Está é a primeira matéria da série Lado B da Copa América, que trará, semanalmente, sempre às terças-feiras, histórias relacionadas ao torneio que acontece no Brasil em 2019. Nada de esquema tático ou entrevistas de frases feitas, porém. Aqui, o conteúdo irá muito além das quatro linhas...

No próximo mês de junho, o Brasil sediará a Copa América pela primeira vez em 30 anos. A edição 2019, por sinal, marcará o centenário da primeira competição internacional de futebol ocorrida em território nacional: o Sul-Americano de 1919.
O torneio foi muito importante para a construção social do país e também para a popularização do futebol, que na época era um esporte praticado apenas pelas elites.
Além disso, este evento marcou a primeira fase de um ciclo de grandes mudanças estruturais esportivas do Rio de Janeiro - como, por exemplo, a construção do Estádio das Laranjeiras, então o maior da América Latina.
Nestes 100 anos que separam as duas edições de Copa América, o Brasil também sediou outras competições importantes que foram fundamentais para chegarmos ao desenvolvimento urbano apresentado hoje (as Copas do Mundo em 1950 e 2014 além dos Jogos Olímpicos de 2016).
Mesmo estes eventos apresentando atrasos nas obras, problemas políticos e má utilização dos legados posteriores, as melhorias trazidas nestes processos fazem com que a população carioca possa ostentar modernizações urbanas, uma gama maior de turistas e uma cidade que respira o esporte.
1919 – Rio de Janeiro se transforma pela primeira vez
Em 1919, o Rio de Janeiro – então capital federal – se preparava para receber o Sul-Americano. Um evento inédito no país, que precisava passar por muitas mudanças para recepcionar os seus convidados.
Foi neste momento da história brasileira que o esporte passou a ser para todos. Do pobre ao rico, o futebol se tornou um fenômeno cultural para o Brasil.
“O envolvimento popular foi tão grande que passou a ser praticado nas periferias, nas fábricas. Mas eram dois mundos. O futebol passou a ser praticado e transfigurado”, afirma Roberto Sander, historiador e escritor do livro Sul-Americano de 1919.
“Os elementos da sociedade brasileira, daquilo que vinha desde a escravidão, a própria capoeira acabou influenciando no jeito do brasileiro jogar. Com mais ginga, molejo, picardia. Isso estava começando a se inserir no contexto do futebol naquele momento, a influência do negro”, ressalta Sander.
O Brasil, porém, vivia com problemas sérios de saúde pública e mudanças drásticas na estrutura social.
A Gripe espanhola havia matado mais de 8 mil pessoas apenas no estado de São Paulo e as greves nas indústrias pararam as ruas durante dias.
“A gripe foi uma tragédia nacional. Ficou muito claro quando morreu o presidente eleito, Rodrigo Alves, que ia cumprir seu segundo mandato. Uma doença que não distinguia o dinheiro. Isso teve um impacto muito grande”, confirma o historiador.
“As greves eram vistas como caso de polícia. Começaram a chegar do exterior os primeiros livros anarquistas, influenciados pela Revolução Russa. A dinâmica social do país estava completamente distorcida. Não era só o futebol, mas a sociedade estava mudando. Tudo isso em um contexto da República Velha, que, como o próprio nome diz, não acompanhava as transformações sociais no momento”, completa.
A seleção canarinho conquistou duas vitórias fáceis contra chilenos, por 6 a 0, e argentinos, por 3 a 1 nas primeiras rodadas.
Contra o Uruguai, na última rodada da fase de grupos, quem vencesse seria o grande campeão.
A cidade estava em êxtase. Porém, um empate de 2 a 2 ofuscou a esperança de vitória da torcida, que precisaria esperar por um jogo extra para saber o desfecho do campeonato.
No dia 29 de maio de 1919, o estádio das Laranjeiras estava abarrotado. Dentro de campo, brasileiros e uruguaios digladiaram no gramado alto.
O jogo, entretanto, não saiu do zero no tempo normal. E precisou ir para a prorrogação.
No minuto 122, quando todos já se arrastavam sob o escaldante sol carioca, Friedenreich, um negro no meio da elite branca, fez o gol que deu o primeiro título sul-americano da história da nossa seleção.
“O interesse foi tão grande que logo os ingressos se esgotaram. Então pessoas subiam nos morros, que existem ao redor do estádio, para ver o jogo. A Conquista ficou na história. O Friedenreich, filho de uma lavadeira negra com um imigrante alemão, criou uma mistura que começou a dar a feição do verdadeiro futebol brasileiro”, afirma Roberto Sander.
“A música e o futebol foram fatores essenciais para que o brasileiro começasse a se enxergar, a se ver. Nesse sentido, o Sul-Americano de 1919 foi esse divisor de águas, de um esporte só das elites para passar a ser popular”, completa.
Copa do Mundo de 2014, a 2° transformação
No dia 30 de outubro de 2007, o então presidente da Fifa, Joseph Blatter, anunciava que a Copa do Mundo de 2014 seria no Brasil.
