Conquistar uma vaga na Copa do Mundo é uma boa notícia para qualquer país. Conquistar a sua primeira vaga na história sendo a menor nação do mundo (cerca de 155 mil habitantes) e sem nem sequer ter um campeonato de futebol profissional foi motivo para parar Curaçao, como contou o presidente da Confederação Curaçauense de Futebol, Gilbert Martina, à ESPN.
"Eu nunca vi algo assim antes. Houve um grande desfile desde que chegamos na última quarta-feira (19). O desfile partiu do aeroporto até a capital Willemstad, percorrendo as principais estradas da ilha e culminando com a celebração oficial em uma grande praça com o Primeiro-Ministro e o Ministro do Esporte, Cultura, Ciência e Educação".
Curaçao é uma ilha de 444km² – o que é apenas um pouco mais que a área total de Curitiba – no meio do Mar do Caribe. Faz parte do Reino dos Países Baixos, tendo o título de país autônomo. Isso explica porque praticamente todos os jogadores que conquistaram a vaga no empate por 0 a 0 contra a Jamaica eram nascidos na Holanda.
Lá, não existe futebol profissional. Mais do que isso, Curaçao passou quase dois anos e meio sem qualquer tipo de futebol local durante o ciclo para a Copa do Mundo de Canadá, México e Estados Unidos.
“Eram muitos desafios do ponto de vista da governança. A FIFA instalou um Comitê de Normalização em agosto de 2024 para restaurar a ordem na federação. Eram tantos problemas, tantos conflitos, tantas batalhas, tanto ego. O futebol local foi interrompido por quase dois anos e meio. Você pode imaginar que no Brasil não exista futebol local? Acho que as capitais e todas as grandes cidades seriam incendiadas porque essa é a religião”, desabafou o presidente.
Gilbert Martina assumiu o comando da confederação em abril de 2025.
“Uma das primeiras coisas que fiz foi trazer paz, estrutura e tranquilidade, ter tudo pronto para que a seleção pudesse se concentrar nos resultados em campo. E vimos o que foi feito quando você tem estrutura, quando você está em paz, quando todas as condições prévias estão estabelecidas, então eles podem realmente se concentrar em jogar futebol".
Além do retorno do futebol amador, sua gestão quer instaurar um campeonato de verdade.
“Esse é um dos objetivos do nosso plano estratégico. Em quatro a cinco anos, desenvolver uma liga profissional para que você tenha jogadores profissionais jogando aqui. Nós realmente queremos desenvolver a capacidade dos árbitros, dos treinadores, dos jogadores, do clube, para crescermos juntos. Um elo fraco em uma corrente pode quebrar toda a cadeia”, explicou Gilbert.
A estratégia para driblar a ausência do futebol no país foi justamente se apoiar na pátria-mãe, segundo o dirigente.
“Sabemos que a Holanda tem uma cultura e uma história ricas em futebol, excelentes escolas de futebol, Ajax, PSV, Feyenoord. Então, por que não podemos entrar nesse reino?”, questionou.
O projeto
O projeto começou em 2003, com o recrutamento de jogadores que são elegíveis para jogar por Curaçao e formar uma equipe sólida – o que funcionou, já que a seleção terminou as eliminatórias invicta. Além disso, Gilbert apontou o técnico holandês Dick Advocaat como o segredo do sucesso.
“Um dos melhores, se não o melhor treinador da Holanda, quando você tem que lidar com a qualificação, o que significa que você tem que jogar muito voltado para resultados, em que perder um jogo pode ser caro. Portanto, você precisa ter um treinador que possa instalar a mentalidade de vencer. Essa é a especialidade dele”.
O comandante já foi, inclusive, avisado pelo presidente das expectativas para a maior competição de futebol do mundo.
"Não vamos para a Copa do Mundo apenas por três jogos. Vamos para a Copa do Mundo para pelo menos nos classificarmos para a segunda rodada”.
Gilbert, porém, sabe da dificuldade que os adversários demonstrarão. Ele até admitiu que prefere que Curaçao jogue pela Concacaf do que pela Conmebol.
“Não temos nível para competir contra o Brasil, a Argentina... Talvez contra Colômbia ou Bolívia”, brincou.
Ainda assim, o cartola garante que Curaçao não vai cair tão facilmente no Mundial, porque “queremos mostrar ao mundo que o tamanho não importa quando você tem um propósito”.
Essa é a mensagem por trás da vaga histórica.
"É uma conquista que promoverá a mentalidade de que o tamanho não importa, os recursos não importam, desde que você tenha um sonho, desde que tenha disciplina, desde que esteja disposto a trabalhar duro”, começou Gilbert.
“[Somos] uma nação minúscula, mas com um grande propósito e espírito jovem que é capaz de realizar grandes coisas”, finalizou.
