Foi graças a um alimento genuinamente brasileiro que Willian Rocha conseguiu resistir ao período de maior dificuldade que teve na Suíça, durante a temporada em que defendeu o Grasshopper. O zagueiro, que teve passagem pelo Fluminense em 2010, não falava os idiomas locais e para não passar fome sobrevivia a base de hambúrguer.
"Durante duas semanas só comia McDonald's. Não sabia pedir nada em restaurante e não tinha tradutor. Era mais fácil porque falava 'one' [um em inglês] e apontava. Todo mundo sabe inglês lá (risos). Não foi fácil", disse, ao ESPN.com.br.
A situação só mudou no dia em que um brasileiro chegou ao treino do time suíço querendo conhecer o zagueiro.
"Ele me disse que quando eu precisasse de algo poderia telefonar. Passou três dias e liguei: 'Me desculpa, mas vou pedir um favor: tem como fazer um feijão para mim? Se você não fizer eu vou morrer (risos)'. No dia seguinte ele armou uma feijoada e foi maravilhoso porque eu já estava fraquinho (risos)", recordou.
"A família dele era muito legal e eles me ajudaram demais. Conheci os brasileiros todos da cidade por causa da vontade de comer feijão", contou.
Dentro do clube, Willian também recebia auxílio dos companheiros. "Um dos jogadores era casado com uma brasileira e às vezes falávamos em português também. Eles me ajudavam a traduzir e aprendi muitas palavras em alemão".
Com o passar do tempo, ele aprendeu alguns truques quando não estava entre os conterrâneos. "O gesto de apontar nunca me deixou na mão. Depois que aprendi a comer as comidas que tinham foto no cardápio a minha vida melhorou 100% (risos)", explicou.
Willian passou apuros também no dia em que foi comprar uma televisão no shopping center.
"Eu paguei e levei a TV de 55 polegada gigante até a saída, mas a porta o shopping fechou começou a apitar a sirene. Veio a polícia me perguntar o que estava fazendo com a TV. Eu tive que mostrar a nota fiscal (risos)", recordou.
Dentro de campo, o defensor ajudou o Grasshopper a conquistar a Copa da Suíça de 2013.
"Foi uma experiência maravilhosa. O clube tem uma estrutura fantástica. Fico muito triste por não ter continuado esse sonho na Europa. Tive uma contusão grave no tendão de Aquiles que me maltratou porque lá era frio e tinha grama sintética. Isso me deixou frustrado, mas em termos de aprendizado foi maravilhoso. Saí de lá outro profissional", garantiu.
SEM CHANCES NO FLU
Willian Pereira da Rocha começou em escolinhas e passou pelas categorias de base Gama-DF antes de chegar ao Paulista de Jundiaí.
"Eu subi ao profissional muito cedo, com apenas 17 anos, com o Vágner Mancini. Mas fui me firmar no time só em 2009. Fiz bons jogos e fui comprado por investidores que me levaram ao Fluminense", relatou.
Nas Laranjeiras, porém, ele não teve oportunidades na equipe que foi campeã brasileira em 2010. "Cheguei vindo de um time menor e os zagueiros que estavam la tinham muito nome. Treinava com eles e joguei um Brasileiro Sub-23 muito bem, mas vi que ali não era o meu lugar. Ia ficar outro ano do mesmo jeito e decidi que era melhor sair para ter outras oportunidade. Não adiantava ficar em time grande, mas não jogar".
Depois, Willian defendeu América-MG e Sport, antes de se transferir para o Grasshopper, da Suíça. Ao voltar ao Brasil quase acertou com o Náutico, mas foi jogar no Atlético-PR.
"Lá eu vivi um ano e sete meses maravilhosos na minha vida. É um clube fenomenal e a estrutura que todo jogador sonha. Depois do Atlético-PR eu fui para a pior experiência da minha vida", lamentou.
Willian Rocha acertou com o Avaí, mas não conseguiu obter sucesso. "Fiquei sete meses sem receber. Perdi meu irmão, a pessoa que mais amava, em um acidente e isso me deixou mais frustrado. Não fui feliz do primeiro dia até o ultimo que sai . Tive que dar uns passos para trás. Eu vivia um sonho no Atlético-PR e caí em um pesadelo no Avaí", relatou.
RENASCIMENTO
Após a frustração em Santa Catarina, ele foi para o Red Bull Brasil, no qual permaneceu por quase duas temporadas, antes de chegar ao Guarani para a Série B de 2017
"Fui extremamente feliz por lá. É um clube que tem minha torcia e que mudou a minha vida. Me projetou e voltei ao patamar que tanto sonhei".
Após fazer cinco jogos no Paulista da Série A2 deste ano, ele recebeu uma oferta do Nagoya Grampus, do Japão.
"Quando recebi a proposta dos japoneses pensei: 'É a oportunidade que esperava na minha vida' Não pensei duas vezes.Numa sexta-feira eu joguei contra o Batatais, sábado tive reunião e segunda já estava arrumando o visto (risos)", relatou.
Na "Terra do Sol Nascente", ele acertou um contrato de um ano com mais dois adicionais, caso consiga bater algumas metas. Fora de campo, ele garante não estar sofrendo as diferenças culturais.
"No tempo que estou aqui estou adorando a a experiência. Os japoneses são muito receptivos. Estou muito feliz. Aqui tem comida de tudo que é lugar do mundo. É um país de primeiro mundo, tem de tudo. O difícil na vida é se acostumar com coisas ruins, com coisas boas é fácil (risos).
O zagueiro é colega de time de Jô (ex-atacante do Corinthians) e Gabriel Xavier (ex-meia do Cruzeiro). Os três brasileiros fizeram gols na vitória do Nagoya Grampus por 3 a 2 sobre o Gamba Osaka na primeira rodada da J-League, no último sábado.
"Tenho a melhor expectativa possível e me adaptar a forma do futebol japonês que é muito mais rápido do que no Brasil. Espero permanecer por aqui por muitos anos e fazer história e construir meu nome. Aqui é um lugar ótimo para criar meus filhos e cuidar da minha família", finalizou.
