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Como caos com passaporte gerou crise que pode fazer Holanda ter que refazer pelo menos 133 jogos

Crise dos passaportes balançou o mundo do futebol holandês Getty Images

A Real Associação Neerlandesa de Futebol (KNVB) pode ser forçada legalmente a refazer pelo menos 133 partidas de seus campeonatos nacionais, após o estouro de um escândalo envolvendo o passaporte e a cidadania de alguns jogadores que disputaram esses jogos.

Tudo começou após uma denúncia do NAC Breda, atual penúltimo colocado do Campeonato Holandês, sobre a irregularidade de Dean James, jogador do Go Ahead Eagles e nascido nos Países Baixos. O atleta participou da vitória por 6 a 0 de sua equipe contra os vice-lanternas, e sua presença pode ser o estopim de uma crise no futebol do país.

Dias após a partida, o NAC Breda abriu uma reclamação formal junto à KNVB sobre a presença do jogador em campo, citando a lei holandesa como o motivo que impediria a participação de James na goleada. Analisando a situação, foi possível perceber que o problema ia muito mais fundo do que se esperava.

James, apesar de holandês, possuiu um passaporte tailandês e defende a seleção do país desde 2025. Em teoria, aos olhos da lei holandesa, ele já não é mais cidadão neerlandês desde então. Isso o obrigaria a ter um visto de trabalho para atuar no país, algo que ele não tem. Entretanto, a situação, que teve como início uma conversa despretensiosa em um podcast, terminou por ser muito mais grave do que só a atuação de um atleta.

Agora, a KNVB precisa correr contra o tempo para entender os desdobramentos legais da denúncia do NAC Breda - que afeta a vida profissional e pessoal de diversos atletas - e responder à pergunta fundamental desse caso: qual é a nacionalidade de um jogador nascido na Holanda?


Você é holandês ou surinamense?

Quando Tjaronn Chery volta para casa depois de jogar pela seleção do Suriname, geralmente é uma rápida passagem -- um olá para a família e um abraço nas crianças, antes de voltar imediatamente ao NEC Nijmegen, seu clube. Mas, no final de março, quando fez essa mesma viagem depois de não se classificar para a Copa do Mundo com seu país, seus filhos o viram permanecer em casa, em uma cena confusa. Ele, entretanto, não estava machucado, apenas esperando.

"Tive que ficar em casa por cinco dias porque não me deixaram ir ao clube. Acho que minha família teve a chance de me ver por um tempo", disse Chery à ESPN Holanda. "Mas as crianças e minha esposa estavam me perguntando: 'O que está acontecendo?'"

A resposta não é nada simples. Nas semanas anteriores, o pânico havia tomado conta do futebol holandês. A polêmica envolveu um podcast, jogadores sendo afastados, clubes correndo atrás de conselhos e informações legais, e a KNVB (a associação de futebol da Holanda) buscando esclarecimentos urgentes sobre a elegibilidade de vários jogadores. Cerca de 25 atletas (incluindo Chery) foram implicados no Passportgate, como foi apelidado o caso, e se viram obrigados a se afastar momentaneamente do esporte.

Na segunda-feira, um julgamento do tribunal de Utrecht no caso entre o clube que deu início a tudo -- NAC Breda -- e a KNVB pode virar o futebol holandês de cabeça para baixo. Se o juiz decidir a favor do NAC, a KNVB enfrentará um verdadeiro pesadelo de calendário, que potencialmente envolverá o replay de pelo menos 133 partidas.

No meio de tudo isso, um grupo de jogadores indonésios, surinameses e cabo-verdianos perplexos fica sem saber o efeito dominó que suas decisões podem causar em suas carreiras. "Minha família estava me perguntando: 'Qual passaporte você tem agora, e o que você é -- holandês ou surinamense?'", disse Chery.


'Isso pode se tornar um grande problema'

Um dia depois de o NAC Breda ter perdido 6 a 0 contra o Go Ahead Eagles em 15 de março, os apresentadores do podcast "De Derde Helft" ("A Terceira Parte") analisaram a derrota. É um programa popular; jogadores e administradores o ouvem, e geralmente provoca debates.

