Circo, idolatria por Dida e empurrão de Felipão: como Jefferson virou ídolo do Botafogo

Para o torcedor do Botafogo, o jogo contra o Paraná Clube, pela penúltima rodada do Campeonato Brasileiro, será provavelmente a última chance de ver Jefferson em campo no estádio Nilton Santos. Aos 35 anos, o goleiro, que sofreu nos últimos tempos com algumas lesões, vai se aposentar dos gramados no final desta temporada.

Após trilhar um caminho bastante difícil até virar um dos maiores ídolos do clube alvinegro, ele virou uma referência para as novas gerações das categorias de base em General Severiano.

Situação que o faz se lembrar do próprio início de carreira, quando era um adolescente com o sonho de se profissionalizar pelo Cruzeiro.

“Eu sempre gostei do Dida. Era o meu ídolo. Eu me via nele, jogando como ele, alongando como ele. Ele é canhoto e eu também. Até o jeito dele se portar fora de campo. Quando ele estava na Toca da Raposa, eu acabava meu treino com o juvenil e nem trocava de roupa. Deixava os caras tomando banho e sentava em um banquinho para vê-lo treinar”, disse, em entrevista ao ESPN.com.br, em 2017.

Por causa do temperamento mais introspectivo do garoto, a admiração ficou somente à distância.

“Nunca cheguei a falar com ele naquela época. Era quase impossível! (risos). Eu tinha medo de chegar perto dele. Tinha 14 anos, achava que ele nunca ia me dar moral ou falar comigo. Ele tem muitos fãs”, confessou.

Muitos anos depois, quando Dida foi jogar pela Portuguesa, os goleiros se reencontraram na condição de adversários pelo Campeonato Brasileiro de 2012.

“[Nessa oportunidade] Quando falei com ele, vi que ele era um cara sensacional. Muito educado e profissional. Eu contei para o Dida essa história e ele deu risada: ‘Por que você não foi falar comigo?’ Respondi: ‘Eu tinha vergonha'".

Além de finalmente conversar com o ídolo, Jefferson ganhou outros presentes do ex-arqueiro do Milan.

“Eu até tenho uma luva velha dele em Assis que guardei comigo até hoje. Ele tinha dado para os goleiros da base treinarem, mas eu não quis usar de jeito nenhum. Guardei como um troféu mesmo. Ele me deu a camisa dele da Portuguesa e nós conversamos, de vez em quando, até hoje”, contou.

Circo e capoeira

Jefferson de Oliveira Galvão nasceu em São Vicente, mas mudou-se para Assis, cidade no interior de São Paulo, aos seis anos de idade. Além do futebol, o garoto lutava capoeira e participava de um projeto social em um circo.

“Eu sabia que a rua não tinha coisas boas para mim. Tinham muitas coisas erradas como drogas e criminalidade. Com 12 anos eu já pensava nisso. Só ia para rua quando era para jogar bola e soltar pipa”, garantiu.

O garoto gostava de jogar na linha, mas o destino fez o jovem ir para debaixo das traves.

“Um dia fui fazer um teste na Ferroviária de Assis e não tinha vaga nenhuma na linha. Como eu era alto meu amigo deu a ideia: ‘Tem um treinador de goleiros que fica dando treino. Vai lá tentar’. Eu não sabia praticamente nada e fiquei um mês treinando para aprender”, contou.

“Um dia estavam precisando de um goleiro. Me chamaram para fazer coletivo e chute a gol. Eu fui, falaram que eu tinha jeito e me mandaram ficar no elenco. Passou um tempo e me inscreveram nas competições. Vi que tinha um dom”, analisou.

Aos 14 anos, Jefferson foi para o Cruzeiro e com apenas 17 anos foi promovido aos profissionais por insistência de Luiz Felipe Scolari.

“Eles precisavam de um goleiro para repor os treinos e o Gomes, dos juniores estava viajando me chamaram do juvenil. Fiz uma semana muito boa no profissional e o Felipão pediu para eu ficar. Falavam que eu era muito novo, mas ele bateu o pé e subi direto”, recordou.

“Graças a Deus sempre fui bem maduro. Já tinha jogado nos juniores e era capitão dos juvenis. Sofri muita desconfiança pela idade. Eu fiz uma Copa João Havelange muito boa em 2000”, disse.

No ano seguinte, porém, o goleiro viveu um dos piores momentos da carreira após a perda do título da Copa dos Campeões.