Nos sete anos que viriam pela frente, o país se transformou em um gigante canteiro de obras.
Estádios precisaram ser construídos ou modernizados, aeroportos e estradas passaram por reformas e as cidades necessitavam de melhorias para receber os milhares de turistas de 31 nações diferentes.
Ricardo Trade, CEO da Copa do Mundo de 2014, foi o responsável direto para que todos os preparativos estivessem alinhados com os pedidos da Fifa e principalmente de Blatter.
“Ricardo Teixeira, que me chamou para trabalhar, me dizia: ‘Ricardo, se preocupe com aeroportos, aeroportos e aeroportos, porque os nossos parecem rodoviárias’. E essa era uma grande verdade. A Copa trouxe essa melhora. Se você for ao aeroporto de Brasília, ao de São Paulo, ao de Belo Horizonte, ao Galeão. ‘Ah, mas não ficou pronto para a Copa’. Ficou pronto para o Brasil”, defende.
Por mais que as infraestruturas ajudassem a fazer o legado da Copa do Mundo de 2014, a construção dos estádios foi um dos assuntos mais comentados pela mídia na época. O atraso das obras preocupou governos e entidades de todo o mundo.
Muitos deles, sequer, foram utilizados após o torneio. Além disso, algumas cidades e estados não conseguiram manter o investimento necessário para a manutenção.
“Na minha opinião, pensaram em fazer deste limão uma limonada. Nós não temos futebol em Manaus. E vai continuar não tendo nunca? Então demos uma oportunidade para a cidade ter. O mesmo para Cuiabá. Pelo menos uma coisa foi legal: mostrar que o Brasil não é só Rio, São Paulo e Minas. As pessoas tinham que saber que tinha um jogo da Inglaterra no Amazonas. Foram e viram que é bacana”, afirma o ex-CEO.
“Você abre o país um pouco mais. Talvez o uso posterior é que pudesse ter sido um pouco mais estudado. Mas não era prorrogativa nossa. ‘Vamos construir um lugar para 70 mil pessoas em Brasília? ’ O próprio Ricardo Teixeira disse que não achava legal. Mas havia um desejo de governo de levar para lá a final ou a abertura”, completa.
Uma das arenas que mais recebeu atenção da Fifa e do governo brasileiro foi a Arena Pernambuco. O estádio, que fica na cidade de São Lourenço da Mata - cerca de 25 quilômetros de distância de Recife -, quase foi vetada da competição por causa dos atrasos.
“Em determinado momento, Blatter pensou em excluir o estádio pela demora. Mas como os outros também não tinham sido entregues na data, optamos por deixar. Mas deveríamos ter sido mais rígidos”, confessa Ricardo Trade.
Além disso, o problema de transporte público que ligava a capital à cidade do interior foi um problema enfrentado pelos turistas. Times do estado que mandam os seus jogos à Arena reclamam até hoje desta dificuldade
“A localização é algo que a cidade tem que decidir sozinha. Prerrogativa dela. Foi escolha do governador, que queria interiorizar. Projeto não andou como ele queria. Nós não escolhemos em momento algum. Única colocação que fizemos foi que teria que transporte na porta para que o público pudesse acessá-lo”, recorda o CEO
Dentro de todas os problemas enfrentados pela competição, Ricardo Trade encontra um saldo positivo em todo o desenvolvimento estrutural causado pela competição e também pelo aumento significativo de turistas no país.
“Na Copa, a gente queria encantar as pessoas. A Fun Experience mostrou que as pessoas gostaram e têm vontade de voltar. Seis milhões de turistas por ano é igual ao número que vai a Nova York, à Torre Eiffel”, confessa.
“Um país desse tamanho não pode se comparar. Ano que vem teremos o Rio Master Games que vai trazer 30 mil pessoas. Isso faz com que as pessoas queiram voltar. Podemos ainda melhorar. A indústria do turismo, para mim, é a saída para nossa economia e fico feliz de ter participado disso”, completa.
Olímpiadas de 2016 - O legado ficou manchado?
Em outubro de 2009, o mundo voltou os holofotes para o Rio de Janeiro. A cidade foi eleita pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) como a sede dos Jogos de 2016. Milhares de pessoas em Copacabana e em todo o Brasil comemoraram o feito.
Para muitos brasileiros, sediar o maior evento esportivo do planeta seria uma nova possibilidade de desenvolvimento através do aumento da oferta de empregos, fortalecimento da economia e também com a modernização urbana.
Porém, com os jogos se aproximando, a crise se instaurou no governo carioca, que paga até hoje os erros cometidos na construção do legado olímpico.
“Eu acho que durante os jogos do Rio, e obviamente, no período seguinte, a gente notou claramente uma evolução em termos de emprego, e até em termos de disponibilidade de habitação, de quartos de hotel. Grande parte do legado, se não todo o legado dos Jogos, foi comprometido pela crise pós-Jogos”, afirma Mario Andrada, Diretor Executivo de Comunicação da Rio 2016.
