Se os belgas, terceiro colocados da Copa do Mundo podem ser chamados de "ótima geração", os franceses, campeões, podem ser classificados como uma "geração excelente".
Já contando a decisão vencida neste domingo, contra a Croácia, em Moscou, nenhuma seleção chegou a tantas finais nos últimos 20 anos como a França.
Desde a Copa do Mundo conquistada em 1998, sobre o Brasil, foram sete decisões: três Mundiais, duas Euros, duas Copas das Confederações. Dessas, ganhou cinco: a Copa de 2018, a Copa em casa, a Euro de 2000, e as Copas das Confederações de 2001 e 2003.
Mas engana-se quem pensa que tais números são frutos de um trabalho contínuo desde a conquista de 98. O título de 2018, na Rússia, começou em 2010, na África do Sul, com uma crise que levou a uma greve de jogadores em plena Copa, seguida de uma ruptura radical.
No domingo, 20 de junho de 2010, na cidade de Knysna, os jogadores franceses se recusaram a treinar após o corte de Nicolas Anelka. No intervalo da derrota para o México, Anelka xingara o técnico Raymond Domenech. E, como se recusou a pedir desculpas, foi mandado embora para casa dias depois - e dias antes dos seus colegas que, eliminados na primeira fase, logo também rumaram para o aeroporto Charles de Gaulle, em Paris.
Nesse dia, a França decidiu que era hora de começar um trabalho de renovação. E para isso, colocou o foco na suas seleções de base.
Pavard, Dembélé, Mbappé, Griezmann e Umtiti não são o que são por acidente ou ajuda do acaso. A França é a segunda seleção mais jovem do torneio (25,4 anos), empatada com a quarta colocada Inglaterra, porque trabalhou para isso.
Apenas a título de comparação, a seleção argentina que fracassou na Rússia tinha 28,7 anos de média de idade (4ª mais velha da Copa) - o Brasil, com 28, não foi muito mais jovem.
Tão importantes quanto as finais adultas atingidas pela França são as finais das seleções de base. De 2010 para cá, ganhou o Mundial Sub-19 de 2010, o Sub-20 de 2013 e os Sub-17 e sub-21 de 2015. E, entre os nomes dos campeões, estão muitos dos que constaram da lista de convocados do técnico Didier Deschamps para o Mundial da Rússia.
ACADEMIAS PERMANENTES
Na França, assim como no Brasil, é comum que os clubes profissionais mantenham categorias de base. Mas, diferentemente do que vemos aqui, a Federação Francesa também tem centros espalhados pelo país, com garotos que residem permanentemente para serem treinados e literalmente formados.
A partir de 2010, as academias tiveram de mudar. A primeira providência foi reduzir em 90% o número de garotos que ficavam nesses centros - inclusive o lendário Clairefontaine, que formara jogadores como Henry e Trezeguet no passado.
A ideia era produzir um número menor de jogadores, mas controlar melhor alguns aspectos. Com menos jovens, os investimentos per capita poderiam ser maiores - bem como as instalações poderiam ser mais luxuosas. Todos os centros foram reformados e equipados com os equipamentos mais modernos.
Em seguida, elevou-se a idade. Os jogadores não entram nos centros de formação da Federação Francesa antes dos 16 anos, como era normal antes. A Federação passou a entender que manter os jovens atletas por mais tempo nos clubes fazia com que eles criassem um senso de conjunto melhor.
Outra providência foi dar mais foco ao comportamento dos jogadores - e atuar sobre prováveis questões de indisciplina - bem no começo da formação. Identificar problemas logo cedo evita que se invista em um jogador problemático por anos para nada. Ou permite que se comece a corrigi-los já no início da trajetória.
A educação também passou a ser mais importante. Dar atenção à formação da personalidade dos jogadores como cidadãos, e não só como jogadores de futebol. Para que não haja "primas donas", jogadores muito "estrelas" ou individualistas demais, preocupados mais consigo mesmos e seus cortes de cabelo do que com o coletivo.
O resultado veio rápido. A baixa média de idade do atual grupo francês é indicativo de que os azuis têm material humano também para o próximo Mundial. Quatro anos mais velha e já com no mínimo, um vice-campeonato na bagagem, a França chegará ao Catar, em 2022, com todas as qualidades do time atual, além de uma rodagem muito maior.
Ao que parece, o caminho francês está certo. Como dizia o outro, às vezes, "é preciso mudar ou mudar de vez."
