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Filhos de Dener criaram marca de roupa em homenagem ao pai e vão lançar escolinha de futebol

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Uma homenagem aos dribles: relembre Dener, o craque que impressionou Pelé e Maradona e inspira o neto de 8 anos (6:19)

Há 25 anos, Dener morreu asfixiado pelo cinto de segurança do próprio carro após o veículo colidir com uma árvore na lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. (6:19)

Uma tragédia encerrou precocemente a carreira de Dener há exatos 25 anos. Na época, o atacante de 23 anos vivia a expectativa de jogar a Copa do Mundo. Não deu tempo. Morreu asfixiado pelo cinto de segurança do próprio carro após o veículo, conduzido por um amigo, colidir com uma árvore na lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro.

Emprestado pela Portuguesa ao Vasco e com tudo certo para jogar pelo Stuttgart, da Alemanha, Dener morreu no auge deixando esposa e três filhos: Deniz Henrique, 4, Felipe Augusto, 2, e Dener Matheus, com quatro meses.

Os meninos cresceram ouvindo histórias do pai, buscando conhecer os feitos do atacante, mas sem qualquer lembrança visual ou auditiva dele. Os três tentaram virar jogadores de futebol profissional, iniciando na Portuguesa, mas não conseguiram. Hoje, com 29, 27 e 25 anos, respectivamente, querem manter a memória do pai.

Duas iniciativas já estão em andamento.

Dener Matheus criou a marcar DNR para vestuários. Para quem conheceu Dener, seja jogando ou o assistindo, associará com facilidade a sigla ao craque. Por exemplo, a placa do carro dele era DNR-0010.

"A marca pode ser interpretada tanto como uma homenagem quanto relacionado ao meu nome. Mas é uma homenagem, uma forma de manter a lembrança de quem foi meu pai de maneira criativa, positiva. Além disso, o nome do meu pai é forte e proporciona visibilidade", disse Dener Matheus para a ESPN.

Mais jovem dos três filhos do craque, a ideia surgiu há alguns anos observando o estilo de roupa dos boleiros. Pensou em uma marca que pudesse atender esse público e também quem se identifica com eles.

"Eu sempre tive vontade de ter uma marca de roupas. Surgiu essa ideia. Tentei umas duas vezes, tentei fazer confecção, sem sucesso. Mas em setembro do ano passado consegui dar andamento", completou.

Para colocar o projeto de pé, Dener Matheus investiu dinheiro do próprio bolso --ele trabalha em um escritório de advocacia--, teve ajuda da noiva Juliana de Carvalho Cruz e convidou um amigo estilista. Juntos, montaram uma coleção que ter por hora bonés e camisetas masculinas. Colocou a venda pela internet e contou com a ajuda de amigos na divulgação.

"O Tico, que é praticamente um membro da nossa família, tem ajudado muito. Ele sempre está com os bonés e as camisas DNR. Ele acaba divulgando para outros que jogaram com meu pai, como Roque, ou que o conheceram na Portuguesa, como o Zé Roberto. Quem usa também é Jean Mota, Rafael Marques, meus amigos", disse.

"Ainda não temos uma loja física e nosso site está em construção. Para fazer a vendas online temos um perfil no Instagram, que é o DNRStore. Além disso, conseguimos algumas parcerias com algumas multimarcas para vender, além de ter espaço em uma barbearia de um amigo", completou sobre a marca.

Dener Matheus vem trabalhando de forma árdua para que a marca cresça. Tem tido a ajuda diária da noiva. Os irmãos e a mãe gostaram e o incentivaram a continuar. Apesar disso, admite que gostaria de ter ajuda externa.

"Eu estou investindo dinheiro sozinho em tudo e procuro investidores que possam ser meus parceiros. A DNR faz parte de um conceito que está crescendo bastante. É difícil eu dar um salto sozinho. Muitas marcas que chegam com dinheiro e consegue fazer virar, ampliando o alcance. Gostaria disso", disse Dener Matheus.

"Hoje, com as parcerias que temos, estamos vendendo numa loja chamada Black&White Store, na praça Oscar da Silva, na Vila Guilherme, e numa barbearia VPStudio, na avenida Carlos Liviero, no Sacomã."

Escolinha para talentos

A iniciativa do filho caçula não é a única. Felipe Augusto, o segundo filho de Dener, também teve uma ideia que envolve homenagear e preservar a memória do pai. Ele quer fazer uma escolinha de futebol para revelar jogadores.

"Estou com esse projeto desde o final do ano passado, pensando e conversando. Até o final do ano deve acontecer, deve começar a existir. Vamos chamar de Escolinha Dener de Futebol", disse Felipe Augusto.

A ideia surgiu em conversas com amigos e ganhou força. E o local visto como ideal é a zona norte da cidade de São Paulo. Região em que Dener nasceu, foi criado e viveu na Vila Ede. Os filhos moram perto, no Jardim São Paulo.

A zona norte é bem populosa e conta com iniciativas parecidas para ajudar jovens de origem humilde. Dois casos recentes são os jogadores David Neres, que era de Perus, e Gabriel Jesus, do Jardim Peri.

O primeiro joga no Ajax, da Holanda, enquanto o segundo defende o Manchester City, da Inglaterra.

"Nosso objetivo é formar uma escolinha pra revelar talentos. Ajudando a descobrir muitos talentos perdidos na zona norte. Não só isso. Queremos ajudar a dar um rumo, tirar jovens do caminho errado. Muitas vezes eles escolhem o que não é bom por não ter um incentivo, uma ajuda, uma referência. Vamos ajudar pelo esporte", disse o Felipe Augusto.

Quem está envolvido com ele é o sogro e a sogra e também o irmão mais velho, Deniz Henrique.

"Durante um tempo a gente não comentava muito sobre nosso pai. A data que a imprensa nos procura é uma data triste para nós. Com o tempo, entendemos, aprendemos a lidar e hoje falamos numa boa sobre meu pai. Gostamos de saber o que ele fez, como ele era. E é importante ter essa memória preservada", disse Deniz Henrique.

Quem foi Dener

O garoto da zona norte de São Paulo foi classificado por Pelé como "o garoto que faz jogadas como eu só vi o Pelé fazer" dada a qualidade dos dribles, a velocidade e a genialidade para jogar futebol.

O Rei do Futebol não foi o único a ficar admirado com Dener. José Macia, o Pepe, companheiro de Pelé no Santos, comparava a dupla Tico e Dener a dupla Coutinho e Pelé. "Os dois se entendem pelo olhar. São gênios".

A trajetória de Dener começou a chamar a atenção ainda na base da Portuguesa. Foram duas edições da Copa São Paulo de futebol júnior que ele deu show. Em 1990, parou no Flamengo de Djalminha na terceira fase. No ano seguinte foi campeão com uma campanha impecável diante do Grêmio, no time chamado de "losangos flutuantes".

Ele ainda conquistou um Estadual sub-20 pela Portuguesa, em 1990.

Tamanha habilidade deu projeção rápida para ele. Muitos clubes de fora do Brasil se interessarem pelo craque. A Lazio veio para São Paulo em 1992 interessada no jogador. Acabou derrotada por 2 a 1, no Canindé, com um gol de Dener.

Em 1993, Dener foi para o Grêmio, onde ganhou o título estadual daquele ano. Em 1994, acabou emprestado ao Vasco. Não chegou a realizar o sonho de fazer um gol no Maracanã, mas ganhou a Taça Guanabara.

Morreu aos 23 anos em um momento que a carreira estava muito no início. Deixou uma dúvida eterna: o que teria feito Dener pelo futebol, caso não tivesse morrido tão precocemente?