Que os jogadores brasileiros são adorados no futebol internacional não é novidade para ninguém. Mas poucos têm tanta reverência atualmente quanto Gleidionor Figueiredo Pinto Júnior possui na Coreia do Sul.
Mais conhecido como Júnior Negão, o matador de 32 anos é artilheiro implacável na Ásia, tendo feito 12 gols em 16 partidas pelo Daegu, em 2017, e quase 30 gols pelo Ulsan Hyndai, sua equipe atual, em 2018.
Talvez os torcedores do Corinthians não se lembrem, mas o atleta teve uma rápida passagem pelo clube paulista em 2007, o pior ano da história alvinegra, quando o Timão foi rebaixado para a segunda divisão.
12 anos depois daquele trauma, Júnior Negão diz que a queda para a Série B foi decisiva para deixá-lo mais preparado para os desafios da vida de jogador profissional.
Afinal, poucas coisas deixam alguém tão "cascudo" para o mundo da bola quanto enfrentar um protesto com milhares de torcedores organizados no Parque São Jorge...
QUASE VIROU ADVOGADO
Nascido em Salvador, Júnior Negão mudou-se ainda criança com a família para Manaus, onde seu pai foi trabalhar. Por influência paterna, aliás, ele quase seguiu outra profissão antes de se enveredar pelo futebol.
"Meu pai era advogado e trabalhou como delegado. Somos em oito irmãos e todos são formados, menos eu, que fui jogar bola (risos). Mas, na verdade, não tinha pretensão de ser jogador. Eu estudei para ser advogado também e seguir a profissão da minha família. Sempre gostei de jogar bola, e até fiz base no Fast Clube, mas não pensava em virar profissional", contou, à ESPN.
Quis o destino, porém, que ele fosse atraído pela bola.
"Em 2006, porém, tive a chance de disputar uma Copa São Paulo pelo Nacional. A gente jogou contra o Atlético-MG na segunda partida e vencemos por 3 a 2, foi histórico. Nessa época, eu já estava cursando o primeiro ano de direito, e, se não desse para conciliar estudo e bola, eu ia ficar na faculdade. Mas, na Copinha, eu senti uma atmosfera diferente, uma empolgação legal, e voltei com a ficha virada. Decidi que queria ser jogador de futebol", lembrou.
"Então, eu tive algumas propostas, mas o Nacional não me liberou. Em 2007, no entanto, fui chamado pelo próprio Atlético-MG. Aí eu tranquei a faculdade mesmo e não voltei mais. Fiz parte do elenco profissional e fui campeão do Mineiro em cima do Cruzeiro. Depois, veio proposta do Corinthians e fui para lá", relatou.
PANELA DE PRESSÃO ALVINEGRA
Júnior chegou ao Timão em meio à maior turbulência da história do clube: as rodadas finais do Campeonato Brasileiro de 2007, que terminariam com o inédito rebaixamento corintiano para a Série B.
"O clube enfrentava uma crise financeira enorme, com muitos problemas internos e no elenco. Fomos rebaixados, mas aprendi demais por lá. É uma das maiores torcidas do mundo, e você é obrigado a ser 'cascudo'. Eu não tinha quase nada de experiência antes de chegar lá. Tudo o que vivi no Corinthians foi oposto a qualquer coisa que eu já tinha passado em Manaus", salientou.
Negão teve poucas chances no Parque São Jorge, mas não lamenta a passagem por lá.
"Fiz três partidas no Brasileirão, contra Atlético-MG, Figueirense e Flamengo. O time não encaixava. Teve um jogo contra o Náutico, no Pacaembu, que perdemos de 3 a 0. Imagina a loucura que foi... Tudo no Corinthians vira um negócio imenso, é complicado. Mas eu agradeço muito, porque isso me 'calejou' para o resto da carreira", afirmou.
A parte mais complicada, segundo o atacante, eram os protestos da Fiel.
"Quase no fim do Brasileiro, teve um treino que umas 4 mil pessoas foram protestar. A gente estava fazendo um rachão, um dos jogadores respondeu um cara da torcida que tinha xingado e aí saiu do controle. Queriam invadir de todo jeito para bater nos jogadores e nos cobrar. Foi um desespero total. Saímos correndo para o vestiário, até hoje não esqueço disso", contou.
"Ainda tinham alguns torcedores que iam soltar fotos de artifício à noite na porta da casa de alguns jogadores. Não sei como eles descobriram o lugar que alguns atletas moravam e foram lá", revelou.
"Tanto é que, faltando uns quatro jogos para acabar o Brasileiro, o Nelsinho (Baptista, treinador) resolveu tirar os meninos mais novos, como eu, da equipe, para não comprometer a nossa carreira, porque tudo lá é muito intenso", complementou.
