8 de julho de 1983. Grêmio e Estudiantes acabavam de se enfrentar pela Libertadores. 3 a 3 no placar. A torcida do time argentino vibrava, ensandecida com o empate buscado na raça e na vontade. Com quatro jogadores a menos, a equipe de La Plata conseguiu o que parecia impossível. Depois de estar perdendo por 3 a 1, fez dois gols no segundo tempo e empatou. A guerra na qual se transformou o jogo começou muito antes do apito inicial e teve requintes de disputa Brasil x Argentina muito maior do que apenas futebol.
Grêmio e América de Cali se enfrentaram no Olímpico, na quarta-feira, dia 6 de julho. Vitória gremista por 2 a 1 e um maior conforto na tabela. Um dia de descanso separava a equipe do jogo contra os argentinos. Uma vitória em solo adversário garantiria a classificação do time gaúcho, mas as dificuldades já eram conhecidas. Catimba, violência e até intimidação dos adversários.
'Sabíamos da Guerra das Malvinas. Ficamos em Buenos Aires, em um hotel mais afastado, no entanto só sentimos o clima no campo, quando chegamos no estádio. Todos gritando e um ambiente hostil', revelou Tarciso, jogador do Grêmio na Libertadores de 1983 e também campeão do Brasileirão de 1981 e do Mundial de 1983, em entrevista à ESPN. 'Nós comentávamos no vestiário, antes de entrar em campo que precisávamos jogar pelo Brasil, não só pelo Grêmio e pelo Rio Grande do Sul. Tínhamos de ser guerreiros', contou o jogador apelidado de Flecha Negra, por conta da velocidade.
O jogo começou com um cartão amarelo. Antes de a bola rolar. Trobbiani, do Estudiantes, já esquentou os ânimos. Na partida, lances dos dois lados. O mesmo Trobbiani foi expulso ao chutar o volante China. No meio da briga, um soco de Ponce rendeu o segundo cartão vermelho ao time argentino. Os lances ocasionaram uma paralisação na partida. Repórteres e a polícia invadiram o campo. A torcida argentina queria fazer o mesmo.
O Grêmio, intimidado, mas com dois a mais em campo, precisava colocar a cabeça no lugar. Depois de seis minutos, o recomeço. No primeiro lance, gol de Gurrieri para os argentinos. Explosão da torcida, catimba e o começo da ‘cera’. A torcida do Estudiantes colocava os assuntos continentais e da política também em campo. Pouco tempo antes do confronto, a notícia que aviões e navios britânicos haviam chegado no Rio Grande do Sul, deixaram o jogo ainda mais quente. A Guerra das Malvinas balançava a geopolítica mundial.
No final do primeiro tempo, o time gaúcho empatou com Osvaldo. O acesso para os vestiários, comum aos dois times, foi presenciado com violência. Caio não conseguiu retornar ao jogo, por conta de uma lesão sofrido no intervalo. Em 17 minutos de segundo tempo, o time gaúcho fez mais dois gols. O resultado propiciou mais duas expulsões: Camino e Tevez.
'Não foi um jogo normal. Foi uma guerra em campo. A gente foi tratado como brasileiros traidores, eles não estavam visando o futebol, tinham somente ódio contra a nossa equipe. Era a Argentina toda contra o Grêmio. Nunca vi nada igual', falou Tarciso.
Mas o que parecia inimaginável aconteceu. Aos 31 minutos, o Estudiantes fez o segundo com Gurrieri. Objetos atirados no campo, bobinas e festa. Todos os argentinos acreditavam no empate e os jogadores encarnaram o espírito. Aos 41, ótima jogada de Sabella e Gurrieri. Chute rasteiro, a bola sobra para Russo, que finaliza para o fundo das redes. O empate. A incredulidade gremista. A felicidade argentina.
'Nosso objetivo era a vitória, mas a partir do momento em que nem a polícia dava a segurança, começa uma preocupação. Antes do gol de empate do Estudiantes, tivemos um gol anulado de forma incorreta. O bandeirinha já estava enfaixado, por conta de ser agredido pela torcida', explicou o jogador, que naquele momento já comemorava o empate, mesmo com a vantagem de atletas em campo.
Na saída do campo, o Grêmio esperou três horas no vestiário. A torcida do Estudiantes não deixava os arredores do estádio. Insultos e gritos ameaçavam os jogadores gremistas. O trajeto do ônibus foi de apedrejamento e o motorista teve o dedo quebrado. Cerca de 400 torcedores ainda aguardavam a delegação gremista. A tranquilidade só veio quando pisaram em solo brasileiro.
'Quando chegamos no Brasil, dissemos o quanto aquilo foi uma batalha. Não foi futebol, foi o jogo mais difícil da minha vida porque não queriam jogar bola. Todos nós tivemos receio de dar um pique, de ir perto da lateral. Fomos heróis, colocamos nossas vidas em jogo', completou Tarciso.
Sem mais jogos por fazer, o Grêmio torcia por um empate entre América de Cali e Estudiantes. O que acabou acontecendo. 0 a 0 na Colômbia e a inédita classificação gremista para a final da Libertadores. A vitória sobre o Peñarol, do Uruguai, por 2 a 1 no Olímpico rendeu o título da competição para o time gaúcho. A Batalha de La Plata fez parte de uma épica campanha.
Em 2018, o Grêmio revive um dos duelos mais icônicos de sua história. Outro momento, 35 anos depois. O jogo que era apenas entre duas equipes fortes de seus países, tornou-se lenda a partir do dia 9 de julho de 1983. Uma daquelas inesquecíveis.
Grêmio e Estudiantes se enfrentam em Quilmes nesta terça-feira, às 21h45 (de Brasília), pela Libertadores.
