Ídolo da torcida do Ceará, Everson se tornou ainda mais conhecido em todo o Brasil nesta quarta-feira. Isso porque ele marcou um gol de falta e abriu o caminho para a vitória do seu time por 2 a 1 sobre o Corinthians. E o mais curioso é que ele foi pupilo de um eterno rival corintiano: Rogério Ceni.
Nascido em Pindamonhangaba-SP, ele começou debaixo das traves por influência do pai, que era arqueiro na várzea da região.
"Eu era gandula quando ele jogava. No intervalo meu pai me dava as luvas dele e ficava chutando a bola para mim. Nisso, começou essa paixão de criança", disse, em entrevista à ESPN em 2017.
Além do pai, a outra inspiração do garoto era Rogério Ceni. São-paulino de infância, ele foi aprovado em testes na equipe tricolor, aos 13 anos. Nas categorias de base, Everson foi colega de Oscar, Breno, Sergio Motta e Wellington.
"Jogamos o mundialito sub-17 na Europa e tiramos o Real Madrid na semifinal. Ganhamos de 3 a 0 e passamos por cima (risos). O Casemiro e o Lucas eram reservas por serem mais jovens".
Nesta competição começou o assédio aos jovens que fariam sucesso depois na Europa.
"O São Paulo fez contrato longo com todo mundo antes dessa competição. Tinha olheiro do Arsenal e do Manchester United por lá, mas como as multas eram altas não teve andamento. O United tentou contratar o Oscar naquela época", garantiu.
"Esse torneio mudou minha vida. Muitos empresários vieram atrás de mim para assinar contrato. Mas eu não quis porque muitas pessoas querem se aproveitar dos jogadores", alertou.
Everson foi campeão do Desafio Pelé de Futebol Internacional, que reuniu Sheffield United, Manchester United e o Porto, na cidade de Sheffield, na Inglaterra.
"O Pelé nos entregou a taça. Ele é muito mais valorizado lá fora do que aqui. Quando o nome dele foi anunciado no estádio, todos se levantaram e o aplaudiram de pé. É um cara humilde demais e pude tirar uma foto com ele", disse.
Everson enfrentava a concorrência de Leo, um de seus melhores amigos no clube, que era titular na maior parte do tempo.
Após ficar no banco por duas edições da Copa São Paulo de futebol júnior, o goleiro foi promovido aos profissionais e virou pupilo de Rogério Ceni. Com apenas 19 anos, ele descobriu que sua esposa estava grávida e se mudou para os alojamentos do CCT da Barra Funda, onde morou por cinco meses.
"Ali comecei a me tornar homem. Foi muito bom trabalhar com meu ídolo. Todos os treinos o Rogério me dava conselhos, não só como profissional, mas como ser humano. Ele elogiava muito a minha agilidade e velocidade. Dizia que eu tinha manter isso porque a técnica iria ficar perfeita com o tempo", afirmou.
"É um cara que sempre me ajudou, me chamava para fazer disputas por pênaltis. Ele falava: ‘Gosto de treinar pênalti e falta porque você me dá muitas dificuldades. Você não sai antes'", recordou.
A influência de Ceni na vida do goleiro se deu também no jogo com os pés. No Ceará, ele é um dos batedores de falta. “É surpresa para quem não me conhecia. Mas eu sempre treino essas cobranças e venho bem nos treinos. Na preleção, deixamos tudo definido em caso de contra-ataque; sempre fica alguém na cobertura. Antes de qualquer coisa, o mais importante é desempenhar bom papel no gol primeiramente”, afirmou.
No final de 2009, ele desceu para o sub-20 e foi campeão da Dallas Cup, eliminando o Manchester City no torneio.
Em janeiro, chegou uma proposta de empréstimo para o Guaratinguetá. Como não tinha espaço entre os profissionais, o arqueiro aceitou mudar de equipe.
"Eu fui para ser reserva do Jailson [atualmente no Palmeiras]. Conseguimos o acesso no Paulista da Série B e fomos bem no Brasileiro da Série B, mas não tive chances. Meu empréstimo acabou e nisso encerrou o contrato com o São Paulo, que já tinha quatro goleiros no profissional. Eles não quiseram renovar comigo e fiquei no Guaratinguetá", relatou.
"Em quatro anos que fiquei no Guará me concentrava com Jailson e somos amigos desde então. Ele mora em são José dos Campos, pertinho da minha casa, sempre nos falamos", garantiu.
O problema é que o grande tempo no banco de reservas do amigo atrasou a carreira do Everson. "Todos diziam que eu era muito bom, mas não jogava. Tinha também a questão da idade era complicada, tinha muito preconceito com goleiros jovens. Hoje, melhorou um pouco", analisou.
Mudança para o Nordeste
Tudo mudou em 2014, quando Evair (ex-atacante do Palmeiras) foi treinar o River-PI e fez um convite para Everson.
"Ele tinha sido auxiliar do Sérgio Guedes no Guaratinguetá e me falou: ‘Você está com 24 anos, precisa jogar. Tem que começar a aparecer para o Brasil. Se a gente conseguir um título dará uma alavancada na sua carreira'", explicou.
