Juninho Quixadá sabe como poucos que a vida de um jogador de futebol é feita de contrastes.
Em 2014, ele duelou contra o Real Madrid de Cristiano Ronaldo na Uefa Champions League. Menos de quatro anos depois, estava na última divisão do Brasileiro. Quando parecia que sua carreira estava condenada ao ostracismo, o meia de 32 se reinventou novamente.
Foi para o Ceará, que parecia fadado ao rebaixamento para Série B e, com boas atuações, ajudou na reação impressionante da equipe alvinegra no Campeonato Brasileiro.
Estes são apenas alguns capítulos da história do garoto natural de Quixadá, no Ceará, que precisou trabalhar desde os oito anos para ajudar no sustento de casa.
"Meu pai vendia picolé na rodoviária e eu passei a vender também os bombons, umas balinhas, água, refrigerante, essas coisas. Também trabalhei na feira de frutas e vendia laranja e banana. Fiquei nisso até meus 14 anos", disse, ao ESPN.com.br.
Juninho Quixadá demorou para engrenar na carreira de jogador. Antes de ir para o campo, ele passou pelo futsal. Tudo começou a mudar quando ele passou a acompanhar os treinos do Quixadá Futebol Clube.
"Eu morava perto do estádio e saía da escola correndo depois da aula para ver os treinos como gandula atrás do gol. Chegou um treinador chamado Argeu dos Santos, que eu acho que ficou com pena de mim, e me colocou para treinar. Eu fui, mas tinha medo dos caras né? Eles eram bem maiores que eu", relatou.
O jovem completava o times em qualquer posição e assinou com o clube de sua terra natal. Quando chegou ao Sub-20, porém, ficou sem chances e foi emprestado para o Ferroviário. Na equipe tricolor, não conseguiu jogar e voltou para o Quixadá. De volta ao seu primeiro clube, o meia demorou a ter chances. Mas um velho amigo do passado reapareceu na vida de Juninho: seu primeiro técnico.
“Contrataram o Argeu e meu ânimo mudou. Eu comecei a jogar bem não sei como, fui melhorando e logo no meu terceiro jogo fiz gol e não parei mais até hoje”, relatou.
O meia ainda passou por Tiradentes e Ferroviário antes de chegar ao clube que mudaria sua vida: o Bragantino. Quando defendia o time do interior paulista, surgiu por acaso a chance de ir para Europa, no meio 2011.
“O Bragantino queria vender um jogador para o Ludogorets, da Bulgária, porque não estava sendo aproveitado. Só que ele chegou lá e deu alguma alteração nos exames médicos dele. O cara voltou, e eles começaram a se programar para me comprar. Foram em vários jogos que fiz e fecharam. Eu aceitei ir, mas, até então, eu nunca tinha ouvido falar nada da Bulgária”, admitiu.
Ídolo na Europa
Como nunca havia morado fora do Brasil, o meia enfrentou muitas dificuldades e sofreu para se acostumar com o novo país.
“Meus primeiros dias lá foram meio complicados porque os búlgaros não são fáceis. O que eu mais estranhei foi a comida deles, que eu não conseguia comer. No começo, quando a gente chegava no restaurante, eu sempre comia a mesma coisa. Os garçons até sabiam que era macarrão com queijo. Era até engraçado. Era isso no almoço e na janta. Antes de dormir, eu comia um pão de leite com suco ou com água mesmo”, relatou.
“A cultura deles é totalmente diferente, sem falar no clima. O país é totalmente organizado. Lembro que fui passar férias no Brasil. Um dia, fui comer um pastel com caldo de cana, com meu pai e, quando acabei, eu já não joguei as embalagens no chão. Procurei um lixo, porque, lá na Bulgária, não tinha costume de jogar nada no chão. Tinha até vergonha”, contou.
Juninho chegou quando o Ludogorets disputou a 1ª Divisão da Bulgária pela primeira vez na história. Comprado por Kiril Domuschiev, um bilionário búlgaro do ramo farmacêutico que investiu alto no futebol, o clube virou a maior potência do país e uma colônia de jogadores brasileiros.
“O time não tinha estádio e ficamos três meses jogando fora até construírem um para receber jogos de competições europeias. A gente treinava longe, em outra cidade. Depois, fizeram um CT muito bom, com academia e estruturas boas. Compraram até um ônibus”, recordou.
Depois de fazer poucas partidas na primeira temporada, Juninho Quixadá passou a ser peça fundamental na equipe que venceu sete vezes o Campeonato Búlgaro (de 2012 à 2017) e entrou no mapa do futebol europeu.
Foto com CR7
Um dos momentos mais marcantes para Juninho foi quando ele marcou um gol no último minuto de um jogo contra a Lazio, empatando a partida em 3 a 3, o que fez sua equipe avançar às oitavas de final da Europa League pela primeira vez em sua história.
“Foi incrível, porque entrei faltando uns 15 minutos para o fim do jogo. Até então, era o gol mais importante do clube. Para mim, foi ainda mais gratificante, porque foi contra o Klose, que tem muita história no futebol mundial. Foi mais um presente de Deus na minha vida”, recorda-se.
