A transformação da Portuguesa em SAF (Sociedade Anônima de Futebol) completou um ano no último dia 29 de novembro.
A proposta de R$ 1 bilhão dos investidores Tauá Partners, XP Investimentos e Revee, empresa que faz parte do Grupo REAG Investimentos, por 80% das ações da Portuguesa foi apontada por muitos como a “última salvação” para um dos clubes mais tradicionais do futebol paulista que vivia à beira de um colapso financeiro e sem perspectiva para o futuro.
No papel, promessas de grandes investimentos no futebol, reforma do Estádio do Canindé – com direito a uma partida que seria de despedida em janeiro deste ano, mas não foi, para o início das obras – e o retorno à Série do Campeonato Brasileiro em cinco anos.
Na prática, contudo, muito mais dúvidas do que certezas marcam o primeiro ano da suposta “nova era” na Lusa. A ESPN traz abaixo um panorama dos principais temas ligados ao clube, o que foi prometido na chegada da SAF e qual o cenário atual.
Reforma do Canindé
Prometida para começar no início de 2026, a reforma do Canindé parece estar longe de sair do papel. No acordo firmado pela venda da SAF, a Revee investiria até R$ 500 milhões para a construção de uma arena multiuso, semelhante ao Allianz Parque, do Palmeiras.
Quem estava à frente do projeto era Luis Davantel, que esteve na WTorre, construtora responsável pelas obras no estádio do clube alviverde e estava ligado a Revee. No entanto, o profissional deixou a empresa em outubro deste ano, colocando um ponto de interrogação no futuro da obra.
Em janeiro de 2025, a ESPN trouxe a informação de que a nova administração da Portuguesa havia se assustado com a situação do estádio ao final de 2024 e aceleraria as reformas, o que levou até mesmo à interdição do local durante o Campeonato Paulista deste ano.
Os dirigentes levantaram que seria necessário R$ 6 milhões para resolver os problemas na parte da marquise - R$ 4 milhões para uma solução mais simples. Esse dinheiro, porém, não estava previsto no orçamento da obra e sairia da parte destinada ao futebol, para contratações e salários, por exemplo.
Porém, apenas dois meses após o anúncio da despedida do local para as melhorias, em abril deste ano, o Canindé foi reaberto com a promessa de passar por reformas pontuais, em locais específicos do estádio. Com isso, a Portuguesa utilizou o espaço durante a campanha na Série D do Campeonato Brasileiro.
Segundo Alex Bourgeois, CEO da SAF, em entrevista exclusiva à ESPN, o atraso aconteceu em razão de “questões burocráticas”.
“Nós estamos trabalhando na regularização do terreno para começarmos as obras, algo que já estava em nosso planejamento. Não é um processo simples. Envolve a concessão da prefeitura municipal para a Associação Portuguesa de Desportos, algo que engloba metade do terreno, e toda a documentação e liberações necessárias para uma obra desse tamanho. Até porque não se trata apenas do estádio, mas de todo o complexo do Canindé. Resolvendo essa questão burocrática, as obras começarão.”
Investigação da Polícia Federal
Outro ponto que abalou o possível início das obras do Canindé é o fato de a REAG, holding da qual a Revee faz parte, ter sido alvo da Operação Carbono Oculto, conduzida pela Polícia Federal em outubro deste ano em oito estados do Brasil, que investiga um suposto esquema bilionário ligado ao crime organizado.
Logo após o fato, a REAG acabou tendo 87,38% da empresa vendida para a Arandu Partners Holding.
Bourgeois minimizou o impacto do caso na SAF. “É sempre bom lembrar que nós não temos qualquer ligação com a REAG. Em relação à Revee, ela foi uma parceira escolhida por nós, pela sua ampla experiência comprovada, para trabalhar na operação do Novo Canindé, de modo que o projeto ou, mais precisamente, a construção, não passaria por ela, mas por uma construtora. Nosso planejamento segue normalmente, sem qualquer alteração, e em breve vamos contar com uma nova casa para o nosso torcedor.
A ESPN obteve acesso a um documento do mesmo período no qual o comando da SAF da Lusa deu entrada na JUCESP – Junta Comercial do Estado de São Paulo – para captar no mercado R$ 30 milhões para a temporada 2026, uma vez que entende que não deverá contar com dinheiro da Revee/REAG para o próximo ano, colocando ainda mais dúvidas sobre um possível início das obras no Canindé em 2026.
Prejuízo, dívida e acusação
O primeiro ano da Lusa SAF registra prejuízo nas finanças. A ESPN obteve acesso ao décimo relatório mensal de atividades da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Cível da Comarca de São Paulo/SP e, de acordo com o documento, o prejuízo acumulado da SAF até setembro foi de R$ 21,1 milhões.
