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Dos gritos às glórias: árbitros relatam os bastidores e as dificuldades do apito na várzea e no profissional

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Postura, velocidade, controle de jogo e mais: Matheus Candançan monta o árbitro perfeito (0:50)

Neste dia 11 de setembro é comemorado o Dia do Árbitro (0:50)

Dos campos de terra batida, do grito e da paixão da torcida, do som do apito, da pressão, até o ponto mais alto do futebol profissional. Neste dia 11 de setembro, é celebrado o Dia do Árbitro - seja ele amador ou profissional.

Para mostrarmos as duas realidades, entrevistamos Bruno Santana, de 30 anos, árbitro de várzea e apaixonado por futebol, e Matheus Delgado Candançan, de 27 anos, um dos árbitros mais novos do Brasil a ingressar no quadro internacional da Fifa. Pudemos entender as preparações, rotinas e desafios dos dois lados da profissão, que estão conectados pela paixão ao futebol.

Nascido e criado em Barueri, Candançan é formado em Engenharia Civil, mas nunca exerceu a profissão. A vontade de ser árbitro desde muito jovem sempre prevaleceu e Matheus acabou seguindo os passos do pai, que também foi árbitro. E a história dele começa no futebol amador, na várzea, aos 16 anos.

‘A várzea é uma excelente escola para a arbitragem, acho que me ajudou muito no início. Você saber trabalhar nesses jogos, sendo que você não tem a mesma segurança, não tem repercussão, mas assim, você está fazendo um jogo de um campeonato que é muito importante para as equipes também. Então, o futebol amador é uma grande escola para a arbitragem, se faz muito necessário’, explicou Candançan.

Com o sonho de se tornar profissional, Matheus deu entrada no curso de arbitragem ainda menor de idade. "Fiz estágio, mas não iniciei a carreira na engenharia. Graças a Deus as coisas aconteceram rápido para mim na arbitragem. Assim que terminei a faculdade, já estava trabalhando em alguns jogos e me dedicando 100% nisso".

A história de Candançan é parecida com a de Bruno Santana na parte acadêmica. Nascido e criado em Santo André, Bruno também tem nível superior e é formado em Educação Física. Por outro lado, ele concilia a rotina de personal trainer com a de árbitro na várzea.

Uma das inspirações de Bruno é o próprio Candançan, inclusive: "No profissional, que eu olho, tem uma remessa boa que está vindo aí: tem o Candançan, o Claus, o Daronco. O Candançan se tornou Fifa, é um árbitro jovem", explicou.

Bruno costuma brincar que o árbitro é o jogador frustrado. Ele sempre teve o sonho de ser jogador de futebol, tentou se profissionalizar, mas não deu certo. E, como forma de permanecer no meio, começou a atuar como árbitro na várzea. Bruno conta que está nos planos para o próximo ano o início no curso profissional de arbitragem da Federação Paulista.

Mas, mesmo com o curso, ele explica que não quer abandonar o futebol amador. "Não quero abandonar a várzea, tem o cantinho dela, então vou conciliando junto com curso na federação, até concluí-lo. E, querendo ou não, é minha raiz. É de onde estou vindo e onde pretendo crescer. Então, pretendo permanecer na várzea, até ter a constância e estabilidade no profissional".

Bruno conta que uma das principais dificuldades que enfrenta na profissão é conseguir conciliar a rotina com os jogos na várzea. "A gente costuma fazer até 15 jogos por final de semana, acaba sobrecarregando um pouco".

Preparação em dias de jogo

Candançan tem à disposição o Núcleo de Alto Rendimento, o NAR, localizado em Santo Amaro, bairro da Zona Sul de São Paulo. Um espaço que conta com uma estrutura voltada para atletas, como pista de atletismo, campo de futebol, além de uma academia e espaço para fisioterapia.

