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A doce e dura vida de Adriana Araújo: Primeira e única medalhista de boxe feminino do Brasil em Olimpíadas

Ela viveu uma infância difícil na comunidade de Brotas, no subúrbio de Salvador. À época, Adriana nem imaginava que o boxe, praticado em cada casa, de cada favela da capital baiana, um dia transformaria a sua vida.

Tanto que, ainda na adolescência, tentou ser jogadora de futebol. Chegou a frequentar as divisões de base do Vitória, acreditando que poderia brilhar como atacante.

Nas vielas de Brotas adorava soltar pipa, brincar com os meninos de bolinha de gude e pelada.

Vez em quando, tinha que resolver as diferenças com os garotos no braço.

Sempre levava vantagem sobre os meninos da comunidade, só era ameaçada quando juntava uns três ou quatro rivais para brigar.

É assim que é a vida da maioria das crianças de baixa renda do nosso país.

Adriana aprendeu a sobreviver no meio de trabalhadores, ladrão, gente do bem, traficante. Conheceu o boxe como uma ferramenta fundamental e salvadora para o futuro e, principalmente, para descarregar toda a ira.

Não demorou muito para ser reconhecida no mundo do esporte como: Adriana “Mão Pesada”. Foi assim que a conhecemos, meses antes da conquista de seu principal resultado nesses 18 anos nos ringues.

O desafio era quebrar um jejum de 44 anos sem uma medalha do boxe em Jogos Olímpicos para o Brasil.

E ela foi além. Conquistou a primeira medalha olímpica do boxe feminino e a centésima brasileira em olimpíadas.

A inédita medalha da “baiana arretada”, em Londres, era tudo o que a boxeadora precisava para acabar com o preconceito e, enfim, comprar a casa dos sonhos. A reportagem do “Histórias do Esporte”, da ESPN Brasil, registrou a luta de uma guerreira antes da conquista da medalha que, definitivamente, a colocaria entre os grandes nomes da história do esporte.

Falou e sofreu retaliação

A medalha veio e, minutos depois da conquista, Adriana colocou para fora todo o sentimento que carregava durante o período seleção brasileira. Desabafou disparando acusações contra o presidente da Confederação de Boxe, Mauro Silva. E, mesmo sabendo que o contragolpe do dirigente viria na sequência, ela falou. Falou tudo aquilo que muitos atletas e técnicos queriam falar, mas nunca tiveram coragem.

O contragolpe veio mais rápido do que a medalhista imaginava. E o preço que ela pagou foi muito caro.

“É óbvio que tive retaliação. Fiquei quase dois anos afastada da seleção, tive todos os cortes de salários e apoio para treinar. Mas o que mais me deixou triste foi ver o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) não fazer nada. Eles não olharam para a minha situação, não moveram uma palha para intervir nesse caso”.

Adriana Araújo está acostumada, desde pequena, a enfrentar o preconceito e as dificuldades no boxe. Disse que não foi apenas o dirigente que sempre desprezou os atletas, técnicos e profissionais da Bahia, celeiro brasileiro dos maiores e mais reconhecidos talentos do boxe nacional.

Até sua mãe, já falecida, e amigos sempre afirmaram que a modalidade não era para gente séria, era esporte de marginais, que o boxe feminino era coisa para mulher lésbica. Nâna, como é conhecida na comunidade de Brotas nunca deu ouvidos à essas conversas, muito menos a prévios julgamentos.

Nossa reportagem enviou uma série de perguntas para a boxeadora. Entre elas, aquela que todos gostariam de saber. A medalha trouxe premiação em dinheiro?

“ Risos... essa pergunta é cômica...risos. Se teve dinheiro dos patrocinadores, do COB ou da Confederação para premiar os medalhistas, esse dinheiro não chegou às minhas mãos. Se teve foi tirado de mim. Aliás, o que eles fizeram foi tirar todos os meus rendimentos e salários que eu tinha como atleta olímpica”.

O papel dos atletas

Passados seis anos do bronze olímpico muita coisa mudou na vida da atleta, hoje, com 36 anos de idade. Saiu do boxe olímpico para tentar uma nova carreira no boxe profissional, onde já disputou duas lutas e está invicta.

Mágoas, Adriana não carrega de ninguém, nem dos atletas que à época não se manifestaram a respeito da punição e das mazelas tão conhecidas no esporte. Nâna é uma atleta diferente, combativa, indignada e jamais alienada.

