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Maior goleador brasileiro na Itália e mentor de Dorival Júnior ganha biografia no Brasil

Sérgio Clérice (esq.) com a camisa do Lecco, primeiro clube que defendeu na Itália Arquivo Lecco

Foram 187 gols no futebol italiano ao longo de 18 anos, por sete clubes diferentes. Um feito que torna Sérgio Clérice, hoje com 84 anos, o maior artilheiro brasileiro na Itália à frente de Kaká, Adriano, Ronaldinho, Ronaldo, entre outros. Já como técnico, ele comandou nomes como João Paulo, Pita, Jorginho, Baroninho e Nelsinho Baptista e lançou Dorival Júnior. Mesmo assim, não é tão famoso no Brasil.

Existem alguns motivos para isso. Uma forma de conhecê-los — e saber quais são — é por meio do livro “El Gringo: o vilão elegante”, do jornalista Rodrigo Viana. A obra será lançada no Teatro Sesc Araraquara, no dia 2 de agosto, pela editora A Bola e o Verbo. Nela, é apresentada toda a trajetória de Sérgio Clérice, que, embora seja contemporâneo de Pelé (é apenas seis meses mais novo), atuou quase toda a carreira na Itália.

“Parece meio surreal, e muitos jovens talvez não o conheçam, mas nenhum outro jogador brasileiro na Itália chega perto dos números dele. Ele é um gigante. É o único estrangeiro que jogou em sete times da Série A. Pesa o fato de a mídia da época só cobrir os campeonatos no Brasil. A própria seleção não costumava abrir espaço para jogadores brasileiros que atuavam fora do país. Fosse hoje, com redes sociais, a imagem dele estaria estampada em todos os lugares”, disse Viana à reportagem.

Outro fator que contribui para isso é o histórico tímido de Clérice como jogador no Brasil. Nascido em São Paulo, em 25 de maio de 1941, em Santana, na zona norte, ele saiu da várzea com 15 anos para defender o Nacional-SP. Foi lá que se profissionalizou. Depois, passou rapidamente pelo Palmeiras e pela Portuguesa Santista.

Paralelamente, serviu ao Exército, tendo como técnico o major Maurício Cardoso, o mesmo que comandou Pelé no quartel e em competições de futebol. Clérice não chegou a jogar junto com o Rei, mas foi em duelo contra o Santos estrelado pelo camisa 10 que surgiu o convite para deixar o Brasil.

“Pelé vinha de um título mundial, aquele de 58, já era campeão pelo Santos e um dos maiores artilheiros do Campeonato Paulista. Quando chegou o jogo contra a Portuguesa Santista, o Clérice é o destaque, ainda que a partida tenha terminado sem gols. Nesse jogo, um emissário italiano, que procurava jogadores com ascendência italiana, vê o Clérice e o leva para a Itália”, disse Viana.

Um matador na Itália

A estreia de Clérice na Itália foi pelo Lecco, recém-promovido da Série B e estreando na Série A em 1960/61. Foi um começo tímido, com apenas três gols marcados.

Ao longo de sete anos, a história foi outra. Foi artilheiro da Série B, com 20 gols, em 1964/65, e deixou uma marca eterna: 66 tentos em 212 partidas. Segundo o livro, ele é o maior ídolo estrangeiro do Lecco.

Clérice ainda atuou pelo Bologna em duas passagens, além de defender a Atalanta, o Verona, a Fiorentina, o Napoli e a Lazio — já na temporada 1977/78, quando tinha 36 anos e era o único jogador estrangeiro na Série A.

Aliás, há uma explicação para isso no livro. Uma história com a qual muitos fãs jovens do Calcio podem não estar familiarizados, mas que também ajuda a entender mais sobre os feitos de Clérice.