O Ludogorets acabaria eliminado nas oitavas pelo Valencia. No ano seguinte, o time búlgaro alçou voos mais altos. Chegou à fase de grupos da Uefa Champions League e enfrentou potências como Real Madrid e Liverpool.
“Não tem como descrever o que a gente sente. Você estar no campo ouvindo o hino e poder jogar contra os melhores do mundo é ainda mais gratificante. Todo mundo se envolve com o clima do jogo. Foi uma experiência única que vai ficar para sempre na minha vida”, relatou.
Contra os Reds, Quixadá entrou com 21 minutos do primeiro tempo e foi um dos destaques do empate por 2 a 2, na Bulgária.
“A gente estava ali do lado deles. Você acaba querendo também mostrar um pouco do seu talento e dificultar um pouco para eles. Eu ganhei a camisa do Coutinho quando jogamos contra o Liverpool. Fiquei ainda mais fã dele, um cara muito gente boa e humilde”, elogiou.
No duelo em casa contra o Real, o Ludgorets teve um jogador expulso logo no primeiro tempo e perdeu por 4 a 0. O meia brasileiro entrou no segundo tempo, mas teve a chance de duelar por alguns minutos contra Cristiano Ronaldo.
“Quando acabou o jogo, o Cristiano estava nervoso e xingou até os jornalistas. Ele estava muito chateado, também, porque um jogador nosso pisou no tendão do tornozelo dele. Mas eu tinha que bater uma foto com ele, porque o meus sobrinhos estavam me deixando louco. Eles não queriam que eu ganhasse o jogo ou fizesse gols, ele só queriam que eu mandasse a foto. Eu não sabia como ia tirar, porque eu o vi bravo e brigando com todo mundo. Eu pensei: ‘Rapaz se eu for perto daquele cara ele vai me xingar, vai dizer: ‘Sai daqui menino, não sei nem que diabo é tu’(risos)”, relatou.
“Eu falei para o Marcelo: ‘Preciso que você faça um vídeo para os meus sobrinhos que estão me deixando louco e que você convença o Cristiano Ronaldo a bater uma foto comigo’. Marcelo me disse: ‘Rapaz, o homem está bravo, mas fica tranquilo’. O Marcelo foi até o Ronaldo, que estava conversando com umas pessoas, e disse: ‘Vai lá Cris, bate uma foto com meu conterrâneo aqui’. Daí, o Ronaldo balançou a cabeça. Eu fui lá bem tímido e meio com medo, mas tirei a foto. No fim, deu tudo certo”, contou, orgulhoso.
Volta ao Brasil
Depois de seis temporadas e meia no Ludogorets, Juninho Quixadá resolveu sair da equipe búlgara por estar sendo pouco aproveitado no fim de sua passagem.
“Eu não ia volta para o Brasil, porque tinha outras coisas na Europa, que acabaram não dando certo. Por isso, escolhi ficar em Fortaleza, até por conta de alguns problemas familiares. Tinha umas ofertas da Série B do Brasileiro, mas não acertamos questões salariais”, relatou.
Nisso, ele recebeu um convite do presidente do Ferroviário, do Ceará, para jogar Estadual, Copa do Nordeste, Copa do Brasil e Série D do Campeonato Brasileiro. “Eu o conhecia dos tempos de Quixadá. Queria jogar esses campeonatos e acertei por um valor menor. Eu queria jogar para depois aparecer de novo e ir para um time bom da Série B com um salário maior”, disse.
“Meu primeiro jogo foi contra o Vila Nova e eu estava muito bem, até sofrer uma lesão nos ligamentos do tornozelo. Foi bem complicado, porque eu não me recuperava e fiquei preocupado. Caso não jogasse, minha carreira poderia acabar. Começou a Série D, e eu só jogava uns 15 minutos por partida. Fiquei noites sem dormir e passei a me cuidar fora do clube também. Os resultados passaram a acontecer”, contou.
Juninho Quixadá voltou ao time titular e, com gols e assistências, foi decisivo para o acesso do time para a Série C do Campeonato Brasileiro.
“Comecei a me animar mais e quando achava que ia para Série B, ganhando melhor, veio a notícia de que o Ceará, na Série A, estava interessado em mim. O time estava na lanterna do campeonato. Eu fiquei animado, porque vi ali a oportunidade da minha vida. Deixei o Ferroviário na semifinal e me apresentei no Vozão”, afirmou
“Eu cheguei, pude fazer bons jogos e a equipe pôde vencer. Hoje, estamos aí na luta para sair do rebaixamento. Estou realizado porque eu vi todo aquele sofrimento, inclusive dos meus familiares. Muita gente disse que a minha carreira tinha acabado. Mas eu não tinha ego ou vaidade, que poderiam me atrapalhar muito. Em nenhum momento pensei: ‘Nossa, eu saí da Champions League para jogar a Série D’. Eu queria era jogar, não estava preocupado onde”, garantiu.
Mesmo realizado, Juninho não esquece suas origens. Até hoje ele procura ajudar Argeu dos Santos, seu primeiro treinador, que está doente.
"Devo muito à ele, foi um cara que foi importante demais para mim", diz Juninho, mostrando mesmo que não se esquece de onde veio, independentemente de onde chegou.
