França na Copa do Mundo: Como Mbappé faz zona barra pesada e pobre de Paris entrar no mapa

Principal destaque da França na Copa do Mundo 2018, o atacante Kylian Mbappé, que nesta sexta-feira encara o Uruguai, às 11h (de Brasília), em Níjni Novgorod, pelas quartas de final, é mais um “produto” da maior “fábrica de craques” do futebol francês: a periferia de Paris.

Foi nos arredores da capital francesa, em pequenos municípios periféricos onde a vida é dura, que foram forjados alguns dos maiores destaques dos Bleus, como o meia Paul Pogba e os volantes Blaise Matuidi e N’Golo Kanté, simplesmente os pilares do meio-campo da equipe.

Mbappé, por sua vez, é a última descoberta da máquina de produzir craques que são os Banlieues, como são chamadas as cidades e vilas da periferia de Paris.

O garoto, nascido em 1998 de uma família imigrante formada por pai camaronês e mãe argelina, é o típico “produto de exportação” de Bondy.

Foi nesse vilarejo de 52 mil habitantes, a 12 km do centro da “Cidade Luz”, que Kylian de seus primeiros tapas na bola. O responsável por descobri-lo foi o AS Bondy, atualmente uma das canteras mais ativas da França – de lá também saiu o lateral direito Sebastian Corchia, atualmente no Sevilla.

Nos Banlieues, o futebol é a maneira de escapar do subemprego e do crime.

“Na periferia, há menos de tudo: menos oportunidades, menos policiais, menos professores, menos juízes, menos médicos...”, definiu um artigo do jornal Le Monde sobre a vida nos arredores de Paris.

Lá é onde a grande maioria da população é formada por imigrantes de países africanos que foram colonizados pela França (além de seus descendentes), e muitas vezes largados à própria sorte.

Convivem diariamente com dificuldades de transporte, de arrumar emprego, de preconceito pela religião islâmica.

Nos subúrbios de Paris, também se encontram as maiores taxas de pobreza e criminalidade da França – com exceção dos territórios ultramarinos na América do Sul, Caribe e África.

Mas se o mundo se esqueceu de Bondy, Mbappé colocou o lugar “no mapa”.

Antes da Copa do Mundo, ele fez um acordo com a FFF (Federação Francesa de Futebol) para que parte das premiações que forem pagas a ele durante a competição sejam repassadas a instituições de caridade da França e também ONGs de Bondy, principalmente as que cuidam de crianças carentes.

O fato despertou o interesse da mídia internacional, que enviou centenas de câmeras e jornalistas para acompanharem os jogos da seleção francesa na sede do AS Bondy.

As imagens de centenas de crianças indo à loucura com os lances de Mbappé, o “filho pródigo” da cidade, no Mundial da Rússia, emocionaram o planeta – e também chamaram a questão para uma das grandes questões da França contemporânea, que é a integração dos moradores do subúrbio à sociedade francesa.

Algum tempo antes do Mundial, porém, o astro do Paris Saint-Germain já havia levado alegria aos habitantes de sua cidade. Ele convidou 25 crianças em idade escolar para acompanhar um treino da seleção francesa, fazendo a alegria da criançada, que tirou fotos com os atletas e viveu um dia de sonho.

O camisa 10 também inaugurou uma quadra no bairro em que cresceu, inclusive aparecendo para disputar uma “pelada” com alguns craques do futebol de rua local.

Com apenas 19 anos, Mbappé impressiona o mundo com seu futebol, seu coração de ouro e sua cabeça centrada. Não à toa, foi incansavelmente elogiado pelo técnico Didier Deschamps em sua coletiva desta quinta-feira, antes da partida contra o Uruguai pelas quartas da Copa.

“O que ele fez na última partida contra a Argentina o colocou ainda mais alto na lista dos maiores atacantes do mundo. E tudo o que ele já havia feito antes já havia sido fantástico. O menino tem apenas 19 anos. Pode seguir crescendo e aprendendo muito ainda. Para seguir progredindo, tem que saber absorver tudo isso”, discursou Deschamps, que vem sendo um mentor para o jovem atleta.

“Quando as coisas vão mal, você deve trabalhar mais, colocar a cabeça no lugar. E quando as coisas vão bem, tem que evitar o relaxamento ou o pensamento de que não é necessário se concentrar ou se aplicar mais. Mas Kylian é um garoto muito inteligente, sabe escutar os outros e sabe bem tudo isso”, acrescentou.

“Em termos de clube, ele também mudou de ‘galáxia’ quando foi do Monaco para o PSG, no qual as exigências são maiores. Ele vem fazendo tudo muito bem, mas sabe que ainda está no início e está aprendendo. Como todos os jogadores, independentemente do talento que têm, sempre há algo mais para aprender. E ele é muito consciente quanto a isso”, complementou.

A cada gol que faz, Mbappé sabe que coloca Bondy cada vez mais em evidência. E com o Banlieu ganhando os olhos do mundo, aumentam as chances de que a França olhe com carinho para a periferia.

“É verdade que muitas vezes os jovens têm um pouco de dificuldade para entender que têm que seguir trabalhando duro, mas ele é consciente de que precisa continuar como está fazendo”, disse Deschamps.

Não podia ser mais verdeiro.

Afinal, Kylian Mbappé, filho de imigrantes, nascido na zona mais pobre de Paris, venceu na vida graças à bola. E ele sabe que, a muitos quilômetros da Rússia, há centenas de milhares de crianças mirando seu exemplo.

No fim das contas, salvar sua cidade natal pode ser sua maior vitória nesta Copa.