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Quem é o único técnico brasileiro campeão da Copa Africana de Nações?

Otto Glória (à esq) já superou Pelé e foi o único técnico brasileiro campeão da Copa Africana de Nações Getty Images

Senegal e Marrocos decidem neste domingo (18) o título da Copa Africana de Nações (CAN) 2025-2026, a partir das 16h (de Brasília), no Estádio Príncipe Moulay Abdellah, em Rabat, capital marroquina. E no banco, os dois comandantes buscam pela primeira vez na carreira a coroação que apenas um colega de profissão do Brasil conseguiu em toda a história.

Estamos falando de Otto Glória, uma lenda do futebol que, daquelas coisas difíceis de explicar, é pouco lembrada dado tudo o que fez e conquistou como técnico. No Brasil, na Europa e na África. E isto ao longo dos anos 1950, 1960, 1970 e 1980.

Mas quem foi Otto Glória?

Talvez, Walid Regragui, o francês-marroquino de 50 anos que surpreendeu a Terra ao levar Marrocos às semifinais e ao terceiro lugar na Copa do Mundo de 2022, no Qatar, e agora a uma decisão continental que o país não chegava há 22 anos, e Pape Thiaw, o senegalês de 44 que rege o selecionado que tem Sadio Mané como estrela, não tenham muitos detalhes, mas o carioca Otaviano Martins Glória, nascido em 9 de janeiro de 1917, fez tanto que parou até Pelé.

Otto x Pelé

Sim, antes de reinar na África (leia mais abaixo) e depois de virar uma lenda no Benfica, Otto Glória comandou a histórica seleção de Portugal que, com o craque Eusébio, foi a maior sensação da Copa do Mundo de 1966 terminando em terceiro lugar – derrota para a anfitriã Inglaterra nas semifinais. Antes, no duelo contra a então atual bicampeã mundial (1958 e 1962), o Brasil tomou 3 a 1, e o futuro Rei do Futebol deixou o campo de cabeça baixa e mancando de tanto que apanhou – a ordem de segurá-lo mesmo que com violência partiu de Otto.

Sete anos mais tarde, em 26 de agosto de 1973, novo embate contra Pelé, este em campo pelo Santos. No fim, deu empate, mas Otto, nesta ocasião técnico da Portuguesa, levou a melhor se levado em conta todo o contexto. Era a final do Campeonato Paulista daquele ano, e após o empate por 0 a 0 no tempo normal, o árbitro Armando Marques errou a contagem, encerrou as cobranças de pênaltis com apenas 2 a 0 para o time alvinegro e apitou o fim da partida.

Esperto e sabendo que havia ocorrido uma falha absurda, Otto, segundo diversos relatos ao longo da história, sabia que aquilo ia ser revisto. Então, apressou não só seus atletas para irem ao vestiário como para trocarem de roupa e deixarem, juntos, o estádio. Quando Armando Marques entendeu a besteira que fizera e mandou chamar os atletas rubro-verdes de volta a campo, eles já estavam no ônibus a uma boa distância do Morumbi – há quem diga que um dirigente tentou fazer o veículo voltar, mas que o comandante interviu de forma enérgica na linha contrária.

No mesmo domingo, uma reunião de menos de 15 minutos com representantes dos dois clubes e da Federação Paulista de Futebol (FPF) decretou que Santos e Portuguesa eram os campeões paulistas de 1973. Título dividido. E até hoje a última conquista estadual de elite da Portuguesa.

Rei em Portugal

Mas Otto Glória chegou para a Copa do Mundo de 1966 e para aquela decisão de Paulista de 1973 já sendo um técnico de respeito e coroado. E tudo isto graças a seu trabalho revolucionário anos antes no Benfica, no qual virou lenda. O carioca desembarcou em Lisboa em 1954 após encantar os dirigentes do clube no comando do América-RJ em uma excursão ao país europeu meses antes.

Chegara ao Mecão em 1952, após não ir bem em sua primeira tentativa como técnico do profissional, que foi no Vasco entre 1951 e 1952 – antes, fora auxiliar no Botafogo em 1948 (o clube levou o título carioca daquele ano) e no próprio Cruzmaltino (que ganhou os títulos carioca de 1949 e 1950). Flávio Costa, comandante da seleção brasileira na Copa de 1950, foi quem o levou para o Vasco.

