No último sábado, o meia Marcos Júnior, do Bangu, emocionou o Brasil ao dedicar o gol da classificação para as semifinais da Taça Rio do Campeonato Carioca à sua esposa, falecida em dezembro de 2018, após luta contra o câncer.
Logo depois da vitória de virada por 2 a 1 sobre o Vasco em São Januário, ele chorou na entrevista ainda no gramado ao falar sobre a importância de Vanessa França em sua vida.
Uma história de amor que começou no dia 20 de julho de 2013, quando o jogador vivia um momento bastante conturbado.
“Eu tinha descoberto a noite e estava saindo demais. Tinha companhias erradas e isso ia prejudicar minha carreira. Por causa dela eu parei com isso. Estava perdendo o foco no futebol. Depois daquilo ela esteve comigo em todos os momentos e ia sempre que podia a todos os jogos”, contou Marcos, ao ESPN.com.br.
Durante o ano 2017, ele defendeu o América-RN e morou junto com Vanessa em Natal.
“Foi a nossa época mais feliz. Era um sonho nosso morar juntos, ainda mais naquele lugar que gostávamos muito. Tínhamos planos de um dia voltarmos para lá”.
O casal voltou ao Rio de Janeiro no ano passado porque Marcos Júnior jogou pelo Bangu no Campeonato Carioca. Em abril, ele foi contratado pelo ABC-RN e recebeu a notícia de que Vanessa estava doente.
“Fazia só umas três semanas que eu estava em Natal quando a minha tia, que tinha ido ao hospital, me contou que ela tinha um câncer no colo do útero. Eu queria voltar para ficar perto dela. Mas a Vanessa me pediu para que eu ficasse, porque lá poderia ajudar mais. Se voltasse, eu não iria receber e não poderia ajudar no tratamento”, recordou.
Marcos Júnior jogou por alguns meses pelo ABC-RN antes de ir ao Paysandu. Após o fim da Série B, em novembro, ele foi para o Rio.
“Assim que voltei para casa, fiquei com ela. A doença já tinha avançado e no dia oito de dezembro ela tinha piorado bastante. Nós estávamos em casa, ela passou mal. No caminho para o hospital, ela faleceu nos meus braços dentro do carro. Ela iria completar 25 anos no dia 26 de dezembro”, recordou.
“Era um câncer muito agressivo, ela chegou a fazer uma cirurgia para ver até se poderia tirar, mas não tinha como. Foi tudo muito rápido mesmo. Não desejo isso para ninguém. Acho que ninguém imagina ver a pessoa que você ama morrer nos seus braços e você não poder fazer nada. Você se sente impotente”, explicou.
Após viver o dia mais triste de sua vida, Marcos cogitou até mesmo abandonar a carreira.
“Foi muito complicado, mas contei com o apoio dos meus familiares e dos meus amigos e dos companheiros do Bangu para me ajudarem nesse período. Minha família sempre falava para eu não desistir porque a Vanessa queria que eu continuasse no futebol”, contou.
Camiseta da amada
Além de não desistir, ele resolveu fazer um gesto para relembrar sua amada.
“Quando ela estava doente, eu fiz uma homenagem no ano passado no jogo contra o Santa Cruz pelo ABC-RN. Essa camisa já estava preparada antes do Campeonato Carioca. Curioso que teve um jogo que estávamos ganhando por 2 a 0 e teve um pênalti para a gente no fim. Eu ia bater, mas o Anderson Lessa pediu para cobrar porque está na briga para ser artilheiro do Carioca. Não pensei duas vezes, dei a bola para ele. Não fiquei com remorso nem nada, fiquei esperando outra chance", afirmou.
E a oportunidade finalmente chegou no sábado.
"Deus foi tão maravilhoso comigo que pude fazer o gol quando a gente mais precisava ganhar, contra o Vasco, que foi o primeiro clube grande que marquei na carreira. Então, pude fazer essa homenagem”, comemorou.
O gol marcado no fim do segundo tempo mudou a vida do jogador.
“Foi um turbilhão de emoções! Assim que dominei e chutei, vou te dizer que não vi a bola entrar (risos). Eu só percebi que tinha sido gol porque vi meus companheiros correndo e comemorando cada um para um lado. Eu não podia tirar a camisa porque ia tomar o amarelo. Por isso, em todo jogo deixo a camisa no banco de reservas. Foi quase automático, eu pedi a camisa e todo mundo estava esperando esse momento", disse.
"Deus tem um propósito na nossa vida. Tenho certeza que a missão dela foi feita aqui, era me encontrar e me botar no caminho certo"
-Marcos Junior pic.twitter.com/jI0T2lRhgB
— Futeboleiros 2.0 (@futeboleiros20) 24 de março de 2019
"Eles conviveram comigo no pior momento, que foi no começo desse ano na pré-temporada. Eles queriam muito que eu fizesse o gol para fazer a homenagem. Minha família toda estava lá”.
O gol e a repercussão da história do seu amor com Vanessa o tornaram conhecido no país.
“Está uma coisa de louco o meu telefone, nunca tinha passado por isso. Meus amigos todos falando que estou famoso (risos). Eu morava na comunidade de Rio das Pedras, quando fui lá todo mundo me abraçou e tirou foto. Todos viram que sempre lutei para estar vivendo o que estou passando hoje”.
Persistência desde cedo
Natural do Rio de Janeiro, Marcos Antônio Candido Ferreira Júnior fez testes em clubes como Botafogo, Boavista, Avaí e Vasco, mas sem sucesso. Somente aos 17 anos, ele foi para a base do Duque de Caxias.
Logo depois, se mudou para o Bangu, no qual permaneceu por dois anos no sub-20 antes até subir aos profissionais. Como não teve chances na equipe principal, foi emprestado para o Bonsucesso e o Volta Redonda, no qual foi campeão invicto da Série D do Campeonato Brasileiro.
“Eu fiz dois gols na final contra o CSA-AL e foi um dos maiores momentos da minha carreira. Foi um milagre eu fazer dois gols em um jogo só (risos). Minha namorada, meus amigos e toda minha família estavam no estádio”, recordou.
“Após essa competição eu esperava subir de divisão nacional, mas voltei para a Série D. Fui para o América-RN, que é um grande clube e joguei Estadual, Copa do Brasil, Copa do Nordeste e Série D, mas não subimos”, recordou.
Ano passado, Marcos voltou ao Bangu para jogar o Estadual e foi emprestado depois ao ABC-RN. “Joguei nos dois maiores times de Natal. Por incrível que pareça eu sou querido pelas duas torcidas. Depois do gol no Vasco recebi mensagens das duas”, garantiu.
Após uma rápida passagem pelo Paysandu, ele voltou ao Bangu no fim do ano passado. Com ótima campanha nos dois turnos do Carioca, a equipe está garantida na semifinal.
“A gente está vivendo um momento que esperávamos. Desde o começo acreditávamos. A gente quer chegar à final e ser campeão. Precisamos continuar focados e com muita humildade. Vamos trabalhar essa semana para entrarmos bem na semifinal”, projetou.
E com tantas coisas boas acontecendo em sua vida, Marcos Júnior sabe para quem dedicar.
“A Vanessa está muito presente, faz só quatro meses e acho que esse sentimento ainda vai durar bastante. Talvez se não fosse ela, eu não estaria aonde estou hoje e fazendo o que fiz”, finalizou.