RODANDO BRASIL E EUROPA
Após deixar o Corinthians, Júnior Negão foi jogar em 2008 no Belenenses, de Portugal.
"Era um time bem organizado e estruturado. Tinha uns 17 brasileiros no elenco (risos). Fiquei uns seis meses lá, mas tive dificuldade para me adaptar, porque estava sozinho em Portugal. Eu não tinha jogado muitos nos clubes que havia passado, aí resolvi voltar ao Brasil para atuar com mais regularidade. Fui para o CRAC e depois para o ABC. Daí em diante comecei a jogar de verdade e embalei", rememorou.
A boa passagem por Natal lhe rendeu uma experiência no Figueirense, que catapultou uma transferência para o Germinal Beerschot, da Bélgica.
"Na Bélgica, eu lembro que joguei contra o Lukaku, que ainda estava no Anderlecht. Ele tinha uns 17 anos, mas já era um monstro. E já era famoso também, tinha até um reality show da vida dele. Fora isso, o nível do campeonato era muito bom, adorei jogar lá", exaltou.
A boa passagem pelo futebol belga rendeu outra transferência, desta vez para o Lausanne-Sport, da Suíça.
"Lá em lembro de enfrentar o Shaqiri, que estava no Basel e todos chamavam de 'Messi suíço', era o nome mais famoso lá. Para falar a verdade, não queria ter saído da Bélgica, mas aconteceu, porque o Germinal Beerschot estava em crise financeira. Mas não dá para reclamar da Suíça, foi tudo muito bem lá e é um país ótimo para se morar", elogia.
Quando sua filha nasceu, Negão resolveu retornar ao futebol brasileiro. Teve, então, passagens por Guarani, Tombense, América-RN, América-MG e Oeste antes de acertar, em 2016, sua ida para o Muangthong United, da Tailândia.
REI NA COREIA DO SUL
A experiência no futebol tailandês foi cheia de gols, mas também de momentos doidos.
"A Tailândia é um país maluco do bem (risos). Tudo lá é intenso demais. Mas gostei muito de morar lá, principalmente das pessoas. Só era um pouco complicado por causa do sistema de Governo deles. Eu lembro que não podia falar nada do Governo e do rei. Ainda por cima o rei morreu bem no ano que eu estava lá e o campeonato acabou do nada, porque a comoção no país foi enorme", contou.
"Joguei também no Pattaya United e fiz muitos gols na Tailândia. Nisso, veio a proposta do Daegu, da Coreia do Sul, e eu não pensei duas vezes. O futebol de lá é um dos melhores da Ásia, e eu queria ter essa experiência", relembrou.
A história de seu acerto com o Daegu, aliás, é bastante curiosa.
"Tem coisas que só o futebol, mesmo (risos). Em 2007, eu tinha feito um teste no próprio Daegu, mas o técnico disse que eu não tinha o estilo deles e não me aprovou. Voltei para o Brasil e a vida seguiu. 10 anos depois, o presidente do Daegu era esse mesmo treinador que não me aprovou. Quando eu contei que ele tinha me reprovado há uma década, ele não acreditava (risos). Ficava falando: 'Não era você!' (risos). Mas futebol é assim, mesmo. Não guardei mágoas e falei que daria muitas alegrias para ele", divertiu-se.
O início na nova casa foi complicado, mas depois Júnior deslanchou.
"No começo foi chato, porque machuquei feio o joelho e fiquei mais de quatro meses parado. Quando me recuperei, porém, arrebentei! Fiz 12 gols em 15 jogos, e nós demos uma arrancada boa na tabela", recordou.
O bom desempenho pelo Daegu chamou a atenção do gigante Ulsan Hyundai, um dos times mais ricos e poderosos do país, que o contratou em 2018. O brasileiro manteve o nível e destruiu pelo segundo ano seguido.
"Os coreanos são meio desconfiados, mas eu me consolidei no futebol asiático. Fiz 27 gols na temporada juntando as competições, fui o artilheiro do ano lá, e terminei na 3ª posição na tabela de artilharia do Campeonato Coreano. Tenho mais um ano de contrato agora e vou ficar. Estou bem feliz e muito adaptado ao país e ao futebol", comemorou.
"A torcida aqui é fantástica. Eles respeitam demais, até os adversários, mesmo com a rivalidade. Acabou o jogo e eles te tratam muito bem. Isso me encantou demais. Você sai de um clássico, passa pelos torcedores adversários e eles te cumprimentam e dão parabéns pelo jogo. Você não vê isso nos outros lugares", finalizou.