"É o que ajuda muito e aproxima do que é o nosso desejo maior, que é essa preparação, essa profissionalização, em relação a gente estar mais próximo da realidade do que é um jogador de futebol. A nossa preparação vai muito com base em relação aos jogos. Principalmente no dia da partida, ou na véspera, a gente tem o treinador aqui, fazemos a fisioterapia também, é importante esse alinhamento e acompanhamento constante’, explicou Matheus.

Na várzea, Bruno costuma apitar um ou dois jogos durante a semana, mas a demanda aumenta quando chega os finais de semana, podendo chegar até 15 partidas apitadas no total. "Costumo acordar um pouco mais cedo, tento controlar mais as refeições, não comer nada pesado".

Candançan chama atenção para a realidade diferente em que os árbitros do Brasil vivem, já que não são todos que possuem a mesma estrutura e preparação. Ele acredita que essa seja uma das maiores dificuldades enfrentadas na profissão: "Não são todos os árbitros que possuem uma estrutura qualificada, acho que aqui somos privilegiados quanto a isso. Saímos para outros países e somos referências por sermos do Brasil, mas ainda há muito o que melhorar".

Já no futebol amador, Bruno levanta a questão da segurança, que acaba sendo precária na maioria dos jogos. "Dependendo do jogo, você não tem segurança alguma. O vestiário dos árbitros também é bem precário dependendo do local e quase não há policiamento".

O árbitro de várzea também explica que arca com a maioria dos custos em dias de jogo. O deslocamento até o estádio, alimentação e o material de trabalho acaba sendo tudo por conta própria. "Você ganha a taxa do jogo, seja para atuar apitando como árbitro, ou como bandeirinha. O resto acaba saindo tudo do próprio bolso".

Pressão psicológica

Candançan explica como faz para separar o Matheus pessoa do profissional e como lida com a pressão em dias de jogo, ainda mais por ser um dos árbitros mais novos do país. "É importante você ir com a cabeça 100% focada na partida. Eu acho que são experiências, cada jogo é uma história. Não dá para você achar que quando tudo sai bem em um jogo, que você é o melhor árbitro do mundo. E, às vezes, quando as coisas não saem da forma que a gente quer, também não dá para se achar o pior árbitro do mundo. Esse equilíbrio, essa regularidade, é o que faz a diferença na carreira dos árbitros vitoriosos".

"Tudo no início é uma desconfiança, assim como é para um jogador, por exemplo. Não sinto que preciso me provar o tempo todo. Acho que isso é mais um incentivo, do que uma pressão", completa.

Ele destaca que a maioria das federações do Brasil contam com psicólogos para ajudar no trabalho e dia a dia de cada um.

Já Bruno Santana conta que, mesmo na várzea, há muita pressão das torcidas, que costumam pegar no pé dos árbitros. "É um fanatismo puro. Tem gente que leva sério até demais, é uma linha tênue, a gente precisa saber lidar e não dá para cair na pilha".

Realizações

Mesmo já consolidado profissionalmente, Candançan conta que ainda tem o sonho de apitar um jogo de Copa do Mundo. "Com certeza, sou realizado profissionalmente, mas ainda tenho muitos objetivos para alcançar. O maior é chegar em uma Copa do Mundo. Mas, para isso, são pequenos passos, pequenos esforços e dedicação diária". O árbitro ainda dá um conselho para quem está começando agora no ramo: ‘O conselho que eu poderia dar é: tenha dedicação. Parece frase de praxe assim, mas o difícil não é chegar, é se manter. O único conselho que posso dar é se dedicar ao máximo, viver o futebol, a arbitragem e, com certeza, assim as coisas acontecem’.

Do outro lado da moeda, Bruno espera concluir o curso de árbitro profissional para dar continuidade na carreira e se firmar ainda mais no meio. "A várzea está em uma crescente boa e tem muito a ensinar, principalmente em questão de organização e disciplina. O sonho é alcançar o profissional conto com o apoio da família, até porque a gente não chega em lugar algum sozinho", finaliza.