Han Kwang-song, o promissor atacante norte-coreano de 19 anos do Cagliari que já foi sondado por Juventus, Liverpool e Tottenham na última janela europeia, pode ter sua carreira comprometida por motivos bem maiores que o futebol. Fã de Ronaldo Fenômeno, o jovem é o primeiro atleta do país asiático a marcar em uma partida do Campeonato Italiano e pivô de uma tempestade política sem precedentes.
Han faz parte de um ambicioso projeto futebolístico da Coreia do Norte. E levanta suspeitas se o contrato com o time italiano viola as sanções internacionais impostas ao país. No fim de 2014, segundo reportagem do New York Times, Han e outros 15 atletas norte-coreanos ingressaram na academia italiana de futebol I.S.M. por intermédio dos senadores Antonio Razzi, Matteo Salvini e do diretor da academia Alessandro Dominici. Naquele ano, os Italianos, juntos de uma comitiva de empresários e alguns olheiros, realizaram uma visita diplomática à Coreia do Norte em busca de acordos comerciais.
Razzi visitou o país 10 vezes e é conhecido na Itália por possuir um posicionamento pró-Coreia do Norte, inclusive declarando que considera o Imperador Kim Jong-un um político moderado. Após a viagem, em entrevista ao Corriere della Sera, Salvini, perguntado sobre as polêmicas declarações de Razzi afirmou: “Pessoa borbulhante, cheio de iniciativa. Na Coreia é uma autoridade”.
Hoje, a I.S.M. tem um contrato exclusivo com a Federação Coreana de Futebol para treinar seus atletas e envia uma vez por ano olheiros a Pyongyang para selecionar talentos. Inicialmente a Federação Norte Coreana de Futebol mantinha um acordo com a Fundação Marcet, outra academia para jovens talentos em Barcelona. A relação se desfez pouco depois de um ano.
Choe Song-hyok, outro atleta norte-coreano cria da I.S.M., foi vítima de um inquérito formal por parte dos deputados italianos Michele Nicoletti e Lia Quartapelle, após firmar seu primeiro contrato profissional aos 18 anos com a Fiorentina, em 2016, Os parlamentares requisitaram que o governo italiano investigasse se os direitos humanos do atleta eram respeitados e se algum valor era repassado para a Coreia do Norte através do contrato de Cho, o que infringiria as sanções internacionais
Segundo relatório de 2014 do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, a Coreia do Norte tem o histórico de vigiar e controlar cidadãos residentes fora do país e a política de que parte de seus salários deve ser revertida ao regime.
O governo italiano apurou que o salário de Cho era depositado em uma conta em seu nome, mas, mesmo assim, a Viola decidiu por encerrar o contrato com o atleta, que se juntou ao Perugia e hoje está emprestado ao Olbia, time da terceira divisão italiana. Seguido ao último teste nuclear realizado em novembro de 2017 pela Coreia do Norte, o conselho de segurança da ONU aprovou novas sanções para desacelerar o programa balístico de Kim Jong-un. Dentre elas, uma resolução impõe que todos os trabalhadores norte-coreanos residentes fora do país retornem à sua terra natal dentro do prazo de 24 meses.
No início da temporada 2017-18, Han foi emprestado pelo Cagliari também ao Perugia, e foi lá que suas atuações começaram a chamar atenção - a academia de Futebol I.S.M. foi fundada por ex-técnicos das categorias de base do time da segunda divisão. Em sua segunda partida anotou um hat-trick, terminando o primeiro semestre com 7 gols e três assistências durante seu empréstimo.
Em setembro daquele ano, Han participou do programa esportivo Sky Série B. Perguntado sobre o que os coreanos pensavam dele em seu país natal, o atleta ficou sem jeito e se desculpou, alegando que não podia falar a respeito.
Duas semanas depois, Han estava escalado para participar ao lado do presidente do Perugia, Massimiliano Santopadre, no programa La Domenica Sportiva, mas não apareceu. Posteriormente, o presidente declarou que a situação com o governo norte-coreano havia se tornado mais rígida e que os atletas daquele país estavam proibidos de aparecer na televisão, sob o risco de serem deportados.
Em resposta ao New York Times, Alessandro Passetti, Diretor Geral do Cagliari se recusou a divulgar informações a respeito do contrato de Han, mas comentou sobre a situação: “Ele é um garoto muito bom e leva uma vida similar à de todos os outros atletas que estão entrando no mundo profissional do esporte, com amigos no campo e perfis nas redes sociais. Nacionalidade nunca foi um critério que determina a contratação ou não de um jogador”.
Han foi avaliado pelo Cagliari em €20 milhões e renovou seu contrato até junho de 2023. Resta saber se seu futuro no futebol tem horizontes ou se está comprometido.
A ACADEMIA COREANA
A Coreia do Norte trata o futebol como um projeto estratégico e investe para desenvolver o esporte no país. Em 2013, Kim Jong-un inaugurou a Escola internacional de Futebol de Pyongyang, onde 200 crianças de 10 a 14 anos dormem, treinam e estudam. Segundo Ri-Yu-Il, treinador da escola, a intenção é produzir atletas “que possam superar o nível de Lionel Messi”.
“Agora nosso objetivo é dominar a Ásia e, em um futuro próximo, esperamos dominar o mundo”, declarou o treinador em entrevista à agência de notícias francesa AFP.
Hoje, a Coreia do Norte ocupa a 139º posição do ranking de seleções da FIFA, atrás de Nicarágua, Vietnã e Ruanda.
