"Quando fomos jogar a 'Batalha dos Aflitos' contra o Náutico, o Mano colocou um vídeo que mostrava todos os títulos do Grêmio: Mundial de Clubes, Libertadores, Brasileiros... Daí, apagou tudo no fim e as luzes foram ligadas. Ele falou: ‘E agora vocês têm que fazer a história de vocês. Essa página está aberta e serão vocês que irão escrever’. Essa palestra foi inesquecível por tudo que passamos depois".
O relato é do ex-lateral Patrício na conquista da Série B de 2005, o titulo que projetou a carreira de Mano Menezes.
Nesse jogo, o agora bicampeão da Copa do Brasil com o Cruzeiro deu mostras de que os jogos eliminatórios seriam a marca de sua trajetória.
"A Batalha dos Aflitos foi um caso marcante na carreira dele e de todos nós que estávamos lá. Não foi algo normal o que aconteceu. Não pudemos aquecer, vestiário pintado, tudo contra. Tivemos muita garra, dedicação e sorte. Foi algo glorioso", disse Patrício.
Na ocasião, o time gaúcho venceu o Náutico por 1 a 0 fora de casa em um duelo com três jogadores a menos e dois pênaltis perdidos pelo time pernambucano.
Já nesta quarta, Mano foi campeão da Copa do Brasil com o Cruzeiro, após vencer em casa, na partida de ida, por 1 a 0, e sacramentar a vitória também fora de casa, na Arena Corinthians, vencendo por 2 a 1. Juntos, Mano Menezes e Cruzeiro conquistaram o inédito bicampeonato do torneio, já que também ergueram a taça no ano passado, na decisão contra o Flamengo.
"Em mata-mata ele tem bastante sorte porque é o perfil dele como treinador. Ele prepara muito bem psicologicamente e tecnicamente as equipes dele para jogar final, mata-mata e jogos importantes", disse André Santos, que foi comandado por Mano no Corinthians, Flamengo e seleção brasileira.
Além da parte mental, o treinador gosta de trabalhar de forma muito forte seus sistemas defensivos.
"Mano é um técnico muito simples e objetivo. Não tem nada de frescura, Ele tem uma forma de se defender sempre no 4-4-2, faz duas linhas e se fecha bem. O grande mérito dele é saber montar equipes que se defendem muito bem. Dificilmente ele leva mais do que dois gols em qualquer partida", ressaltou.
"Ele têm jogadores que se destacam mais do meio para frente e que decidem jogos. Ele tem muita experiência e sabe jogar esse tipo de competição em mata-mata, sempre está chegando na Copa do Brasil. Ele foi trabalhando em clubes grandes com grandes jogadores e foi pegando experiência ao longo da carreira", afirmou Patrício, que trabalhou com o treinador no XV de Campo Bom e no Grêmio.
"Ele sempre estudou adversários, desde a nossa época, com vídeos, E nos mostrava tudo. Mostrava quem batia pênaltis, faltas, como se posicionava, tudo mesmo. Íamos bem preparados e sabíamos onde queríamos chegar".
Mano Menezes jogou por times amadores do interior do Rio Grande do Sul até se formar em educação física. Começou a carreira de treinador no Sesi, em 1986, e passou pelas categorias de base de Guarani de Venâncio Aires-RS, Caxias e Internacional.
Em 1997, virou estagiário no Cruzeiro campeão da Libertadores da América com o técnico Paulo Autuori por indicação de Caio Júnior.
Depois, comandou Brasil de Pelotas, Iraty e Guarani, até chegar ao 15 de Novembro de Campo Bom-RS. Com nomes como Perdigão, Dauri e Marcelo Pitol, ele levou a equipe do interior gaúcho a eliminar o Vasco e chegar até as semifinais da Copa do Brasil de 2004, quando caiu para o Santo André, que venceria o torneio.
Depois, passou pelo Caxias antes de chegar ao Grêmio, que estava na Série B do Brasileiro. Foi peça fundamental na reconstrução da equipe tricolor, que conquistou o título do torneio e no ano seguinte se classificou para a Libertadores de 2007.
Na competição continental, só foi derrotado na final pelo Boca Juniors.
"Ele colocou na nossa cabeça que era possível reverter qualquer vantagem. Pegamos o São Paulo e o Santos, que eram em tese favoritos contra nós, e perdemos os dois jogos fora de casa. Mesmo assim, revertemos no Olímpico. Foram grandes jogos", recordou Patrício.
Em 2008, foi para o Corinthians, que havia sido rebaixado no Brasileiro do ano anterior. Após uma campanha ruim no Paulistão, foi vice-campeão da Copa do Brasil e faturou com sobras a Série B.
"O jeito que ele lida com a equipe é um ponto muito forte. É um cara muito sensato e que dá oportunidade a todos os jogadores e trata todos da mesma forma. Ele se cobra o tempo todo, tira o melhor de cada jogador e com uma cobrança sadia", disse André Santos.
Com a contratação do craque Ronaldo Fenômeno, Mano venceu a Copa do Brasil e o Paulistão de 2009, antes de ir para a seleção brasileira, depois da Copa do Mundo de 2010. Após dois anos de altos e baixos, foi demitido em um cenário político conturbado na CBF.
Após sair da equipe canarinho, ele comandou Flamengo, Corinthians, Cruzeiro e Shandong Luneng-CHI. Voltou à Toca da Raposa no meio de 2016.
Venceu o bicampeonato inédito da Copa do Brasil e o Mineiro deste ano. O currículo impressiona até hoje seus ex-comandados.
"Sempre que encontro alguém do XV de Campo Bom, seja o Perdigão ou o Dauri, a gente brinca: ‘Olha onde o 'pai véio' está’. O Mano chama a gente de filhos até hoje (risos). Só tenho grande lembranças dele", finalizou Patrício.
