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Ex-Palmeiras lembra sufoco no centenário e revela como Kleina foi seu paizão

Em 2014, o Palmeiras vivia um dos momentos mais complicados de sua história recente. Depois de ter subido para a Série A do Campeonato Brasileiro na temporada anterior, a equipe alviverde lutava novamente contra o rebaixamento.

Era ano do centenário do clube, o estádio Allianz Parque estava recém-inaugurado e a cobrança em cima dos atletas era imensa. O volante Renato foi um dos escalados pelo treinador Dorival Júnior com a missão de evitar o desastre.

"Foi o maior sufoco e o momento de mais pressão que já tive da minha vida. Depois disso eu estou preparado para qualquer coisa na carreira. A gente ia jogar contra o Atlético-PR e não poderia perder. Estávamos lutando contra o rebaixamento e tínhamos cinco garotos da base. Passamos por muita cobrança, as coisas não estavam dando certo e fizemos o que podíamos", disse o jogador, ao ESPN.com.br.

"Eu passei a noite toda tentando dormir e não conseguia. Quando finalmente peguei no sono, acordei com meu colchão todo molhado de suor. As pessoas não imaginam como é o lado do ser humano do jogador", recordou.

A preocupação do garoto era tão grande que ele resolveu apelar ao lado místico."Antes de jogo eu e o Victor Luís fizemos uma promessa. Se o Palmeiras não caísse, a gente ia pra casa do mesmo jeito que saímos do gramado. Com uniforme, chuteira e sem tomar banho", contou.

E o começo do jogo foi um pesadelo para os palmeirenses. O Atlético-PR abriu o placar, mas Henrique Ceifador deixou tudo igual. Depois, a equipe alviverde contou com ótimas defesas de Fernado Prass para terminar com o empate.

"Logo que o juiz apitou, eu passei no vestiário e peguei minhas coisas. Não me troquei, parei na zona mista, dei entrevista e fui embora. Daquele jeito mesmo, cheio de grama e chuteira, até com caneleira (risos)".

"Os repórteres ainda brincavam comigo: 'O que aconteceu? O estádio é novo e não tem chuveiro?' Eu dava risada. Todo mundo me zoando. Só fui tirar o uniforme e tomar banho quando estava em casa (risos). Ninguém lá entendeu, daí tive que explicar", recordou.

Com o empate por 1 a 1 com o Atlético-PR e o triunfo do Santos sobre o Vitória, o Palmeiras permaneceu na Série A.

"Quando acabou o jogo e a gente não caiu foi a sensação mais maravilhosa que já tive na minha carreira, de dever cumprido. Nós fizemos de tudo para isso. Tirou aquele peso das costas e foi um lição de vida. Qualquer coisa que eu passar não será igual à essa situação."

Começo complicado

Renato começou em times amadores de Caieiras, na Grande São Paulo, e fez peneiras em clubes como Barueri, Pão de Açúcar, Atibaia e Grêmio, mas não permaneceu em nenhum deles.

"Fiz depois fiz um teste no juvenil do Santo André. Joguei bem mas o treinador não me aprovou. Curiosamente, o Baroninho, técnico do sub-20, me viu treinar e falou para me apresentar diretamente nos juniores" contou.

"Só que o Baroninho saiu do clube e subiram o técnico do sub-17, o mesmo que tinha me dispensado. Esse cara me mandou embora e perdi a Taça São Paulo."

Quando estava quase desistindo do futebol, ele foi para o Matonense, no qual permaneceu por um ano meio.

"Nisso, aconteceu um milagre. O Marcos Assunção [volante do Palmeiras] é também de Caieiras e sempre ajudava me dando chuteiras e muitos conselhos. Ele conseguiu um teste para mim no Palmeiras B. Passei, e recebi o apelido de 'Assunçinha' por causa do Assunção que me levou", contou.

Renato passou a jogar a Série A2 do Paulista e a Copa Paulista, além de disputar partidas pelo Sub-20 do Palmeiras.

"Estava me destacando e surgiu a chance de ir para Portugal. Joguei em 2013 no Moreirense na primeira divisão e fui muito bem", relatou.

Afirmação no Palmeiras

Depois de fazer 28 partidas e marcar um gol pelo Moreirense, Renato voltou ao Palmeiras e foi efetivado à equipe principal, em 2013.