“Eu não fui bem na final. Poxa, nada deu certo naquele jogo. Perdemos para o Paysandu e parecia que o mundo tinha desabado na minha cabeça. Ainda mais por ser novo eu recebi muitas criticas. Me apeguei muito à família e Deus. Tive que aguentar a bronca”.

“Em nenhum momento pensei em desistir. Isso foi fundamental para mim. Sempre pego as coisas negativas e isso me dá mais força. Se recebo uma crítica destrutiva isso não me abala. Procuro provar para a pessoa que ela está errada. Isso me colocou ainda mais para cima”.

Depois disso, ele quase não teve mais oportunidades na Toca da Raposa. Acabou emprestado ao América de São José do Rio Preto para jogar o Campeonato Paulista de 2003, mas não chegou a atuar por causa das convocações para a seleção brasileira sub-20. Como titular, Jefferson foi campeão mundial derrotando a Espanha de Andrés Iniesta na final por 1 a 0.

1ª passagem pelo Botafogo

Depois do Mundial, ele foi emprestado ao Botafogo, em 2003, justamente no ano em que a equipe estava na Série B do Brasileiro. Na época, estava com 20 anos.

"Foi um momento muito complicado e fiquei no banco. Foi muito difícil para mim. Ouvia de algumas pessoas que ia ficar rodando e não ia dar certo, que tinha desperdiçado a chance no Cruzeiro. Tive de ser muito forte para aguentar", confessou.

O goleiro revelou que, apesar das dificuldades, não deixou se abater. Buscou extrair forças daquele momento para batalhar ainda mais por seu espaço. Fácil não foi, mas após um ano de expectativa ele conseguiu o tão sonhado espaço.

"Tinha que trabalhar muito nem pensava se iria jogar ou não. Precisava amadurecer para quando surgisse uma oportunidade eu pudesse aproveitar. Trabalhei muito no Botafogo. Até um dia que o Levir Culpi falou para mim: 'Você está pronto'. Aí eu assumi o gol do time e a carreira deslanchou", relembrou.

Titular em 2004 e em 2005, Jefferson acabou aceitando uma proposta do Trabzonspor, da Turquia, em junho daquele ano. Foram três anos nessa equipe e mais um no Konyaspor, também turco. Não chegou a ganhar títulos, mas aprovou a experiência.

"Foi muito difícil no começo porque tinha 22 anos. Tudo foi muito rápido. Fora de campo eu nunca fui de sair nem de balada nem nada. Mas foi tudo tão rápido na minha vida que não soube assimilar tudo. Achava que lá eles teriam que se adaptar a mim. Fui com essa cabeça. Na realidade, eu precisava me adaptar ao país. Depois que percebi isso as coisas melhoraram", disse Jefferson, que foi rebaixado na Turquia no último ano.

A volta ao Brasil acabou acontecendo em 2009. Mas quem pensa que ela aconteceu de forma direta ao Botafogo engana-se. Jefferson ficou treinando sem clube por um tempo até finalmente entrar em acordo com a equipe alvinegra e iniciar a atual passagem.

Mesmo assim inicialmente ele ficou na reserva, mas conseguiu virar titular mais rápido do que na primeira passagem, encerrando 2009 como dono da posição.

"Voltei com outra cabeça. Não foi nem por dinheiro, mas pela identificação com o clube. Como tive uma primeira passagem feliz quis voltar. Estava mais maduro. Tanto que todos falaram que eu era outro goleiro. Eu resolvi voltar ao Brasil para poder brigar por uma vaga na seleção e jogar uma Copa do Mundo", relembrou Jefferson.

Consagração

O grande divisor de águas na vida do arqueiro seria 2010, quando enfrentou o Flamengo na Taça Rio, o segundo turno do Estadual. Como já havia vencido a Taça Guanaraba, que corresponde ao primeiro turno, o Botafogo seria campeão carioca diretamente em caso de novo triunfo.

A equipe alvinegra vencia por 2 a 1, no Maracanã, quando aos 31 minutos do segundo tempo o volante Fahel segurou o zagueiro Ronaldo Angelim na área. Pênalti! Adriano, o Imperador, foi para a cobrança e chutou no canto esquerdo do gol, mas Jefferson impediu o tento. Com a palma da mão canhota, ele espalmou a bola pela linha de fundo.

"Fomos campeões naquele ano. Peguei o pênalti no mesmo dia que o Loco Abreu fez um gol de cavadinha. Aquele jogo mudou a minha carreira. Eu tinha chegado da Turquia e o Botafogo tinha perdido as três últimas finais para o Flamengo. Quando fomos para a final contra eles os torcedores me paravam na rua e diziam: 'Pelo amor de Deus, a gente não pode perder de novo. Não pode, não pode'. Na semana do jogo eu nem saia direito. A pressão era muito grande", disse.

