Dispensado pelo Manchester City, Kasper Schmeichel deixou de ser 'filhinho de papai' para ser o goleiro sensação da Copa

A Dinamarca pode ter sido eliminada da Copa do Mundo, mas Kasper Schmeichel saiu em evidência após ter defendido três pênaltis contra a Croácia nas oitavas de final da competição. O goleiro, filho de Peter Schmeichel, um dos maiores da posição em toda a história, fez ótimas atuações e deve ser disputado na janela de transferências.

O dinamarquês tem seu nome especulado em alguns dos maiores clubes europeus, como Chelsea e Roma e, a cada dia, se desvencilha da imagem de ser apenas filho de um grande goleiro para escrever sua própria história.

"Não fico chateado com as comparações, mas a verdade é que espero bem mais de vocês. Tenho ciência que isso faz parte da minha vida", afirmou Kasper durante uma entrevista durante a Copa, admitindo estar cansado na insistência dos jornalistas em atrelar sua imagem à de seu pai.

Talvez a única vez que o goleiro de 31 anos tenha realmente utilizado toda a influência de seu pai, tenha sido no início de sua carreira, já que ingressou nas categorias de base do Manchester City em 2002, ano em que Peter defendeu a equipe, depois de fazer história no gol do maior rival, o United.

Porém, Kasper só se tornou profissional em 2005, dois anos após a aposentadoria de seu pai. No total, o goleiro ficou quatro anos na equipe azul, mas pouco teve chances, somando apenas 10 jogos.

Nessa época, atuou ao lado do atacante Jô, que defendeu o City em 2008 e guarda boas recordações do companheiro. "Ele era bem novo na época, mas sempre foi muito dedicado, treinava muito", revelou, mostrando todo o profissionalismo de Schmeichel.

"Ele tem um temperamento parecido com o do pai. Personalidade forte, sempre falando. Nos treinos a gente brincava bastante. Quando trabalhávamos finalização, ele ficava bravo quando tomava gol", disse, explicando o bom relacionamento entre eles por causa do idioma.

"Ele falava um pouco de português. O pai dele jogou alguns anos em Portugal e ele aprendeu bastante. Dava para conversar", citando o período entre 1999 e 2001, em que Peter atuou no Sporting.

"Toda vez que eu chegava no clube ele me dava bom dia em português (risos). Não falava good morning. Ele morou alguns anos em Portugal e tinha sotaque carregado, sabia falar algumas palavras", confirmou Glauber Berti, zagueiro com passagens pelo Palmeiras e que atuou no City entre 2008 e 2009.

"O Kasper era o terceiro goleiro, mas treinava como ninguém. Era o último a sair do treinos sempre. Era excepcional, além de maluco, no bom sentido (risos). Ele era muito corajoso e arrojado, nunca vi um cara assim. Trombava com todo mundo. O treino parecia um jogo para ele. Saía no pé dos atacantes sem medo, arrebentava. Totalmente profissional e com personalidade muito forte. Não gosta de nada errado. Ficava doido se o pessoal não corresse nos treinos, xingava todo mundo. Sendo terceiro goleiro, tinha personalidade de cobrar qualquer um", explicou o ex-companheiro, confirmando o espírito vencedor do arqueiro.

Se Kasper já era pouco aproveitado no City, sendo emprestado para clubes de menor expressão, sua situação ficou ainda pior quando o clube passou a receber investimentos milionários. Joe Hart era o titular absoluto e o experiente Shay Given também atuava em alguns jogos e o dinamarquês era praticamente descartável.

E foi exatamente o que aconteceu em 2009. Quando seu contrato chegou ao fim, ele foi dispensado do City. Para conseguir oportunidades, foi para as divisões menores da Inglaterra. Após passagens por Notts County e Leeds United, chegou ao Leicester.

Depois de dois anos na segunda divisão, a equipe conseguiu o acesso em 2014. A primeira temporada na elite foi sofrível, com o time escapando do rebaixamento nas últimas rodadas.

No ano seguinte, porém, foi um verdadeiro sonho. Kasper e seus companheiros, como Vardy, Mahrez e Kanté, levaram o modesto e até então desconhecido Leicester ao título da Premier League, superando os grandes e milionários clubes ingleses, como por exemplo o próprio City, que dispensou Schmeichel.

O fato foi mais do que suficiente para o goleiro se tornar ídolo e praticamente imortalizado na equipe, que defende até hoje e por quem já atuou em quase 300 partidas.

HERÓI TAMBÉM NA SELEÇÃO

Na seleção dinamarquesa, sua história começou em 2011. Para a Eurocopa de 2012, foi convocado para ser o terceiro goleiro. Conforme os anos foram passando e os outros atletas da posição foram ficando mais velhos, Schmeichel foi ganhando espaço e hoje em dia é titular absoluto.

Na Copa do Mundo, com a atuação contra a Croácia, apesar da derrota, entrou para a história de seu país. Isso porque a última vez que a equipe esteve em uma disputa por pênaltis em uma grande competição foi na Eurocopa de 1992. Na semifinal, contra a Holanda, seu pai, Peter Schmeichel, defendeu a cobrança de Marco Van Basten e garantiu sua seleção na decisão.

Para comemorar o feito do filho, Peter foi às redes sociais para comentar a grandiosidade do feito alcançado por eles. "Estou sem palavras. Não posso estar mais orgulhoso do meu país, do meu filho, dos seus companheiros de equipe, de todo o staff e do nosso fantástico treinador Age Hareide. Quando as lágrimas secarem, vamos perceber o que fizemos".

Seus ex-companheiros também exaltaram a atuação de Kasper, mas nenhum deles se surpreendeu. "Ele é muito rápido e tem uma explosão fora de série, quando o atacante saía cara a cara com ele era difícil fazer um gol ou ser driblado. Essa explosão deu para ver nos pênaltis que pegou na Copa", disse Gláuber.