Após analisar a defesa frágil do NAC Breda, um dos comentaristas, Rogier Jacobs, casualmente comentou: "Bem, o NAC Breda ainda pode ganhar esta partida". Entre reações de surpresa, Jacobs explicou como o Go Ahead pode ter escalado um jogador irregular, Dean James, depois que o lateral-esquerdo aceitou a oferta da seleção da Indonésia em março de 2025.

"Se você é um jogador holandês com raízes indonésias, pode escolher jogar pela Indonésia", ele disse. "Você receberá um passaporte lá, mas o que muitos jogadores e clubes não sabem é que, em alguns casos, você abrirá mão da sua nacionalidade holandesa".

"Se um jogador renunciar à sua cidadania holandesa, por assim dizer, você entra em uma jurisdição diferente. Na verdade, você se torna um estrangeiro", disse à ESPN a professora de direito do esporte Marjan Olfers. "E, portanto, você deve possuir uma autorização para poder realizar seu trabalho aqui".

James jogou sem um visto de trabalho e, por lei, estava inelegível. "Se o NAC descobrir isso, entrar com um processo, essa partida pode acabar sendo uma vitória para eles", disse Jacobs. "Eu estava com um funcionário de um escritório de advocacia que se especializa nisso, e ele disse que isso poderia se tornar um grande problema", ele acrescentou.

Bem, o advogado estava certo. Quatro dias após o lançamento do podcast, o NAC Breda reclamou à KNVB sobre a elegibilidade de James. O diretor administrativo do NAC, Remco Oversier, disse em 28 de abril que foi alertado sobre o caso de James depois que lhe enviaram o episódio do podcast. Ele então verificou as informações por conta própria.

Foi uma surpresa devastadora para James. "[O diretor do Go Ahead, Jan Willem van Dop] me tirou da academia", disse James. "Ele disse que o NAC queria apresentar uma queixa. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo".

O Top OSS, um time da segunda divisão, logo seguiu o exemplo, levantando questões sobre a elegibilidade do jogador indonésio do Willem II, Nathan Tjoe-A-On, na partida do dia 13 de março entre os clubes e, a partir daí, o caos se instalou. Clubes e empresários correram em busca de orientação jurídica, tentando determinar se seus atletas eram irregulares e a extensão total do que havia acontecido.


'Eu só culpo a mim mesmo'

Indonésia, Suriname e Cabo Verde - todas ex-colônias holandesas - procuraram fortalecer suas seleções com jogadores nascidos nos Países Baixos que poderiam ser elegíveis por meio de sua ascendência.

A seleção da Indonésia, por exemplo, já tinha uma forte influência holandesa na época em que Patrick Kluivert se tornou o treinador da equipe no início de 2025, com nove dos 11 jogadores titulares no jogo contra o Iraque em outubro - válido pelas Eliminatórias da Copa do Mundo - tendo nascido na Holanda.

Mas tudo isso representava um problema. De acordo com a lei holandesa, a nacionalidade holandesa é automaticamente perdida ao adquirir voluntariamente outra nacionalidade. Solicitar um novo passaporte para jogar pela Indonésia, por exemplo, parece se encaixar nessa descrição.

Há algumas exceções, mas, de modo geral, quando certos jogadores aceitaram ofertas da Indonésia, Suriname ou Cabo Verde e assumiram a nova cidadania, eles renunciaram à holandesa. Além disso, a Indonésia não aceita a dupla nacionalidade em nenhum caso. Isso excluía jogadores como James da União Europeia (UE), o que significava que eles precisavam de um visto de trabalho para jogar na Holanda.

Para obter um visto de trabalho, um jogador deve atender a certos critérios. No futebol holandês, o meio mais comum para aqueles com mais de 21 anos é receber um salário de €608.000 (R$ 3,5 milhões) ou mais por ano. Para aqueles com menos de 21 anos, é cerca de metade desse valor. Esse limite imediatamente exclui vários jogadores das ligas holandesas, fazendo com que muitos continuassem atuando sem o visto de trabalho adequado.

Houve discussões sobre essa questão em 2025, quando o veículo holandês Voetbal International publicou uma matéria em 25 de março. "Acionamos o alarme quando vimos uma entrevista com Tom Knipping", disse Evgeniy Levchenko, presidente do sindicato dos jogadores holandeses VVCS, à ESPN. "Depois, investigamos quais eram as regras e conversamos com advogados. Logo ficou claro que em certos países, você não pode ter dupla nacionalidade. Emitimos uma declaração geral dizendo: 'Vocês precisam ter isso em mente se forem jogar pela Indonésia', mas, em grande parte, fomos ignorados".

