vivinho. A ideia era fortalecer a equipe defensivamente e ajudar Paulo Roberto na marcação. O gol do Flamengo, até então, só não havia saído por conta do goleiro Acácio, que fazia uma grande partida.

OS CINCO MINUTOS

Após a substituição, o Flamengo continuou pressionando, e Leonardo seguiu com as investidas pela esquerda. Foi explorando as ofensivas do lateral adversário que o Vasco chegou ao primeiro gol.

Após roubar a bola, Bismarck acionou Cocada. “Quando eu vi, tinha só o Edinho na minha frente e do outro lado estava o Romário, com o Aldair encostado nele. Então, fui para cima do Edinho.”

“Quando fui chegando perto da área eu não tive outra alternativa. Eu já estava na risca da área, enchi o pé. Vi a bola bater na trave e entrar. Depois, foi só festa.”

A comemoração do gol causou uma briga, que resultou na expulsão de Romário e Renato Gaúcho. Após o lance, o árbitro também deu o cartão vermelho a Cocada, que ficou em campo por apenas cinco minutos. Apesar disso, o jogador afirmou que não se importou com a decisão: “Eu achei que o jogo tinha acabado. Depois eu vi tudo pelo videotape (risos).”

A pequena participação na partida, rendeu um momento de ‘Zico’ ao jogador, que ouviu seu nome gritado no estádio. “O Maracanã estava lotado, tinha mais de 120 mil pessoas. Você não tem ideia do que é essa massa gritando o seu nome.”

“Quando o Zico fazia aqueles gols de placa, a galera inteira gritava o nome dele. Era uma coisa fantástica. Quando fiz esse gol foi a mesma sensação. Aquele grito maravilhoso e a torcida inteira gritando o meu nome. É uma coisa fantástica.”

31 ANOS

O Campeonato Carioca volta a ter Vasco e Flamengo como protagonistas de decisão. Neste domingo (21), os dois times se enfrentam no segundo jogo da final, mas desta vez, quem têm a vantagem é o rubro-negro, que venceu a partida de ida por 2 a 0.

O Vasco ainda enfrenta um longo tabu, já que não vence o rival desde a final de 1988, quando Cocada marcou aos 44 minutos no Maracanã. O jogador, porém, não sabia que o lance teria um significado tão grande.

"Eu não tinha ideia do tamanho desse feito que perdura a 31 anos", comentou.

"O lance, por ser uma final, principalmente por ser uma rivalidade. É o que eu falei na entrevista depois do jogo: um marco histórico para qualquer jogador vestindo uma camisa grande como a do Vasco".

FICHA TÉCNICA

VASCO 1x0 FLAMENGO

Data: 22-06-88

Local: Maracanã, no Rio de Janeiro (RJ)

Árbitro: Aloisio Viug

Assistentes: Paulo Roberto Chaves e Aloisio Felisberto da Silva Renda

Público: Cz$ 11.698.600,00/ 31.816 pagantes

Gol: Cocada, 44/2°T (1-0)

Cartões vermelhos: Cocada e Romário (VAS), Renato Gaúcho (FLA)

VASCO: Acácio; Paulo Roberto, Donato, Fernando e Mazinho; Zé do Carmo, Henrique e Geovani; Vivinho (Cocada), Romário e Bismarck. Técnico: Sebastião Lazaroni

FLAMENGO: Zé Carlos; Jorginho, Aldair, Edinho e Leonardo; Andrade, Ailton (Júlio César) e Zinho; Renato Gaúcho, Alcindo e Bebeto. Técnico: Carlinhos