Foi um trote telefônico que Nelsinho Baptista pensou ter recebido no dia seguinte à final do Campeonato Paulista de 1990, depois que o Novorizontino, surpresa naquela competição, foi vice-campeão ao perder a taça para o Red Bull Bragantino. Acontece que a ligação era real e tratava-se de um convite oficial do Corinthians.
"No dia seguinte à final, nós voltamos de Bragança Paulista para Novo Horizonte para eu pegar minhas coisas. O Novorizontino não tinha calendário de jogos e a comissão e eu estávamos deixando o clube. Quando estávamos acertando os últimos detalhes, recebi um telefonema e até fiquei surpreso. Era alguém do Corinthians. Pensei que fosse um trote. Desliguei o telefone, mas a pessoa voltou a ligar e foi logo dizendo que não era trote. Disse: 'Estamos pensando em trazer você para o Corinthians. Você topa?' 'Ah, claro'. Viajei no mesmo dia. Cheguei em São Paulo por volta das seis da tarde para conversar com o seu Vicente Matheus e assinar", disse.
Nelsinho tinha 40 anos naquela época. Apesar de passagens por São Bento de Sorocaba, Ponte Preta, Inter de Limeira, América de São José do Rio Preto e até Athletico-PR, era um profissional ainda em começo de carreira. O trabalho de maior destaque até então havia sido justamente no Novorizontino..
O curioso é que a meta que recebeu da diretoria antes do início do torneio era bastante modesta.
"Nós iniciamos o campeonato em um clube que poucas vezes tinha jogado a primeira divisão. Não era a primeira vez, mas fazia pouco tempo que estava na primeira divisão. A prioridade era manter-se no campeonato e iniciamos o trabalho passando para o grupo que cada partida seria uma decisão", disse à ESPN.
"Dentro de casa a gente buscava os três pontos. E conseguimos. Perdemos pouco em casa, como acontece agora no campeonato deste ano. Isso nos deu confiança, como acontece quando você alcança os resultados, e, em vez olhar para baixo, para quem vinha atrás de nós, começamos a olhar para cima".
O time do Novorizontino era desconhecido do grande público e até pela mídia, que concentrava (como hoje) suas atenções nos grandes do Estado. Mas o elenco do clube aurinegro tinha talentos que vingaram no futebol brasileiro, inclusive com títulos de grande destaque.
"Nós tínhamos um grupo homogêneo e jogadores que sobressaíram. O goleiro era Maurício, que começou a campanha como reserva. Lembro que ele chegou a ser convocado ainda naquele ano para a seleção brasileira sub-20 e mostrou muita qualidade", disse Nelsinho.
"Na lateral direita tinha o Odair, também um jogador convocado para a seleção e que depois foi para o Palmeiras. Um dos nossos zagueiros era o Fernando Baiano, cuja contratação inclusive pedi quando fui treinar o Corinthians. Tinha o volante Luís Carlos Goiano [São Paulo e Grêmio] e a estrela que se tornou o Márcio Santos, nosso zagueiro, que foi tetracampeão com a seleção brasileira na Copa do Mundo nos Estados Unidos [em 1994]".
O Novorizontino surpreendeu como o melhor do grupo na terceira fase do campeonato (fez um ponto a mais que o Palmeiras) e se classificou para a final contra o Bragantino, que era treinado por Vanderlei Luxemburgo, também em seu primeiro trabalho de grande destaque.
O time de Bragança Paulista ainda não tinha o aporte financeiro da multinacional Red Bull, mas contava com um elenco com nomes que também alcançaram destaque no cenário nacional, como Gil Baiano, Mauro Silva, Robert e Mazinho. Como tinha melhor campanha, jogava por dois empates.
Foi o que aconteceu. As finais foram em 22 e 26 de agosto. O primeiro jogo terminou 1 a 1, em Novo Horizonte. O segundo teve o mesmo placar e também uma prorrogação de 30 minutos, que terminou sem gols. Assim, o Massa Bruta foi campeão paulista de 1990.
As lembranças de Nelsinho são positivas. Ele sabe que, mesmo sem a taça, chegou muito longe, muito mais do que qualquer um esperaria do Novorizontino em 1990. Aquela boa campanha acabou levando-o para o Corinthians -- não era um trote -- e no final de 1990 ele deu ao time do Parque São Jorge o primeiro título de Campeonato Brasileiro.
A carreira de Nelsinho prosseguiu e teve outras glórias. Já o Novorizontino não conseguiu o mesmo. O clube resistiu até 1999, quando fechou as portas. O atual Novorizontino, apesar das cores, da mascote (tigre) e do escudo muito parecido é outra agremiação, com outro CNPJ.
Mesmo assim, o treinador tem uma ligação muito afetiva com o Tigre do Vale. Se a equipe vencer o Palmeiras neste domingo (8), no estádio Jorge Ismael de Biasi, Novo Horizonte, e sagrar-se campeã, Nelsinho ficará feliz e honrado.
"Quando eu fui treinador lá, os atuais dirigentes tinham 20 anos. Eram, digamos assim, adolescentes. O clube era comandado pelos pais, pelos tios deles. Hoje são eles que estão conduzindo o Novorizontino".
Como perdeu o primeiro jogo por 1 a 0, na Arena Barueri, o Novorizontino precisa vencer o Palmeiras por pelo menos dois gols de diferença para conquistar a taça no tempo normal. Se triunfar por um gol de diferença, o título será decidido nos pênaltis.