Alguns clubes já estavam cientes do problema. O goleiro do Ajax, Maarten Paes, nasceu na Holanda e fez sua estreia pela Indonésia em 2024. Quando ele se transferiu do FC Dallas para o gigante neerlandês em 2 de fevereiro 2026, o clube tratou-o como um cidadão de fora da UE, seguindo o conselho de seus advogados, e solicitou uma autorização de trabalho e residência. Ele teve que esperar até o dia 21 do mesmo mês para estrear.

Mas, à medida que você desce na hierarquia do futebol, fora dos três grandes - Feyenoord, PSV e Ajax - há menos expertise jurídica.

"O conhecimento jurídico está atrasado em muitos clubes, especialmente nessas áreas", diz Olfers. "Cada vez mais clubes estão contratando advogados, mas fora da primeira divisão, você vê esse conhecimento diminuindo. Todo o dinheiro está sendo gasto no campo de jogo, em vez de em conselhos e expertise fora dele".

Quem é o culpado pela negligência? Algumas pessoas, como Olfers e o atacante surinamense do TOP Oss, Luciano Slagveer, acreditam que pelo menos parte da culpa recai sobre os jogadores. "No meu caso, se eu soubesse, teria pensado mais algumas vezes", disse à ESPN. "Se realmente se confirmar [que perdi meu passaporte holandês], então a culpa também é minha. Eu não fiz pesquisas o suficiente".

"Eu só culpo a mim mesmo", disse o lateral do FC Emmen e da Indonésia, Tim Geypens. "Eu deveria ter analisado isso mais de perto, lido com mais atenção e refletido sobre isso. E acho que não fiz isso o suficiente".

Nem todos os jogadores sentem o mesmo. "Jogamos apenas pelo nosso país. Não sabemos mais nada sobre isso", disse o defensor do Fortuna Sittard e da Indonésia, Justin Hubner, à ESPN. Um empresário também disse à ESPN que as seleções nacionais abordaram os jogadores diretamente e não envolveram seus clubes ou agentes no processo. "Nunca tivemos realmente visibilidade sobre isso, e apenas ouvimos que estava tudo bem se um dos pais deles fosse indonésio ou surinamense. Os jogadores só queriam jogar por aquele país, então não consideraram mais nada sobre seus passaportes", disse.

"Nenhuma agência governamental disse nada sobre isso nos últimos dois anos", disse Wilco van Schaik, gerente geral do NEC, no podcast "De Bestuurskamer" (A Sala de Reuniões). "Não nos enviaram uma carta, nem a KNVB nem a Eredivisie (Primeira Divisão). Estou furioso com isso. Todos agimos de boa fé".


O que vem a seguir?

Quando os jogadores retornaram da Data FIFA no final de março, os clubes temporariamente deixaram no banco os atletas que poderiam ser problemáticos, incluindo Chery, do NEC, e James, do Go Ahead. "Eu simplesmente desliguei meu telefone; se você ler tudo, vai enlouquecer", disse Dean. "Nos primeiros cinco dias, ainda não havia clareza se as coisas iriam dar certo".

Vários jogadores surinameses foram autorizados a retornar aos treinos antes da 29ª rodada e jogaram no fim de semana de 5 de abril, como Chery. Na maioria dos casos, eles receberam um carimbo em seus passaportes do IND (Serviço de Imigração e Naturalização) permitindo que jogassem novamente. (Jogadores que têm um parceiro ou filhos na Holanda podem solicitar um selo da UE enquanto aguardam seu visto de residência e trabalho. O carimbo permite que eles trabalhem normalmente).

Chery capitaneou o NEC na vitória por 2 a 0 sobre o Excelsior Rotterdam no dia 4 de abril. Ele não entende completamente o que aconteceu, mas está feliz que o clube e seus advogados lidaram bem com a situação. "[Meus companheiros de equipe] ligaram perguntando quando eu voltaria", ele disse à ESPN. "Quando você joga junto por tanto tempo, vocês sentem falta um do outro. Foi confuso e houve um pouco de pânico, mas estou feliz que tudo se resolveu no final".

