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Marrocos tem só 6 que nasceram no país e é o 'caos' na comunicação

Depois de 20 anos, o Marrocos volta a disputar uma Copa do Mundo nesta sexta-feira, quando enfrenta o Irã pelo grupo B da competição, em São Petersburgo. Para voltar ao alto nível, porém, a seleção precisou ser praticamente toda ‘importada’.

O número é impressionante: só 6 dos 23 jogadores convocados nasceram em solo marroquino. Os 17 outros se espalham por França (8), Holanda (5), Espanha (2), Bélgica (1) e até Canadá (1), quase que do outro lado do mundo. Para completar, o técnico também é estrangeiro, o francês Hervé Renard.

E essa mistura toda acaba causando um verdadeiro caos na comunicação interna. Hervé Renard tem um padrão e sempre faz suas preleções em duas línguas diferentes: inglês e francês. Só que nenhuma delas é a língua oficial do Marrocos, que fala árabe.

Assim, o treinador ainda precisa da ajuda de um tradutor para conseguir se comunicar com todos. E esse trabalho é feito por Mustapha Hadji, um dos principais jogadores da seleção marroquina na Copa de 1998 e que agora serve como assistente na equipe.

“Algumas vezes você percebe que um jogador na sua frente não entendeu nada do que você disse. Eu chamo o assistente e digo: ‘Por favor, fale com ele porque estou vendo na cara dele que ele não entendeu nada’”, conta Renard.

A construção do time, na verdade, começou em 2014 e não foi nada fácil. A Federação Marroquina decidiu seguir o exemplo da Argélia, que conseguiu ir até as oitavas de final da Copa do Mundo no Brasil – e quase bateu a Alemanha - com vários estrangeiros na equipe. Assim, iniciou-se uma campanha de convencimento de jogadores com ascendência marroquina a defender o país.

O Marrocos é um país com vários migrantes espalhados pelo mundo. Os motivos são vários, começando ainda na colonização francesa e envolvendo a mão de obra barata para trabalhos mais pesados em países como a Espanha.

E o trabalho de convencimento para que os jogadores optassem pelo Marrocos quase sempre envolveu um apelo emocional das famílias. “É inacreditável ver seu filho jogando, depois de tanto tempo vendo a seleção apenas pela TV”, disse o pai de Mimoun Mahi, nascido na Holanda, quando o filho marcou seu primeiro gol pelo Marrocos.

“A família de empurra a jogar pelo Marrocos”, disse o holandês Ruud Gullit quando tentava, em vão, convencer Sofyan Amrabat a defender a Holanda.

Mas também há outras coisas em jogo, claro. Em matéria do New York Times, o professor holandês Maurice Crul ainda cita o fato de os estrangeiros serem discriminados em seus países de nascimento. “É um grande problema que essa geração se sinta excluída desde os primeiros anos de suas vidas”, diz.

Há ainda o lado profissional: por qual seleção cada jogador terá mais chance de ser convocado? Por qual ele terá mais chances de se destacar? Por qual ele terá mais chances de jogar uma Copa do Mundo?

Toda essa mistura chegou até a causar um medo de que a união de jogadores tão diferentes não daria certo. Ao mesmo New York Times, Hervé Renard chegou a admitir que algumas pessoas próximas dele o aconselharam a não aceitar a oferta para ser o treinador do Marrocos.

“Eles me diziam para ter cuidado porque o jogador que nasceu na Holanda poderia não se dar bem com quem nasceu na França”, admite. “Mas eu não vi isso. Nós construímos um time, nós vamos jogar futebol”, completa.

O Marrocos está no grupo B da Copa do Mundo ao lado também de Espanha e Portugal, além do Irã, o adversário da estreia.

Estrangeiros em outras seleções

Ter jogadores que nasceram fora do país, claro, não é uma exclusividade marroquina. Na verdade, nada menos que 22 dos 32 países classificados à Copa contam com ao menos um ‘estrangeiro’.

As também africanas Tunísia e Senegal aparecem em segundo na lista de naturalizados, com 9 cada. Quase todos eles, porém, nasceram em um só país: a França.

Mas mesmo seleções europeias como Suíça (8) e Portugal (7) também contam com muitos naturalizados.

O Brasil é uma das 10 seleções sem nenhum jogador nascido fora do país. As outras são Arábia Saudita, Peru, Alemanha, México, Suécia, Coréia do Sul, Bélgica, Panamá e Colômbia.

Brasileiros espalhados pelo mundo

Se a seleção brasileira não tem estrangeiros, os brasileiros são estrangeiros em outras seleções. São cinco na Copa: Mário Fernandes (Rússia), Pepe (Portugal), Thiago Cionek (Polônia), Diego Costa e Rodrigo (Espanha).