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Mohamed Salah, o craque do Liverpool que virou o Rei do Egito

Dizem que Salah é tão leve com a bola nos pés que, se jogasse nas areias do Egito, suas pisadas sequer deixariam rastros em meio ao deserto africano.

Tal metáfora pode ser fiel no momento de descrever a elegância e a precisão do camisa 10 da seleção em campo, mas suas marcas são nada sutis e imperceptíveis ao observar o impacto que tem causado na Premier League, no Egito, no Oriente Médio. No mundo do futebol.

A chegada de Salah gerou expectativa, mas também muita dúvida de sua capacidade em uma liga como a inglesa. Apesar de vir de boas temporadas no futebol italiano, ele havia tido uma experiência não tão boa pelo Chelsea: foram 19 partidas com apenas dois gols pela equipe londrina.

Assista ao vídeo na íntegra no WatchESPN

Mesmo com uma passagem nada marcante na Premier League, o Liverpool resolveu apostar no potencial que o egípcio demonstrou na Fiorentina e, principalmente, na Roma, para pagar 42 milhões de euros (R$ 177 milhões na cotação atual).

Se Salah chamou atenção pela alta quantia investida em sua contratação, rapidamente o foco se virou para o que ele passou a demonstrar dentro de campo. Em novembro de 2017, foi eleito o melhor jogador do mês da Premier League, sendo o primeiro egípcio a obter o prêmio. Repetiria o feito em fevereiro de 2018.

Os números são impressionantes: 43 jogos, 38 gols e média de 0,88 gols/jogo. Nas principais ligas europeias, nenhum outro jogador balançou mais as redes do que ele com 29 gols, empatado simplesmente com Lionel Messi. Assim, tornou-se forte candidato a derrubar a hegemonia de Harry Kane como artilheiro do Inglês. Atualmente, o jogador dos Reds soma cinco bolas nas redes de vantagem na disputa.

Um auge inimaginável para muitos que não o viram vingar no Chelsea. Um auge inimaginável para um garoto que levava quatro horas e meia para ir e mais quatro horas e meia para voltar do seu vilarejo até o Cairo, somente para dar sequência ao seu sonho de um dia ser atleta profissional em um esporte que mobiliza - e muito – o seu país natal.

O futebol, por sinal, faz parte da vida dos egípcios e se mistura com outros temas, como a política. Em 2012, a fusão de ambos dentro de um estádio resultou em uma das maiores tragédias no cenário doméstico. Em 1º de fevereiro, 79 pessoas morreram e mais de 500 ficaram feridas no confronto entre torcedores do Al-Masry e Al-Ahly no estádio de Port Said. Tudo isso ocorreu em meio à Primavera Árabe e um turbilhão no cenário político-social do país (veja mais abaixo).

O episódio causou comoção nacional e resultou em medidas drásticas por parte do governo, que paralisou o campeonato nacional por dois anos. O futebol do Egito parou, o de Salah, não.

Sem poder atuar em seu próprio país, a seleção sub-23 teve de viajar para seguir jogando. E foi em uma dessas partidas que 'descobriram' Mohamed Salah.

Os egípcios foram até a Suíça encarar o Basel para um amistoso de preparação em meio à temporada. No banco durante a primeira etapa, o atleta de até então 19 anos entrou nos 45 minutos finais - que foram mais do que suficientes para encantar os suíços.

Salah marcou dois gols e, após o término do duelo, foi convidado a permanecer no clube para testes. Uma semana depois já tinha assinado contrato em definitivo. Era o início do crescimento meteórico do atacante, que em menos de dois anos já estaria no Chelsea. Depois veio o brilho na Fiorentina e Roma, antes de viver o auge em Liverpool.

Mas nem mesmo a enorme distância de seu país, assim como da realidade que vivia, Salah deixou de se fazer presente e ser participativo com o que acontecia. O patamar alcançado pelo seu proeminente talento fez a autoestima, o orgulho e, sobretudo, a esperança brotarem nos rostos dos egípcios.

Salah investiu na construção de uma escola no vilarejo onde nasceu, além de ajudar financeiramente com despesas hospitalares do local. Também tem uma instituição de caridade em seu nome, distribuindo roupas e alimentos à população mais carente.

Sua ação mais recente foi impactante a nível nacional: ele doou mais de £200 mil (R$ 968 mil) para suprir a necessidade de dinheiro corrente no país.

Mais do que financeiramente, o atleta, hoje com 25 anos, mudou a cabeça de muitas pessoas. E não há qualquer exagero nesta frase, ao levar em conta, por exemplo, que ele participou de uma campanha do governo egípcio contra as drogas. Apenas endossando a mensagem transmitida, o astro fez com que aumentasse o número de ligações em 400%.

Salah não é apenas um craque, mas sim o herói nacional do Egito. A ponto de ser o segundo com mais intenções de votos para a presidência do país, mesmo sem ter se candidato às eleições ocorridas no fim de março.

Mas isso não significa que o jogador perdeu o foco em sua profissão. Muito pelo contrário, os motivos de esperança também vêm dos gramados.

Prova disso são a artilharia na eliminatória africana com cinco gols e o protagonismo no Liverpool, que o torna forte candidato ao prêmio de melhor jogador da Premier League, assim como um nome possível entre os finalistas da Bola de Ouro. E para consagrar de vez, vieram os gols contra o Congo na vitória por 2 a 1 – o último deles aos 50 minutos do segundo tempo, no jogo que definiu a volta do Egito à Copa do Mundo após 28 anos.

As marcas impressionantes dentro de campo o colocam como ídolo. Mas tal denominação é muito superficial para alguém com uma representatividade tão grande também fora das quatro linhas.

Mohamed Salah é o ‘Rei do Egito’.

O que foi a Primavera Árabe?

Em 25 de janeiro de 2011, os egípcios, influenciados pela queda do presidente da Tunísia, Zine El-Abidine Ben Ali, fizeram grandes manifestações populares para tirar do poder Hosni Mubarak, que estava na mesma posição havia 30 anos. Insatisfeita com a situação econômica, a população clamava por democracia e foi às ruas.

A Primavera Árabe, como ficou conhecida, resultou em uma mobilização em diferentes países do Oriente Médio e norte da África, tendo iniciado na Tunísia. A revolução no Egito começou em 25 de janeiro de 2011 e teve a queda de Mubarak em 11 de fevereiro do mesmo ano.

O Conselho Supremo das Forças Armadas administrou o país até que Mohamed Morsi virasse o primeiro presidente eleito do Egito, em junho de 2012, superando Ahmed Shafiq, ex-premiê de Mubarak. Ele, porém, sofreria um golpe militar em 2013 – Morsi ainda seria condenado à pena de morte em 2015 sob a acusação de participação em fuga em massa da prisão em 2011. Em 2016, a pena foi revogada.

A queda seria anunciada pelo então chefe do exército do Egito, general Abdel Fatah al-Sisi, que, aliás, seria eleito presidente em 2014 e reeleito em 2018, com 96,91% e 97,08% dos votos válidos, respectivamente. Candidatos da oposição “desistiram de concorrer sob circunstâncias obscuras”, como apontou a rede DW.

"Os observadores independentes coincidem em descrever o regime liderado pelo marechal Abdel Fattah al Sisi como sendo ainda mais brutal e autoritário que o de Mubarak. Não por acaso, calcula-se que nos últimos quatro anos até 60.000 pessoas foram presas por razões políticas ou por fazer uso de suas liberdades individuais, e a tortura é moeda corrente nos calabouços", apontou o jornal El País em matéria em seu site publicada em 17 de dezembro de 2017.