Dos três clubes que ascenderam à Premier League nesta temporada, o Wolverhampton é, disparado, o que tem conseguido mais sucesso. Constatar isso é fácil, basta olhar a classificação. Com 26 pontos, os Wolves, no meio da tábua, têm a soma da pontuação de Fulham(11) e Cardiff City (15).
Léo Bonatini, 24, brasileiro que joga no time, confirma que o objetivo primário, quando o campeonato começou, era a permanência na divisão principal. Mas, à medida que a liga seguiu, e o grupo percebeu ter potencial para ir mais longe, o pensamento mudou. Atualmente, o Wolverhampton fica insatisfeito quando não vence, seja qual for o rival.
Foi assim contra o Liverpool, em casa, na sexta-feira, dia 21 (derrota por 2 a 0). E será assim no jogo deste sábado, em Wembley, contra o vice-líder Tottenham, com transmissão pela ESPN Brasil e WatchESPN, se a vitória não vier.
"Nosso começo foi mais complicado. Acho que ficamos meio surpresos, eufóricos, intimidados com o clima da Premier League. Hoje, já dá para sonhar com mais", afirmou o atacante, em sua segunda temporada no clube, em entrevista para o ESPN.com.br, da concentração do time, na região de Londres.
Para Léo, a experiência na liga mais importante do mundo também poderia estar sendo mais satisfatória, ele confessa. Na campanha que levou o time de volta à elite do futebol inglês depois de cinco anos anos, o camisa 33 foi um dos principais jogadores, com 43 aparições e 12 gols. Na Premier League, até agora, foram sete partidas apenas, todas vindo do banco.
"É claro que eu queria jogar mais. Mas faz parte, são escolhas", diz Léo, sem conformismo. "Não estou feliz no banco". Mas ele também reconhece estar vivendo uma experiência única, ao estar no campeonato de nível técnico mais alto do planeta.
"É o tipo de campeonato que você se acostuma a ver pela TV. É bom estar aqui para não deixar de ter a noção de que é possível chegar longe", diz ele.
"É uma frase clichê, mas a verdade é que todo jogo é difícil. É mais difícil jogar com os grandes, é claro, que têm elencos mais numerosos. Mas perdemos pontos para o Fulham, por exemplo (empate por 1 a 1, na quarta-feira, 26)", diz ele, sobre o lanterna da competição.
O próprio Wolverhampton é um exemplo disso. Na atual temporada, ao mesmo tempo que perdeu pontos para rivais da parte de baixo, conseguiu acabar com a invencibilidade do Chelsea de Maurizio Sarri (2 a 1) e empatar por 1 a 1 com Arsenal, Manchester City e Manchester United.
ATMOSFERA
Em relação à segunda divisão, a Premier League oferece uma atmosfera mais grandiosa, e foi isso o que mais impressionou Léo Bonatini. "Todos os jogos são com estádio lotado, os caras sabem como fazer o evento ser grandioso", diz.
Já no gramado, a velocidade e o jogo mais técnico foram a principal diferença em relação ao futebol mais físico da divisão de acesso.
Léo fez a maior parte de sua carreira no exterior. Começou nas categorias de base do Cruzeiro, mas logo foi para a Itália, ainda antes de se profissionalizar. Passou também pelo Goiás, antes de se transferir para o Al-Hilal, da Arábia Saudita, e de lá partir para o Estoril, de Portugal, até chegar à Inglaterra.
Tanta rodagem, no entanto, não o impediu de ter ficado impressionado ao conhecer Roberto Firmino, atacante do Liverpool, pessoalmente.
"Sempre fui muito fã do Firmino, desde a chegada ao Liverpool e as primeiras idas à seleção", diz.
"Mas ver (o Firmino) ao vivo é diferente, inacreditável. Ele joga demais. Eu acho que ele foi até melhor que o Salah contra a gente", diz ele. O egípcio marcou um gol nesse jogo, em que o Woverhampton saiu derrotado por 2 a 0 - Van Djik fez o outro.
PORTUGUÊS
No Wolverhampton, Léo se sente em casa. As instruções gerais do treinador costumam ser em inglês. Mas é comum que frases em português sejam ditas a todo momento.
Afinal, além do técnico Nuno Espírito Santo e do próprio Léo, outros oito falantes do idioma estão no time: os lusos Rui Patrício, Rúben Vinagre, Rúben Neves, João Moutinho, Diogo Jota, Helder Costa e Ivan Cavaleiro - além do francês Boly, que jogou em Portugal.
Mesmo dos ingleses demais europeu do grupo, tidos muitas vezes como frios, ele diz que não pode se queixar.
"A gente se dá bem. Tivemos jantar de Natal com o elenco. A relação com todos aqui é muito boa"
Mas ele ainda estranha a cidade de Wolverhampton.
"Para quem veio de Belo Horizonte, a cidade aqui é muito pequena. Não há muito o que fazer", diz ele, que também não é muito fã da alimentação local.
"Ah, eles comem muito Fish & Chips, comer aqui não é muito bom, não', diz. "Aquele feijão com ovo do café da manhã deles... eu não consigo comer, não", diz, entre risos, sobre o tradicional Full English Breakfast.
Para se sentir mais confortável, Léo, que levou os pais para viver na Inglaterra, está sempre bem abastecido de feijão.
"Todos os amigos que vêm para cá sempre trazem feijão, então, nunca falta", diz, entre risos. Atualmente, a casa dele está cheia de amigos brasileiros, que foram passar as festas na Inglaterra.
"Mas dá para comprar aqui. Tem uns mercadinhos com coisas brasileira. Até Guaraná, dá pra encontrar"
VOLTAR?
Por ter jogado muito pouco no Brasil, Léo pensa em voltar um dia. Sem estipular metas, para não colocar pressão em si mesmo, como diz. Tal desejo não o impede de tecer críticas ao futebol do país onde nasceu.
"Eu assisto aos jogos aqui e vejo muito estádio vazio e gramados ruins. Sei que há ingressos caros, horários ruins e falta de segurança para quem usa transporte público. Mas tenho vontade de jogar o Brasileiro. É um sonho que não realizei, joguei muito pouco pelo Goiás", diz o jogador.
Antes disso, porém, se aparecer uma oportunidade boa, ele voltaria sem problemas para Riad, na Arábia Saudita.
"Riad é uma cidade sensacional, muito confortável", diz ele, que se adaptou com facilidade à vida local. De seu tempo por lá, o único aspecto que estranhou foi o religioso - e só no começo.
"Uma vez, saí para ir a uma loja e não me dei conta de que era o horário da reza diária", relembra-se. "Você não imagina como a cidade fica. Parece aquele filme do Will Smith, "Eu sou a Lenda", em que teve uma guerra e as cidades ficam vazias", relembra-se.
"Não é exagero, não fica ninguém na rua. Se você está num supermercado, eles abaixam a luz, fecham as portas e ninguém entra e ninguém sai, por exemplo. Daí, de repente, quando acaba a oração, a vida volta ao normal, todo mundo volta às suas atividades, como se nada tivesse acontecido", conta.
Mas Léo não se pressiona quanto a deixar a Inglaterra. Muito pelo contrário, ele sabe que está amadurecendo demais estando por lá. Se a oportunidade de voltar aparecer, ele vai pensar com a calma de quem sabe que, no futebol, não adianta projetar os passos com muita antecedência.
"Tem que casar tudo para dar certo. Não adianta eu querer voltar se não houver um clube interessado em um jogador com o meu perfil", diz ele, que tem contrato com o Wolverhampton até 2022.
