Todos os anos nós vemos as listas com as melhores ligas nacionais do mundo. Acho sempre válido comparar, sou maluco mesmo por listas, mas às vezes é difícil ou injusto medir algumas coisas. Não há muitos confrontos em uma temporada entre clubes de continentes diferentes.
Então não é tão simples entender o peso e a força real das disputas em termos globais. Será que o Campeonato Mexicano, que tem bom investimento há tempos, fica mesmo atrás do Campeonato Saudita atualmente? Como saber se a MLS, a liga norte-americana profissional, é superior mesmo à J1 League, o Campeonato Japonês? Esse tema desperta bastante curiosidade, tanto que temos rotineiramente em programas de TV análises, debates e discussões sobre o assunto.
Se o Flamengo jogasse a Premier League, em que posição ficaria? Cansei de responder essa pergunta na televisão ou nas minhas redes sociais. Virou até meme falar de nível técnico após o desafio lançado pelo ex-jogador Carlos Alberto (hoje comentarista) para trazer o Real Madrid para disputar a Série B do Brasileirão (ele garantiu que o poderoso time espanhol não seria campeão da Segundona aqui, e isso foi bastante lembrado na fase de grupos do Mundial de Clubes após performances não muito convincentes de algumas equipes europeias).
A Copa Intercontinental, no formato antigo e no atual, oferece um número pequeno de duelos entre os times. Os resultados são na maioria das vezes lógicos, os mais esperados, porém há mais espaço para surpresas, para a aleatoriedade. O inovador Mundial de Clubes ofereceu muito mais partidas intercontinentais, e isso foi a grande atração da disputa, além do dinheiro cavalar dado pela Fifa aos participantes, um valor praticamente igual ao da Champions League.
Podemos apontar quais clubes saíram maiores ou menores da primeira edição do Mundial de Clubes, mas creio que agora é mais legal ver quais ligas nacionais ganharam mais destaque e projeção global. Todos os principais campeonatos do planeta estavam representados no torneio da Fifa nos Estados Unidos.
O campeão foi um time que ficou em quarto lugar na Premier League, o que mostra bem o poderio atual da liga inglesa, a que paga mais para seus participantes (inclusive bem mais do que a Champions League). O único representante da Ligue 1 foi vice-campeão, mas, devido ao domínio gigante do Paris Saint-Germain em âmbito nacional nos últimos anos, não dá para ver muito seu sucesso em 2025 como uma grande vitória do Campeonato Francês. Se eu vejo o triunfo dos Blues como uma prova de força da Premier League e não encaro a grande fase do PSG como uma conquista coletiva da Ligue 1, coloco a liga saudita em uma condição intermediária, pois o Al Hilal, que venceu 6 dos últimos 9 campeonatos de seus país, ficou em 7º lugar no Mundial.
Inegavelmente, a Arábia Saudita está investindo bastante no futebol recentemente, mas sabemos que isso se dá mais em alguns clubes da família que reina no país do que em outros, que apresentam um nível bem mais baixo. Creio que o Campeonato Brasileiro foi, no final das contas, quem mais ganhou projeção e respeito no mundo, por diversos fatores, e tentarei explicar todos aqui, com alguns números e também com algumas notícias e impressões.
O Brasil foi o único país com quatro representantes na disputa, isso porque quatro clubes diferentes venceram a CONMEBOL Libertadores nos últimos anos (Palmeiras, Flamengo, Fluminense e Botafogo). Muito por conta disso, logicamente, houve um número expressivo de torcedores e de jornalistas brasileiros nos Estados Unidos. Com mais partidas de times do nosso país, o assunto futebol brasileiro passou a ser frequente nas coletivas de imprensa, tanto que vários nomes de peso da competição acabaram falando sobre o tema (Guardiola, que nem enfrentou time brasileiro na disputa, chegou a dizer “bem-vindo ao mundo real” para o jornalista que o indagou sobre as vitórias dos times sul-americanos contra os europeus).
Claro que com a boa performance dos brasileiros, sobretudo na fase de grupos, os olhares dos times do Velho Continente sobre os jogadores que vinham atuando no Campeonato Brasileiro aumentaram consideravelmente. Não é à toa que o Wolverhampton está levando Jhon Arias, um dos melhores do Fluminense e do Mundial, que a Roma está louca por Richard Ríos, do Palmeiras, e por Wesley, do Flamengo. O Zenit, que consumou a compra de Gerson, também ofereceu pagar o que o Palmeiras quer por seu volante colombiano. Os clubes brasileiros que foram para o torneio da Fifa ganharam excelente montante disputando a competição e ainda estão lucrando com vultosas vendas na esteira da competição global.
Foi mesmo uma singular vitrine para o futebol mundial, em todos os sentidos. Renato Gaúcho, semifinalista mesmo com uma equipe sem tanto investimento, passou a ser mais reconhecido e valorizado, e talvez Filipe Luís tenha dado um sinal para a Europa que um dia pode trabalhar lá como técnico também (afinal ele foi o único que venceu o campeão Chelsea.
A autoestima do torcedor brasileiro também cresceu, em especial com a vitória do Botafogo, atual campeão da Libertadores, sobre o Paris-Saint-Germain, vencedor da Champions League que vinha distribuindo goleadas. Por que não sonhar com uma nova vitória de time brasileiro campeão da Libertadores sobre o PSG na decisão da Copa Intercontinental Fifa no final deste ano?
Mas em que patamar mesmo está o Campeonato Brasileiro no mundo neste momento? Na lista da IFFHS (Federação Internacional de História e Estatística do Futebol Mundial), o Brasileirão aparece como a quarta melhor liga nacional de 2024, atrás do Italiano, do Espanhol e do Inglês, ficando à frente do Alemão, do Argentino, do Português, do Francês, do Belga e do Holandês, respectivamente.