Outros permaneceram no exílio, como Dion Malone, do Telstar, que está avaliando seu próximo passo. "Dion é um rapaz inteligente que também está com o Suriname há muito tempo", disse o gerente técnico do clube, Peter Hofstede. "Acho que é bom que ele tente tomar as decisões certas. Ele mesmo está relaxado com isso - afinal, ele não é um atleta que sempre joga - e principalmente queria garantir que o clube não fosse prejudicado".

Muitos outros jogadores retornaram durante o fim de semana de 11 a 12 de abril - incluindo Geypens, que recebeu um visto de residência até 2031 após ser suspenso por seu clube por duas semanas. Mas para alguns, o ressentimento permaneceu.

"Eu acho escandaloso que a gestão do [NAC Breda] tenha tomado uma atitude", disse Hubner, do Fortuna Sittard e que defende a Indonésia, à ESPN. "Qual é a importância para esse clube de qual é a sua nacionalidade? Deixe eles jogarem futebol. Se você levar uma surra de 6 a 0 do Go Ahead Eagles, então você não tem o direito de começar a falar sobre passaportes."

James também fez seu retorno em 11 de abril no empate por 0 a 0 do Go Ahead com o FC Groningen. "Eu realmente não fiquei feliz com [a reclamação do NAC], vamos falar assim", ele disse. Apesar de voltar ao campo, seu futuro internacional é incerto. "Não posso dizer muito sobre a minha situação no momento. Claro, quero continuar jogando pela Indonésia, isso é certo. Ainda temos que ver como vamos resolver isso. As regras da Indonésia sobre a proibição da dupla nacionalidade permanecem firmes".

Olfers espera que a KNVB e o IND investiguem se jogadores de fora da UE poderão obter um visto de trabalho com maior facilidade no futuro, enquanto existem várias opções para acelerar o processamento de passaportes e vistos de trabalho, ou a opção de emitir permissões de residência permanente.

A KNVB e o conselho de supervisão da Eredivisie (ECV) rejeitaram o pedido do NAC Breda para que a partida fosse repetida. A KNVB disse que não concordava com a exigência do clube, pois nem James nem o Go Ahead estavam cientes de que ele não tinha a licença correta, como aconteceu com vários outros jogadores. Vários advogados com conhecimento do assunto disseram à ESPN que estão confiantes de que o NAC tem uma chance de reverter a decisão da KNVB com um recurso.

O recurso do clube foi ouvido na terça-feira em um tribunal em Utrecht, e a KNVB disse que, se a decisão for revertida, isso poderia levar os clubes a recorrerem dos resultados de todas as 133 partidas que envolveram um dos jogadores afetados. Ela temia que o calendário da Eredivisie fosse atrasado a tal ponto que a temporada nunca seria concluída. "Se o NAC ganhar, esses outros clubes também entrarão com ações sumárias e semelhantes. Isso poderia significar que a competição não pode ser concluída", disse Marianne van Leeuwen em nome da KNVB.

O NAC argumentou que seu recurso diz respeito apenas a uma partida: a derrota por 6 a 0 contra o Go Ahead Eagles. O advogado do clube no tribunal na terça-feira disse que o argumento de que isso poderia causar um efeito dominó desencadeando múltiplos recursos e jogos repetidos é "uma farsa". "Não são amadores, mas partes profissionais", disse o advogado do NAC.

"Estou aqui com um embrulho no estômago", disse o gerente geral da NAC, Oversier, na audiência. "Temos que nos esforçar muito para deixar a justiça fazer seu trabalho. Certamente não é agradável; eu preferiria não estar aqui, mas no interesse do NAC, estou fazendo isso".

O juiz adiou o caso para lhe dar tempo de considerar ambos os argumentos, e o veredicto será divulgado na segunda-feira (04). Enquanto isso, o ECV está trabalhando em estreita colaboração com agências governamentais, incluindo o IND, para garantir que o Passportgate seja resolvido de uma vez por todas.

"Certamente não estávamos cientes de nada disso", disse o goleiro do FC Groningen e da seleção de Suriname, Etienne Vaessen. "Em última análise, eu gostaria de recuperar minha cidadania holandesa, mas também quero jogar pelo belo Suriname. É preciso encontrar um meio-termo".