No panorama geral, Bourgeois coloca a recuperação judicial da Portuguesa como central para a viabilidade econômica do futuro do clube.
“Nós aprovamos junto aos credores da Associação Portuguesa de Desportos um plano de recuperação judicial. Encontramos uma dívida que passava dos R$ 560 milhões e conseguimos reduzir para cerca de R$ 190 milhões. Estamos aguardando a homologação na Justiça, que está bem encaminhada e deve acontecer em breve”, disse.
“Essa recuperação judicial é fundamental, é o que garante a sobrevivência da Portuguesa. O clube estava em uma situação crítica, com uma dívida mais de 50 vezes superior ao faturamento anual, por exemplo”, completou.
Por outro lado, existem acusações por parte de alguns conselheiros do clube de que a direção da SAF não divulgou nenhum balanço financeiro desde que a administração começou para o Conselho Deliberativo e para o Conselho de Orientação e Fiscalização. Consultada sobre o tema, a atual administração da Lusa apenas disse que o "balanço de 2025 ainda não foi finalizado".
Queda na Série D, calendário vazio e aguardo pelo Paulistão 2026
Uma das principais promessas estipuladas pela SAF da Lusa era de um retorno à primeira divisão em até cinco anos. A ideia, porém, teve um primeiro balde de água fria em agosto. Durante o mata-mata da Série D, a Portuguesa caiu, nos pênaltis, para o Mixto-MT, em pleno Canindé, e não voltou mais a campo desde então.
Sem calendário há mais de três meses, a Lusa aguarda o início do Campeonato Paulista de 2026, competição na qual chegou às quartas de final neste ano, para retornar a disputar um torneio oficial. O início do Estadual está marcado para o dia 11 de janeiro.
Após o sorteio do novo formato ao estilo “Champions League”, a Portuguesa terá os seguintes confrontos pela frente: Velo Clube, Guarani, Ponte Preta, Palmeiras, São Paulo, Mirassol, Primavera e Capivariano.
Outras perguntas para Alex Bourgeois
Qual é o balanço deste primeiro ano da SAF da Portuguesa? Quais foram os pontos de melhorias?
O balanço é positivo. Reestruturamos um clube que passava por dificuldades e estava à beira da falência. Implementamos uma gestão profissional em todas as nossas áreas, incluindo o uso de inteligência artificial no futebol. Avançamos com a recuperação judicial, começamos a melhorar a estrutura no CT e estamos trabalhando no projeto do Novo Canindé, que será o principal equipamento esportivo da cidade de São Paulo. Isso sem falar na campanha do ingresso gratuito, que teve retorno institucional e financeiro. É um trabalho de reconstrução de uma marca valiosa, mas muito machucada nos últimos anos. Não se faz isso da noite para o dia, é preciso tempo, mas nosso primeiro ano foi positivo.
Quanto foi investido até aqui e quais são os próximos passos?
Investimos mais de R$ 45 milhões até aqui, um valor até superior à nossa obrigação firmada em contrato (R$ 30 milhões no primeiro ano), o que mostra o nosso comprometimento com o projeto e, acima de tudo, com a torcida da Portuguesa.
Quais garantias bancárias foram apresentadas na proposta e assinatura do contrato junto ao clube?
Todas as garantias e requisitos para que a transação fosse aprovada constam do acordo de investimentos firmado entre a Associação Portuguesa de Desportos e a Tauá com a devida aprovação em todos os órgãos da Associação incluindo o Conselho Deliberativo, o Conselho de Orientação Fiscal, a Assembleia Geral de sócios e a diretoria executiva.
Qual a participação efetiva da XP Investimentos na SAF?
A XP é nossa assessora financeira e participou nessa condição desde o início do projeto, desde a construção do modelo de negócio da Portuguesa SAF até a formatação do projeto.
Qual o cargo do atual Presidente do clube na SAF? Ele é remunerado?
A Associação Portuguesa de Desportos, como detentora de 20% de participação da Portuguesa SAF, tem direito a uma cadeira em nosso conselho de administração. O representante é escolhido pelo próprio clube e não temos participação nessa decisão.
Hoje quem representa o clube é o presidente Antônio Carlos Castanheira e, assim como todos os membros desse conselho, ele recebe uma remuneração, algo comum em qualquer empresa que conta com um conselho de administração. Após a eleição (que acontece em dezembro) fica a critério da associação reconduzir seu representante junto ao conselho de administração.
