Encontrado morto no último sábado, em São José dos Pinhais-PR, o meia Daniel Corrêa Freitas, que tinha 24 anos, concedeu uma entrevista exclusiva ao ESPN.com.br quando ainda defendia o São Paulo, em 2016. Muito simpático e solícito com a reportagem, contou com bom humor sobre sua trajetória no futebol e um pouco de sua vida fora dos gramados. Fã de música sertaneja, ele tinha como principais diversões jogar videogame e ficar ao lado da família e dos amigos.
Ex-Botafogo, o atleta estava emprestado ao São Bento, de Sorocaba (interior de São Paulo), e tinha contrato com a equipe do Morumbi até o final de 2018. O corpo do jogador deu entrada no Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba, e ele foi reconhecido por familiares nesse domingo.
Nascido em Juiz de Fora-MG, Daniel foi criado em Conselheiro Lafaiete-MG, onde começou nas escolinhas de futsal. Aos 15 anos, foi para as categrias de base do Cruzeiro. Antes de mudar-se para os alojamentos da Toca da Raposa, em Minas Gerais, era levado duas vezes para os treinos duas vezes por semana, sempre por sua mãe ou seu tio, seus grandes incentivadores.
Em Belo Horizonte, foi colega do volante Lucas Silva (Cruzeiro) e do atacante Alisson (Grêmio). O meia serviu a seleção brasileira sub-17 e disputou a Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2013, quando aprendeu, nas oitavas de final contra o Atibaia-SP, uma das maiores lições da carreira.
"Eu ainda era jovem e com a cabeça sem entender tanta coisa. O jogo estava difícil, 0 a 0, em um campo não tão legal. Eu achava que estava jogando bem, mas o treinador tinha o hábito de me tirar todo jogo. Nessa partida ele ia me substituir. Eu estava perto do banco e vi que sairia e questionei. ‘Pô, eu vou sair sempre? Estou jogando bem’. Esperava que ele mudasse de ideia", recordou.
"Ele não ficou feliz, discutimos e eu fiquei nervoso e disse que não ia sair (risos). Os jogadores vieram falar comigo, esfriei a cabeça e saí. Para piorar a história, o cara que entrou fez o gol da vitória (risos). Só tive que abaixar a cabeça. O treinador estava certo. Eu me arrependi um pouco porque precisa respeitar o treinador. Foi bom que aconteceu na base, ainda tiveram paciência comigo e pude aprender", admitiu o jogador.
Poucos meses depois, transferiu-se para o Botafogo, no qual jogou primeiro pelo time sub-20 antes de subir aos profissionais.
"Vi que no Cruzeiro não teria oportunidades tão facilmente e meu contrato estava terminando. O Botafogo tinha um interesse bem maior em mim, vi que lá teria chances e seria bom para a minha carreira", explicou.
Em General Severiano, Daniel foi promovido ao time principal nos últimos meses de 2013 e estreou no clássico contra o Vasco, que terminou 2 a 2, válido pelo Campeonato Brasileiro daquele ano.
"Acho que a estreia como profissional ficou gravada para semrpe. Estávamos vencendo por 2 a 0, mas levamos o empate. Eu entrei no fim, mas fiz uma boa jogada e quase fiz o gol da vitória", recordou.
O meia também teve a oportunidade de conviver alguns meses no Botafogo com o holandês Clarence Seedorf.
"Era um cara fora de série, líder e queria o bem do clube. Ele não se limitava a ser só um jogador. Queria mudar o que achava errado e foi bem legal de conviver. O Botafogo vivia um momento conturbado porque o time começou muito bem e depois caiu um pouco. Corria o risco de não classificar para a Libertadores, e a torcida pegou um pouco no pé. Foi um momento de pressão nos treinos. No fim, deu certo e classificamos para a pré-Libertadores", contou.
Em 2014, foi um dos destaques da equipe alvinegra e ganhou o apelido de "Daniel Messi", apesar do rebaixamento no Brasileiro. Foram cinco gols marcados em 28 jogos disputados.
"Foi uma brincadeira da torcida, acho que até pelo nome Danilel e Lionel serem parecidos (risos). O Messi é o meu maior ídolo e gosto de arrancar em velocidade com os dribles. No jogo que marquei meu primeiro gol, fiz logo um 'hat-trick' e dois deles foram arrancando. Eu acho que o apelido veio assim. Mas não dá para comparar (risos)", analisou.
Quando vivia seu melhor momento na carreira, o meia sofreu uma grave lesão no ligamento cruzado do joelho direito. Alegando atrasos nos salários e nos depósitos de FGTS, ele rescindiu seu contrato com o Botafogo antes do final de 2014.
Após ter acertado com o Palmeiras, foi reprovado nos exames médicos, mas logo em seguida assinou contrato de três anos com o São Paulo, que bancou seu tratamento.
"Minha recuperação foi algo bem difícil, de muita luta. Tenho que agradecer aos profissionais do Botafogo e do São Paulo por isso. Era chato e entediante ficar o dia inteiro deitado numa maca. Mas tinha que fazer. Jogador gosta de treinar e jogar, estar em contato com os colegas em viagens e enfrentando desafios que o futebol proporciona. O tempo passava lentamente, por isso jogava muito videogame, via muita televisão e contava com a ajuda dos amigos e dos familiares para ter uma distração", contou.
Daniel só estrearia pelo time do Morumbi em setembro de 2015, mas nunca conseguiu se firmar na equipe. Sofreu duas cirurgias nos joelhos e não conseguiu muitas oportunidades. Em duas temporadas, fez apenas 15 partidas e não balançou as redes com a camisa tricolor.
Depois, foi emprestado para Coritiba, Ponte Preta e São Bento, seu último clube. A polícia do Paraná investiga a morte do jogador de futebol, que foi vítima de tortura, e já descartou um possível latrocínio – roubo seguido de morte.
