O Corinthians deixou de repassar R$ 25,47 milhões em rendas ao Arena Fundo de Investimento Imobiliário, responsável por receber o dinheiro de bilheteria do clube para pagar pela construção do estádio. Ao final de 2016, essa dívida era de R$ 6,4 milhões, diferença de R$ 19 milhões, em crescimento de quase 300%.
Os números detalhados estão no demonstrativo financeiro do fundo, entregue à CVM (Comissão de Valores Mobilários), entidade que regulamenta e fiscaliza o mercado de valores no Brasil. O Corinthians, porém, contesta esse montante e busca um acordo para que o repasse seja feito.
Foi a primeira vez que o “Arena FII” detalhou o valor exato a receber referente às rendas de jogos. Em demonstrações anteriores, o fundo, administrado pela “BRL Trust Distribuidores de Tìtulos e Valores”, lançava o número apenas como “contas a receber”, sem especificar as origens.
Ao final de 2017, mas também no informe mensal de março de 2018, o último apresentado, o fundo indica ter R$ 36,5 milhões a receber. Desse total, segundo o balanço, R$ 25,4 milhões são de rendas de bilheteria; R$ 10,2 milhões por vendas de CIDs; e R$ 790 mil por locação e vendas de camarotes.
Os valores que deveriam ser repassados pelo Corinthians com as partidas no estádio são os únicos que apresentaram variação de 2016 para 2017. Foi o crescimento de R$ 19 milhões na dívida alvinegra que fez o total que o fundo tem a receber saltar de R$ 17,4 milhões para R$ 36,5 milhões.
Já nas receitas, o “Arena FII” informa ter recebido R$ 56,6 milhões em rendas, já deduzidos os custos – foram R$ 47,8 milhões em 2016. Já referente aos Certificados Incentivo ao Desenvolvimento, o fundo levantou no mercado o valor de R$ 9,36 milhões no ano – R$ 9,7 mi no exercício anterior.
Segundo Emerson Piovesan, diretor financeiro do Corinthians no último ano, na gestão de Roberto de Andrade, o dinheiro que o fundo tem a receber foi destinado a pagamentos de despesas também da Arena e não entraram nos cofres do clube.
“A diferença é um problema de forma contábil. O que ocorre: a Arena tem uma série de despesas que devem ser pagas, despesas altas, como segurança, limpeza, manutenção... Isso tem datas de vencimento. O que o clube fez e deve continuar fazendo é: sempre que tínhamos vencimento de despesas, honrávamos. Ao invés de repassar para o fundo, a gente honrava”, disse.
Por contrato, o dinheiro que o Corinthians arrecada com seus jogos vai diretamente para o fundo para o pagamento da construção do estádio. Contudo, há percentuais previstos que podem ser destinados a despesas, só que eles foram reduzidos desde o último ano. É na diferença do que excedeu essas cláusulas que está a diferença entre o time e o “Arena FII”.
O fundo, inclusive, chegou a informar, em informe mensal de fevereiro, R$ 52,48 milhões a receber, sem detalhar, porém, a origem desses créditos. Em março, a quantia foi reduzida para R$ 36,44 milhões, bem próximo ao registrado no balanço e também do que o Corinthians entende dever.
O clube ainda não divulgou seu demonstrativo financeiro de 2017. A tendência, porém, é que a dívida com o fundo entre no passivo. O Corinthians crê ser possível quitar o valor apenas com rendas do estádio, mas, se não for possível, o dinheiro terá que sair dos cofres alvinegros.
“Foi usado para a Arena, não para o clube. Em nenhum momento se pegou para o clube. Isso que leva a essa diferença, é aspecto contábil”, ressaltou Piovezan.
Procurado, o Corinthians disse que não se pronunciaria sobre o balanço de outra empresa, no caso o “Arena Fundo” – que tem como cotistas a BRL, a Odebrecht e o próprio clube.
Sede da abertura da Copa do Mundo de 2014, a Arena Corinthians tinha custo estimado, no início das obras, em 2011, de R$ 820 milhões. Depois, porém, o valor disparou. Segundo Andrés Sanchez, atual presidente do clube, a dívida alvinegra com o estádio está atualmente em R$ 1,2 bilhão.