No Benfica, entre outras coisas, Otto transformou o departamento de futebol, foi peça fundamental na construção de um Centro de Treinamento, trabalhou muito na busca de talentos diversificados para a montagem de um time competitivo, explorou como ninguém antes a busca de atletas nos países que tinham sido colônias de Portugal, especialmente na África, e passou a interferir até na dieta dos jogadores. Hoje, ter o controle da alimentação é algo até básico no futebol de elite, mas nos anos 1950 era uma novidade e tanto.

O sucesso foi imediato. Com o brasileiro, as Águias voaram: ganharam o Português de 1954-1955 e derrubaram a sequência de quatro anos seguidos de títulos do Sporting; e levaram também a Taça de Portugal da mesma temporada, dobradinha que foi repetida em 1956-1957. Ficou até 1959, em um trabalho de cinco anos que mudou o patamar do Benfica como clube de futebol e pavimentou o caminho para o supertime que encantaria a Europa e o resto do mundo e rivalizaria com o Santos de Pelé entre 1959 e 1962, já sob o comando do famoso húngaro Béla Guttmann.

Otto seguiu fazendo história em Portugal. Treinou e ganhou títulos com Sporting e Belenenses e também comandou o Porto entre 1964 e 1965, mas sem levar qualquer taça. Ainda na Europa, passou pelo Olympique de Marselha, da França, em 1962, e pelo Atlético de Madrid, da Espanha, entre 1966 e 1968, quando voltou ao Benfica. E brilhou novamente: foi bicampeão do Português em 1967-1968 e 1968-1969, e nesta última temporada fez a dobradinha outra vez com a Taça de Portugal.

Campeão da Copa Africana

Rio de Janeiro, Europa, Copa do Mundo e São Paulo. O Otto jovem, que até jogou futebol profissionalmente (por Vasco, Botafogo e Olaria), mas largou o ofício com 25 anos e foi tentar a sorte no basquete, no qual atuou também, mas desenvolveu mesmo algo que já gostava bastante, a parte tática, agora decidira aceitar, aos 63 anos, um novo e grande desafio, treinar uma seleção da África.

E o técnico assumiu logo a Nigéria, a nação mais populosa e uma das mais apaixonadas por futebol no continente. Pressão à vista. Mais ainda quando se comanda a seleção do país-sede da Copa Africana. Foi assim em 1980. Em março daquele ano, a competição que começou em 1957 com três participantes e chegara à 12ª edição com oito – atualmente são 24 – tinha Gana como atual campeã.

No grupo A, a equipe de Otto estreou com vitória por 3 a 1 sobre a Tanzânia, empatou por 0 a 0 com a Costa do Marfim e venceu o Egito por 1 a 0, com todas as partidas em Lagos, capital do país, e nunca com menos de 55 mil pessoas no estádio. No fim, liderança com 5 pontos (a vitória naquele tempo valia 2 pontos) e classificação ao lado dos egípcios, que passaram em segundo com 4. Na chave B, passaram Argélia, com 5, e Marrocos, com 3 – os ganeses foram eliminados.

Na semifinal, para um público de 70 mil apaixonados, vitória por 1 a 0 contra os marroquinos – gol de Owolabi - e vaga garantida pela primeira vez pelo país para uma final de CAN. Do outro lado, em um jogo dramático, a Argélia superou o Egito nos pênaltis (4 a 2) após empate por 2 a 2 no tempo normal.

Na decisão inédita para as duas seleções e diante de 85 mil pessoas no Estádio Surulele, em Lagos, a Nigéria usou o seu 4-3-3 pelo qual Otto sempre foi apaixonado, fez valer a pressão da casa e superou o argelinos por 3 a 0, com gols de Odegbami (2) e Lawal. Foi o primeiro dos três títulos que o país tem da disputa continental (levou também em 1994 e 2013) e até hoje faz com que Otto Glória, que morreu em 1986 aos 69 anos, seja o único técnico brasileiro campeão da Copa Africana de Nações.