A penalidade defendida por Jefferson ajudou a fazer o Botafogo campeão, a torná-lo um ídolo do clube alvinegro e também a quebrar uma sequência de três vices para o rival Flamengo. Mas não foi apenas isso.

Ao colaborar naquele título, Jefferson também ajudou a colocar um ponto final na história do "chororô", forma como os botafoguenses passaram a ser desdenhados após a derrota na decisão da Taça Guanabara de 2008. Para citar um exemplo, ainda naquele ano, o atacante Souza comemorou um dos gols rubro-negros na Libertadores como se estivesse chorando, poucos dias após a final do Carioca contra os botafoguenses.

"Eu não estava no Brasil nos anos anteriores, mas me veio na cabeça todas as finais perdidas pelo Botafogo. Pensei: 'Preciso pegar esse pênalti, preciso ajudar e fazer a diferença'. Me concentrei muito. Em nenhum momento eu olho para a torcida, olho só para o Adriano. Sabia que o canto forte dele era o lado esquerdo. Pensei: 'Vou esperar ele chegar na bola e vou pular naquele canto. Se eu sair antes ele vai trocar'. Foi bem calculado e fiz a defesa com a pontinha do dedo. Alguns minutos depois o jogo acabou. E aquilo mudou minha carreira. Depois de um mês e meio teve a convocação para a seleção brasileira. Sei que aquele pênalti me ajudou demais a ser chamado", disse.

Pênalti de Messi

Após o título com o Botafogo, ele foi convocado pela primeira vez para a seleção principal. Não chegou a ir para a Copa de 2010, como queria, mas foi reserva no Mundial de 2014. Jefferson esteve em competições como as Copas América de 2011 e 2015, a Copa das Confederações de 2013 e as eliminatórias para a Copa de 2018.

Seu grande momento pelo Brasil foi no Superclássico das Américas contra a Argentina, em 2014. No jogo realizado em Pequim, ele defendeu um pênalti de Lionel Messi quando o jogo estava 1 a 0 para os brasileiros. O time comandado por Dunga venceu por 2 a 0, e aquela defesa sempre foi apontada pelos envolvidos como fundamental para a vitória.

"Só que a ficha do que eu fiz só foi cair uns dois meses depois (risos). E foi uma defesa muito boa mesmo. Dei entrevista para o mundo todo e até hoje lembram daquilo: "Olha o goleiro que pegou o pênalti do Messi'. O mundo todo me procurou e minha carreia foi la em cima", recordou.

O goleiro se diverte ao relembrar que antes daquele duelo não havia muita expectativa por parte da imprensa e da torcida.

Mas Jefferson garante que a concentração dos jogadores era grande. E ele próprio dedicou um tempo para saber mais sobre os adversários que iria enfrentar. Especialmente Lionel..

"Todos que vão jogar estudam o Messi. O que ele faz e tudo mais. Mas a equipe da Argentina era muito qualificada. Eu sabia que iria jogar contra toda a equipe. Muitos caras fazem a diferença por lá. Individualmente, seria um jogo muito importante para mim porque eu tinha feito alguns amistosos pela seleção, mas não contra adversários conceituados. Precisava fazer um grande clássico para me firmar de forma definitiva", esclareceu.

A alegria ao relembrar aquele confronto é natural para o arqueiro.

"Ali eu fiz uma grande partida. Quando teve o pênalti, eu lembrei que ele tinha batido do lado direito do goleiro na Copa de 2014. Ali é o lugar de confiança dele. Pensei: 'Ele vai cobrar lá'. Não sou muito de ficar estudando jogadores, mas gosto de ver muitos jogos e analisar meus adversários. E ele fez a mesma coisa do Mundial. Foi a mesma batida. Esperei o máximo até ele cobrar e pulei no canto direito. Fiz a defesa."

Não foi apenas sobre a defesa do pênalti que Jefferson falou nos dias seguintes. O goleiro também teve de explicar a reação em campo, que, digamos, foi pequena diante do feito. Nada de socos no ar, palavrões ou gritos. Apenas cumprimentos aos companheiros e, depois, dedos apontando para o céu, em agradecimento a Deus.

"As pessoas falam que sou meio frio, mas acabou o jogo nem passava pela minha cabeça 1% da repercussão que esse pênalti poderia ter. Não passou nada. Para mim, pensei assim: 'Pô, fui bem e ganhamos o jogo'. Quem diria...", disse o goleiro.