A IFFHS, entidade com a qual eu colaboro há muitos anos, conta nesse ranking os resultados dos clubes em dezenas de ligas, nacionais e internacionais. Então essa lista varia bem de ano para ano de acordo com os resultados dos clubes, sobretudo nos torneios continentais. Uma outra lista, da SportingPedia, vai pelo lado financeiro, basicamente o valor conjunto de cada liga. Estão nas primeiras posições, respectivamente, a Premier League (€ 11,77 bilhões), La Liga (€ 5,29 bilhões), a Serie A (€ 5,07 bilhões), a Bundesliga (€ 4,48 bilhões), a Ligue 1 (€ 3,52 bilhões), o Brasileirão (€ 1,63 bilhão), a Liga Portugal (€ 1,59 bilhão), a Eredivisie (€ 1,28 bilhão), a MLS (€ 1,24 bilhão), a Super Lig (€ 1,15 bilhão), a Saudi Pro League (€ 1,02 bilhão), o Torneo Apertura argentino (€ 962 milhões) e a Jupiler Pro League (€ 960 bilhões).
Como vemos, o Campeonato Brasileiro passa a ser o sexto do mundo nesse olhar econômico, sendo o mais caro fora da Europa. A chegada de algumas SAFs ao Brasil e a boa administração de alguns clubes que ainda são quadros associativos estão turbinando bem financeiramente o Brasileirão, mas ainda há uma diferença considerável em valor para a liga francesa, a quinta colocada, embora não tenha hoje tanta competitividade.
Segundo um levantamento da empresa Opta, especialista em estatísticas, o Brasileiro também figura na sexta posição no planeta atualmente. Nesse ranking elaborado com base nos resultados dos clubes (mais de 13 mil times de futebol foram analisados), a nossa Série A registrou 80,8 pontos, ficando atrás da Premier League (87,9), da Serie A (86,2), da Bundesliga (86,2), de La Liga (85,1) e da Ligue 1 (85,1). Nosso campeonato supera a Jupiler Pro League (79,2), a MLS (78,2), a segunda divisão inglesa (77,6) e a Liga Profesional argentina (77,5).
O Mundial de Clubes nos dá agora a chance de usar um outro parâmetro para comparar as ligas nacionais, com base no confronto direto e na posição dos times nesse campeonato tão global. Os clubes brasileiros ficaram nas posições de número 4, 8, 11 e 14 dentre os 32 participantes.
Fazendo uma média dos quatro times, o Brasil ocuparia entre a nona e a décima posição (9,25). A Premier League, dentre os campeonatos com mais de um time envolvido na competição, fica em primeiro lugar, pois teve o campeão e o nono colocado (para a surpresa de muitos, o Manchester City caiu nas oitavas e ficou em nono lugar). Na média, o Inglês ficaria na quinta posição. A Bundesliga foi bem também, com times na quinta e na sexta posição (5,5 de média), acima do Brasil. O Espanhol (10 de média), o Italiano (12,5), o Português (16,5), o Argentino (21,5), o Mexicano (22) e a MLS (24) foram piores no Mundial do que nossa Série A.
Alguém pode lembrar que a disputa no verão norte-americano, com dezenas de milhares de torcedores sul-americanos nos estádios, pode ter dado algumas vantagens para os nossos clubes, porém, no final das contas, os europeus, em fim de temporada e talvez com um pouco menos de foco nessa nova competição em alguns momentos, acabaram fazendo a decisão. O Chelsea venceu o favorito Paris Saint-Germain e deu à Inglaterra o primeiro título do nobre Mundial.
Os ingleses demoraram a jogar a Copa do Mundo de seleções (estrearam só em 1950 no Brasil), pouca importância deram para o primeiro Mundial de Clubes chancelado pela Fifa (o Manchester United curtiu o verão carioca em 2000), mas largaram com força nesse novo formato de Mundial. E podem fazer até uma sequência de títulos se for aprovado o fim do limite de clubes por país. O Liverpool e o Arsenal, mesmo sendo times top na atualidade e no ranking da Uefa, ficaram de fora dessa primeira edição porque já estavam na disputa o Chelsea e o Manchester City.
Imagine os Reds, atuais campeões da Premier League, e os Gunners nos lugares de Red Bull Salzburg e Porto no Mundial. Seria muito mais complicado para a concorrência, e a badalada liga inglesa teria o dobro de chances de terminar com o título.
O técnico Enzo Maresca, que levou os Blues ao título mundial, disse que a competição pode, no futuro breve, superar em importância a Champions League. Se isso for verdade mesmo, a Europa e as ligas nacionais mais poderosas serão ainda mais favoritas na competição. De momento, o Brasileirão é o melhor campeonato fora do Velho Continente, seja qual for o critério adotado. E tem potencial de crescimento para ficar, talvez, só atrás da Premier League.
Vou tirar umas agora duas semaninhas de férias, mas volto em agosto, assim como voltarão os campeonatos nacionais europeus. Estarei de olho, em especial, na minha amada Premier League, a liga que tem o gelado Palmer ainda mais como atração (foi eleito oficialmente o melhor jogador do Mundial de Clubes), e, claro, no nosso ótimo Brasileirão, que tem tido cada vez mais repercussão mundo afora, como vimos mais claramente no belo gol de Neymar contra o Flamengo na Vila Belmiro.
Vou dar um pulinho ali na Europa, que ainda reúne a nata da modalidade e que puxa muito a minha paixão antiga pelo futebol internacional, mas eu voltarei feliz depois para o Brasil que amo, rezando para meu time não ser rebaixado.