“Em 1966, a Itália vai mal na Copa e é eliminada na fase de grupos. Por isso, o país fechou as fronteiras no futebol. Ficou determinado que estrangeiros não podiam ser contratados nem podem jogar a Série A, exceto os que já estavam por lá . A reabertura [da janela de transferências] para os estrangeiros se dá apenas em 1980. Durante esse período, Clérice se torna na temporada de 1978 o único jogador estrangeiro a se manter na Itália, porque o Mazzola tinha parado, outros dois tinham parado. Então, ele tem alguns números que são, de fato, mundiais. Isso ficou oculto, ficou escondido por diversos fatores, que foram abordados no livro”, disse Viana.

Um desses fatores é a ausência em convocações para a seleção brasileira. Algo comum, pelo menos, os anos 90. Jogadores brasileiros que atuavam no exterior dificilmente eram convocados. Clérice viveu seu auge nos anos 70, especialmente no período que compreende as Copas do Mundo de 1970 e 1974.

“Ele não tem essa dor. Inclusive, há uma declaração dele no livro em que ele diz que se arrepende um pouco de não ter ficado na Itália e estar morando lá hoje, como Mazzola. O que a gente entende, até pelos números, é que ele poderia estar na Copa ou ter tido chances numa dessas seleções, pelos números dele”, disse Viana.

Técnico e mentor de Dorival Jr.

Dorival Júnior dispensa apresentações. Hoje técnico do Corinthians, ele tem no currículo passagens por nove dos 12 grandes clubes do país. Na lista estão Atlético-MG, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo e Vasco, além da seleção brasileira. No início da carreira como jogador, quando era apenas chamado de Júnior, ele teve um mentor.

“Clérice lançou vários jogadores na Ferroviária que fizeram sucesso: Vika, que foi campeão brasileiro pelo Fluminense, Marinho Rã, campeão mundial pela seleção brasileira sub-20 em 1983, Douglas Onça, ídolo local, Marco Antônio, que fez o gol do Sport na final de 1987, e Dorival Jr.”, disse Viana.

“Em 1982, já na segunda passagem do Clérice como técnico da Ferroviária, é que Dorival começou a jogar no time. Dorival deu uma declaração dizendo que tem uma admiração grande pelo Clérice, embora não tenha especificado se ele se baseia no Clérice como técnico, mas eu entendo que sim. Basta você analisar as referências da vida que o Dorival teve. Apesar de todas as críticas, se você lembrar do Flamengo dele, da Libertadores, do São Paulo campeão da Copa do Brasil e de alguns outros times em que ele conseguiu implantar aquilo queele prega no discurso, ele gosta desse futebol técnico, de marcação, de toque, de saída de bola. Ele tem uma referência grande na vida dele, Dudu, seu tio, mas certamente esse era o futebol que Clérice gostava e que implementou como técnico”, disse Viana.

O período em que Clérice foi treinador é muito bem abordado no livro e é justamente a fase da qual os brasileiros que o conhecem mais se lembram ao ouvir seu nome

Ele comandou o Palmeiras, em 1980, que contava com Jorginho (futuro jogador da seleção brasileira) e Baroninho (que depois atuou pelo Flamengo). Em 1981, assumiu o Santos, onde dirigiu João Paulo, Elói e Pita, e o time foi vice-campeão do Mundialito de Clubes. Aliás, foi pelo alvinegro que ganhou destaque nacional pelas páginas da "Placar".

Clérice também teve várias idas e vindas na Ferroviária, onde conquistou o status de ídolo.

“Ele não foi homenageado ou reconhecido como merecia. O Jota Júnior, grande narrador, escreveu na contracapa do livro que poucos se deram ao trabalho de pesquisar a vida de um gigante como o Sérgio Clérice. Agora, ele está sendo homenageado. Talvez pelo livro. Talvez por outros motivos. A prefeitura de Araraquara está apoiando. A própria Ferroviária. Mas, lá atrás, faltou isso. É essa nossa falta de memória, e também por outras questões culturais e até estruturais, como a ausência de mídia naquela época. Ele ficou de fato esquecido. Se você for ao museu do Napoli, certamente verá algo do Clérice lá. Ainda bem que agora ele está recebendo homenagens porque ele está vivo, lúcido e feliz. Ele merece”, disse Rodrigo Viana.