“O que eu vejo, como atleta, é que muitos deles são acomodados com a situação. Se eles têm privilégios está tudo certo. Ele não tem porque se manifestar. Na minha opinião a metade dos atletas são bunda-moles. Aceitam migalhas e ficam quietinhos. E, não é só no boxe não, em todos os esportes a coisa funciona assim. E vou além, metade do povo brasileiro é bunda mole. O brasileiro é assim. Se tem favorecimento a ele fica calado, se não tem ele grita”.

O sonho da casa própria

Como vimos na reportagem do “Histórias do Esporte”, um dos grandes sonhos de Adriana era mudar de casa. Sair da comunidade de Brotas, onde é respeitada e querida. De qualquer forma, achava que conseguiria comprar a casa fora da favela, onde viu amigos e até um sobrinho serem assassinados por envolvimento com o tráfico.

Um sonho que, segundo Adriana, não está longe de ser realizado. Ela também tem planos de, assim que estiver no novo lar, adotar uma menina. Também planeja montar uma empresa, já que está cursando a faculdade de administração em Salvador.

“ Essa era realmente uma das vontades da minha vida, comprar uma casa do meu gosto. Mas a gente vive no Brasil e só o futebol é visto como esporte, só o futebol tem a visibilidade para o patrocinador apoiar. A gente, do esporte olímpico, que mais traz resultados, só somos vistos e lembrados em ano de Jogos Olímpicos. Eles não querem apostar antes, que é necessário para a gente conquistar medalhas. Essa é a realidade, mesmo para uma atleta como eu que tanto lutou e conquistou pelo Brasil. E o meu sonho de conseguir comprar uma casa fora da comunidade ainda persiste, acredito que estou próxima dessa conquista”.

Adriana sabe que o tempo e a aposentadoria são implacáveis e inevitáveis. Acredita que ainda dá tempo para fazer o pé de meia nos dois, no máximo três próximos anos no boxe profissional.

E ainda brinca, numa suposta projeção de uma Adriana, bem mais madura, daqui 20 anos.

“Como me vejo daqui a 20 anos? Uma coroa muito bonita e gostosa. Assim que eu me vejo”.

Espirituosa e brincalhona, Adriana só perdeu a paciência quando perguntamos quem ela levaria para o ringue, se pudesse dar uma surra.

“ Eu não daria apenas um direto de direita, mas vários diretos, ganchos, cruzados e tudo que fosse possível nesses políticos de Brasília que acabaram com o nosso país. Nocautearia todos esses políticos vagabundos, corruptos que vem destruindo o nosso Brasil e o nosso povo. Se eu pudesse, realmente, eu daria uma surra nesses pilantras”.

Dona de uma força descomunal, Adriana segue lutando. Segue treinando de igual para igual com os atletas do boxe masculino em sua bela Salvador. Continua golpeando o preconceito e implorando respeito.

“O esporte não direciona a opção sexual de ninguém. Sofri e ouvi todo tipo de preconceito. Até dentro da minha casa a minha mãe me falava que boxe era coisa de marginal, bandido e não para mulher. Muita gente falava que eu era lésbica, que iria virar homem, que teria as costas largas. Eu nunca me deixei levar pelo o que as pessoas falavam ou pensavam. Eu sempre quis fazer boxe e consegui vencer não só o preconceito como ganhei respeito nos ringues e fora deles”.

Para quem quiser saber mais sobre a trajetória de vida e no boxe da medalhista olímpica Adriana, ela mesma faz o convite, pois sua grande obra foi escrita.

”A minha história de vida está toda no meu livro “A vida nos meus punhos” lá eu não escondi nada, está toda ali. Veja no livro escrito por Rubens Costa. ”

Não podemos terminar da entrevista com a grande boxeadora sem uma pergunta derradeira, ainda mais em tempos de eleições no Brasil.

Adriana não pensa se candidatar na política, mas se tivesse a chance de concorrer à presidência da confederação, garante que faria tudo diferente.

“Se eu fosse presidente, primeiro jamais usaria do cargo para fazer política. Iria fazer da razão para melhorar o sistema de convocações. Iria dar espaço para os melhores e não por troca de favores. E a pessoa para assumir o cargo de presidente tem que ter caráter, personalidade, tem que ser transparente. E eu me enquadro nisso, por isso que eu fui punida várias vezes, por ser verdadeira, de lutar pela justiça e isso incomoda aqueles que não são verdadeiros.

E, claro, que se estivesse lá, também arrumaria inimigos, pois não aceitaria falcatruas e política no esporte, isso eu não compactuaria”.