"Eu comecei a treinar e o Gilson Kleina, que era o treinador, me abraçou demais. Eu recebia um salário de base e quando fui para o Moreirense passei a receber um pagamento melhor em euros", relatou.

"Daí, fiz minha mina mãe parar de trabalhar como empregada doméstica e quando voltei ao Palmeiras meu salário voltou a ser o mesmo da base".

Como não tinha carro e nem carteira de motorista, Renato pegava ônibus de sua casa para o CT da Barra Funda.

"Era engraçado que as pessoas do meu bairro achavam que eu estava ganhando muito dinheiro, mas ia de ônibus para os treinos (risos). Passaram quase três meses, estava entrando em desespero porque não conseguia mais dar dinheiro para minha mãe. Ela ia ter que voltar a ser doméstica", recordou.

Quando Gilson Kleina soube das dificuldades que o volante estava passando, ofereceu ajuda imediatamente.

"Ele fez uma coisa por mim que poucos fazem no futebol. Pediu para renovarem meu contrato e me darem um aumento. Ele começou a me levar para os jogos e a falar para os diretores que ia me utilizar. O Kleina e o Assunção são caras fundamentais na minha carreira, sou eternamente grato à eles", admitiu.

A estreia de Renato no Palmeiras foi na vitória por 3 a 0 sobre o Joinville, no Pacaembu, pela Série B de 2013.

"Estávamos ganhando por 1 a 0 quando o Leandro tinha sido expulso e eu estava no banco de reservas. Eu não esperava entrar porque tinham outros à minha frente. Logo no primeiro lance, eu passei a bola para o Valdivia, que fez uma jogada sensacional, e saiu nosso segundo gol. Eu estava muito nervosos, mas daí fiquei mais tranquilo e joguei bem. Corri bastante, marquei e foi uma estreia muito boa", relatou.

O volante ainda atuou em mais uma partida na campanha do título da 2ª Divisão Nacional.

"O título da Série B foi muito bom, mesmo não tendo jogado tanto eu estive presente . Tudo era novo e foi mágico pegar a medalha e o troféu. Eu recebia a premiação dos jogos e foi a vitória daquele treinador que tanto me ajudou. Era um sonho realizado", comemorou.

Saída e recomeço

Em 2014, Renato fez 32 jogos pelo Palmeiras e virou titular absoluto com Dorival Júnior. Com o fim do Nacional houve mudança na comissão técnica - com a chegada do técnico Oswaldo de Oliveira - e o volante perdeu espaço.

"Em 2015, chegou o Alexandre Mattos e contratou vários jogadores de qualidade, que era algo o Palmeiras precisava. Os jogadores da base perderam espaço, algo que é normal no futebol e a gente já esperava por isso", lamentou.

O volante ainda teve uma grave lesão, ao romper os ligamentos do joelho esquerdo, e ficou um longo período fora dos gramados.

"Eu achava que seria meu melhor ano, mas acabei emprestado ao Joinville e me machuquei. Voltei ao Palmeiras e vi que em 2016 seria a mesma coisa. Pedi para ser emprestado para a Ponte Preta e pelo Figueirense, mas ainda não tinha me recuperado totalmente. Não estava me sentindo bem."

No ano seguinte, o jogador treinava de forma separada no time alviverde. "Fiquei meses sem aparecer um clube até que aceitei ir para o Santo André jogar o fim do Paulistão e o Torneio do Interior", contou.

Com o destaque no "Ramalhão", Renato foi contratado pelo Paysandu para jogar a Série B do Brasileiro. Neste ano, ele foi emprestado ao time paraense outra vez.

"Recebi ótimas informações do clube e vim. O clube me tratou bem e gosto muito daqui. Sou muito grato por eles terem aberto as portas para mim. Estão me colocando de novo no cenário do futebol brasileiro".

Vinculado até o fim de 2019 ao Palmeiras, Renato ainda tem vontade de atuar pelo time paulista.

"Eu só tenho que agradecer ao Palmeiras porque me deram todo suporte e me trataram da melhor maneira possível. Se tenho uma casa para morar, um carro para dirigir e uma vida boa foi graça às chances que o clube me deu."

"Foram coisas do futebol, eu tenho desejo de um dia voltar ao Palmeiras, mas se isso não acontecer meu coração estará sempre na torcida pelo clube por tudo que fizeram por mim. O carinho e o respeito serão pelo resto da minha vida", finalizou.