“Algumas pessoas podem achar que essa crise pós-jogos foi motivada pelo gasto excessivo. A gente não concorda com isso. Quem trabalhou no evento, quem viu de perto, quem fez as contas e observou tudo de perto, sabe que a conta que os jogos deixaram para o Rio não foi nada que não tivesse sido previsto, e nada que não tivesse sido supervisionado”.
Mário Andrada também sinaliza que não se pode generalizar as questões do legado olímpico. Segundo o executivo, os problemas enfrentados pelo governo do Rio de Janeiro influenciaram a opinião pública.
“Nós temos dois mundos no Rio de Janeiro. Um antes de 2016, e nós temos o mundo que convencionou a se chamar de 'crise pós-olímpica'. Onde, por várias razões muito conhecidas, o Rio de Janeiro, principalmente os poderes públicos estaduais e municipais, ficaram em estado de crise financeira, sem qualquer recurso”, disse.
“Então, falar do legado que foi deixado é um pouco diferente de falar do legado que existe hoje. De qualquer forma, os setores que foram mais beneficiados no Rio de Janeiro, em termos de legado, na minha opinião, foi o setor de transportes. Cumprimos finalmente a promessa de levar o metrô até a Barra. Montou-se o sistema de VLT para um transporte público de curta distância no centro da cidade. Foram feitas várias linhas de BRT, que é o ônibus de alta velocidade, em vários pontos da cidade”.
Além do transporte, o turismo, um dos principais potenciais econômicos da cidade, foi muito beneficiada com a chegada da Olímpiada. Segundo o executivo de comunicação, este setor foi pensado desde o começo como o grande símbolo que o evento deixaria para a capital fluminense. “O turismo é central na economia do Rio, então era normal que a gente buscasse um legado turístico forte, porque é a principal, digamos assim, característica econômica da cidade”, disse.
“A área de esportes, que também é turística, mostrou que a cidade tem uma vocação esportiva. O Rio acorda cedo e vai fazer esportes, em todos os lugares da cidade, todo mundo vê isso. Essa área foi bastante valorizada com a construção do Parque Olímpico e com a reforma e aprimoramento e instalações esportivas. A capacidade do Rio de atrair novos investimentos estava muito bem colocada logo após os jogos. A crise afastou isso, principalmente a de segurança”, analisou.
Além dos problemas políticos e de segurança que atrapalharam os Jogos Olímpicos, a questão da Vila Autódromo também estampou os problemas de má gestão de políticas públicas adotados pelos organizadores do evento.
A favela, que ficava ao lado do Parque Olímpico, se tornou objeto de uma forte especulação imobiliária, e a prefeitura chegou a construir casas para que aquela população, de cerca de três ml pessoas, se instalasse em outra localidade.
Porém, o que não esperava o governo fluminense era que os cidadãos não queriam sair dali.
“Ficou bem melhor para os moradores, mais seguro porque tem mais policiamento e mais movimentado porque pessoas vão lá utilizar. Antes, era muito mais perigoso – a questão da segurança pesou muito na nossa decisão”, afirma Célia Regina, moradora da Vila Autódromo há 25 anos.
“A pessoa tem direito de ficar aonde ela quer, e não é porque o outro lugar é melhor que elas são obrigadas a sair. E no fim teve essa acomodação: uma parte ficou na Vila Autódromo. Eles ficaram do lado do Parque Olímpico, mas os planos não foram alterados”, ressalta Mario Andrada.
Por fim, mesmo com todos os problemas e medidas tomadas pelo Governo do Rio de Janeiro e também pelos organizadores do evento, o executivo de comunicação do Rio 2016 acredita que a cidade e o Brasil obtiveram um saldo positivo com todas as construções e a alegria que foi trazido pela Olímpiada.
“Os jogos foram, provavelmente, o momento de mais alto astral do Rio de Janeiro e isso deixa um legado. Deixa um legado de confiança, deixa um legado à população mais jovem. E deixa um legado de memória. Todo mundo que passou pelo Rio, todo mundo que assistiu aos jogos, tem uma memória positiva do que viu”, acredita.
“A ressaca do Rio que se materializou nas crises econômicas e de segurança e não foram provocadas pelos jogos. E a população do Rio aprende isso muito bem, exercita isso muito bem. Ela sabe o que ela sofre pela incompetência de alguns políticos e alguns administradores”, disse Mario Andrada.
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Em resposta à declaração de José Félix de que os moradores da Vila Autódromo ainda não receberam o documento das casas, a Secretaria de Infraestrutura e Habitação do Rio de Janeiro respondeu: "A Secretaria Municipal de Infraestrutura e Habitação informa que os moradores que saíram da Vila Autódromo receberam unidades do Minha Casa, Minha Vida nos condomínios Parque Carioca I, II, III e IV, localizados na Estrada dos Bandeirantes. Além disso, a secretaria construiu, providenciou o habite-se e entregou vinte casas na Vila Autódromo destinadas ao reassentamento de famílias. O Urbanismo fez o Projeto Aprovado de Loteamento, que já aprovado e está para ser averbado no RGI. Somente após esta etapa é que poderemos conceder os títulos de propriedade".