"Esperei um pouco algumas propostas, mas não vieram. Conversei com a minha esposa: ‘Vamos ter que ir ao Piauí. Mesmo sendo um Estadual sem tanta visibilidade'. O Evair foi demitido no segundo turno, mas fomos campeões estaduais depois de sete anos", recordou.
Com a conquista no Campeonato Piauiense, ele recebeu atenção de outras equipes. "Voltei para minha casa e o técnico Betinho, que havia sido auxiliar do Toninho Cecílio no Guaratinguetá, me chamou para o Confiança-SE. Eu conversei com a minha esposa para decidirmos aonde ir. Eu iria jogar no River-PI, mas no Confiança iria brigar por posição", afirmou.
"Ela me pediu um minuto. Foi olhar no Google a cidade de Aracaju e não tinha mais conversa. Cidade linda, praia, cultura. Ela sempre quis morar em cidade com praia e fomos", recordou.
Na equipe de Sergipe, o goleiro rapidamente virou mito e ganhou um "Everson Facts", bem ao estilo Chuck Norris, com 13 frases hilárias.
"Everson não tem advogado, ele se defende sozinho", "Everson já defendeu pênalti da arquibancada" e "Se Everson trabalhasse na Volks não haveria mais gol" são algumas das pérolas inventadas pelos torcedores azulinos.
"Acho isso sensacional (risos). Eles criaram isso para mim depois que fiz um gol de pênalti numa vitória do Confiança por 1 a 0 no Estadual. Não tinha cobrador oficial e eu fui lá bater. Um das minhas frases preferidas é: ‘Everson não consegue se ver no espelho porque o reflexo é muito rápido (risos)'", contou.
Chamado de Muralha Azulina, o goleiro ironicamente era dono de um gol naquela época. "Nessa rolava até umas piadas do gerente do time: ‘Everson, sai do gol, você não é goleiro para ficar no gol' (risos). Eu vinha com meu golzinho sem ar-condicionado com os vidros todos abertos naquele puta calor de Aracaju", disse.
"Quando minha esposa estava grávida e ia ao estádio para ver nossos jogos, a torcida abria a rua para ela chegar mais rápido. ‘A mulher do Paredão não pode atrasar'. São coisas simples que nos cativaram muito. Sabiam quem era ela e faziam questão de arrumar um lugar", contou.
Além do título estadual, Everson conseguiu acesso para Série C do Campeonato Brasileiro em 2014. "Foi um clube que as pessoas são muito honestas e a torcida abraça o time. Eu vi torcedores fazerem campanha para ajudar a completar a folha salarial dos jogadores. A gente se apaixonou pelas pessoas", relatou.
"Tenho muito carinho e sou muito grato mesmo a todos eles. Toda vez que tem aniversário ou decisão do clube eles me pedem para gravar vídeos e mandar parabéns. Por onde eu for o Confiança vai estar junto comigo", agradeceu.
Salvou Ceará do rebaixamento
A saída de Everson começou a se desenhar após um confronto contra o Ceará pela primeira rodada da Copa do Brasil de 2015.
"Empatamos na primeira partida em casa por 0 a 0 e fui eleito o melhor em campo. Na volta, era jogo da TV e só perdemos por 1 a 0 com um gol de pênalti do Marco Antônio. Eu fiz uma partida perfeita e veio o interesse deles por mim", disse.
A transferência só se concretizou após um duelo pela Série C contra o Fortaleza, quando ele fechou o gol novamente. O Ceará parecia fadado ao rebaixamento na Segunda Divisão.
"Quando o [técnico] Lisca chegou eu era reserva do Luis Carlos. Com alguns dias de trabalho, ele gostou do meu jeito de jogar mais adiantado. Treinei a semana toda na reserva, mas um dia antes do jogo contra o Criciúma ele me chamou no hotel: ‘Você será meu titular até o fim do campeonato. Você está pronto?'. Respondi: ‘Estou'. Ele me disse: ‘Desculpe te colocar numa situação dessas, mas é na adversidade que aparecem as oportunidades'", relembrou.
"Em nove jogos precisávamos vencer seis e empatar um. Foi nisso que fizemos aquela arrancada sensacional", afirmou.
O jogo que mudou a sorte de Everson e do Ceará foi na última rodada da Série B de 2015. Com atuação de gala do goleiro, a equipe alvinegra venceu o Macaé por 1 a 0 e não foi rebaixada.
"Fiz uma partida que virei ídolo. Aos 45 minutos do segundo tempo, eu peguei uma bola no ângulo. Aos 48, defendi uma bola no cantinho. Contribui em cinco minutos para salvar o time em duas bolas milagrosas", contou
"Eu assisto até hoje na televisão e não acredito como consegui pegar aquela última bola porque foi muito rápida. Minha mulher brinca que de tanto que vejo essas defesas ainda vou tomar um gol no replay um dia (risos)", admitiu.
Com as boas atuações, ele diz ter recebido uma sondagem do Palmeiras no meio de 2016.
"Logo depois que o Fernando Prass se machucou, chegaram até meu empresário. Nós estávamos muito bem na Série B e vieram outros clubes, mas o Ceará aumentou meu contrato e meu salário. Achei melhor ficar por aqui", contou.
Everson ficou e no ano passado conseguiu o tão sonhado acesso para a Série A.
