Você provavelmente se lembra de Fabinho Félix, de passagens por Corinthians, Santos, Bahia, São Caetano, entre outros clubes. Polivalente, atuava como volante e lateral e seguiu carreira como dirigente após deixar os gramados. Agora talvez você não conheça Tio Zica, um tipo de cidadão em extinção, que foi fundamental para a carreira do ex-jogador.
Seu nome é Ezequiel Dias da Silva, embora poucos o conheça assim em São Bernardo do Campo, onde, no final dos anos 90, começou a se dedicar a crianças e adolescentes de periferia. Na época, muito pouco se falava da importância do esporte como ferramenta de transformação social, mas ele provou na prática que isso é verdade.
Tio Zica não tem formação universitária, mas seus métodos de ensino, criados por ele mesmo, vão além de das salas de aula de uma faculdade. Ele é um professor autodidata que, ainda jovem, resolveu arregaçar as mangas e desafiar todo e qualquer perigo que tirasse ou desviasse a vida de um garoto pobre no ABC.
Foi para a luta sem pensar em ganhar dinheiro ou para fazer política em épocas de eleição. Foi para o campo do Esporte Clube Madureira, numa comunidade carente de tudo, no subúrbio de São Bernardo, com o intuito de ensinar futebol e colocar os alunos num caminho que não fosse a marginalidade, um mal que assola a comunidade até os dias atuais.
Seu trabalho, reconhecido por poucos políticos da cidade, o levou a ser contratado pela prefeitura. Daí para frente, sua missão se espalhou, atingindo não só a região do Baeta Neves, mas também outros núcleos carentes da região.
Tio Zica garimpou muitos jovens que se tornaram grandes atletas, como o campeão mundial Mauro Silva ou Deco, ex-Barcelona e seleção de Portugal, além, claro, de Fabinho. É que o ex-Corinthians é até hoje alguém que não abandonou o mestre, que, segundo ele, mudou sua vida no terrão do Madureira.
“Foi o professor Ezequiel que me ensinou a jogar futebol. Eu me lembro que uma vez ele chegou para mim e falou: se você quiser virar um atleta profissional, aprenda a driblar todas as pedrinhas do campo de terra. E olha que, num campo de terra, o que não faltam são pedrinhas”, relembrou, rindo, Fabinho.
Unidos contra o preconceito
Fábio Félix nasceu na favela. Filho de faxineira, ele morou durante a infância e adolescência num barraco de três cômodos com chão de terra batida. Em sua casa, além de faltar alimento, ele conta que sua família não tinha banheiro, e as necessidades fisiológicas eram feitas no mato dos fundos de sua residência.
Além de vaso sanitário, o barraco da família também não tinha chuveiro, e os banhos eram tomados nas casas de tios ou vizinhos... Fabinho, quase literalmente, comeu o pão que o diabo amassou – isso é, quando tinha pão...
Mas as dificuldades de mais um garoto pobre, entre milhões no Brasili, não paravam na miséria do dia a dia. Fabinho, assim como seus irmão, nasceu com polidactilia, uma anomalia também conhecida como dedo extranumérico, uma malformação congênita caracterizada pela formação de seis dedos ou mais nas ou nos pés.
Fabinho viveu na pele a face mais perversa do bullying, quando o termo ainda nem tinha surgido no Brasil. Ele lembra que, na escola, as “brincadeiras” eram pesadas por causa do dedo a mais não mãos. Muitas vezes se envolveu em brigas por não suportar as ofensas – acabava na maioria das fezes punido na escola, obrigado a hastear a bandeira durante um mês.
Mas Fabinho teve também a sorte grande de conhecer, aos seis anos de idade, o professor Ezequiel, um treinador que trabalhava como os meninos carentes a duas quadras de sua casa. Com Tio Zica, encontrou um rumo na vida, em um lugar onde o mais comum era encontrar o corpo de garotos mortos, vítimas de desavenças pelo envolvimento com o tráfico.
“A gente viu muito amigo se perder. Sem falar de quatro ou cinco amigos que foram assassinados na comunidade, só ali na rua que a gente viu, sabe? Quantas vezes parou o treino para a gente ver um amigo que estava com a gente na escolinha que aparecia morto ali”, relatou Fabinho.
Assim como o aluno, o professor Ezequiel nunca se rendeu a criminalidade. Pelo contrário, enfrentava os traficantes em suas “bocas de drogas” e botava para correr qualquer cidadão que aparecesse usando narcótico ou consumindo bebida alcóolica perto de seus alunos. Tio Zica nunca desistiu de seus alunos e, com Fabinho, não foi diferente.
Quando o menino não aparecia nos treinos, lá estava o professor batendo palma no barraco dele para levá-lo para o terrão, onde ele não ensinava apenas o futebol, mas sim cidadania e consciência moral.
Fabinho só saiu das mãos do professor quando passou em um teste no São Caetano e, de lá, voou para o Corinthians, time de coração de tio Zica, para depois seguir carreira internacional, jogando na França, Japão, além de passagens por Santos, Cruzeiro, Bahia e novamente São Caetano, para encerrar a carreira.
A consciência de Tio Zica
Ezequiel é daqueles raros cidadãos que carrega o trabalho como uma missão e não como moeda de troca. Daqueles que dá com uma mão sem estender a outra buscando algum benefício. Tio Zica é um vocacionado no que escolheu para a vida...
Tanto que, em 2006, quando Fabinho estava com sua situação financeira estabilizada, quis retribuir ao mestre com um presente grandioso, por tudo que ele fez, não só pelo próprio Fabinho, mas para milhares de seres humanos que passaram por sua escolinha.
A história, que já não é mais lenda, conta que certo dia Fabinho passou de carro para levar Tio Zica para visitar uma casa que, supostamente, estaria comprando como investimento. Chegando à residência, o então jogador mostrou os cômodos a tio Zica e, no final, perguntou: “O senhor gostou da casa? Acha que devo compra-la?”
“Bela casa, filho. Pode comprar”, respondeu, imediatamente, Ezequiel. Foi quando Fabinho, então, surpreendendo o professor, tirou as chaves do bolso e disse: “É sua, Tio. Comprei para o senhor como forma de gratidão, por tudo que o senhor fez por mim”.
Essa história, guardada a sete chaves, vem à tona depois de quase 20 anos, pois à época, Tio Zica e sua família moravam de aluguel. Perguntado sobre o episódio, Fabinho contou a seguinte versão:
“Eu só cheguei onde eu cheguei por causa do Ezequiel. Muitas vezes, ele tirava o que tinha no bolso para pagar minhas passagens de ônibus e alimentação. E, quando a minha situação se estabilizou, melhorou, eu sabia que o Tio Zica sempre morou de aluguel. Eu peguei um valor que não quero estipular aqui, mas era alto, dava para comprar uma casa, sim. Aí fiz o depósito bancário e falei: ‘o senhor faz o que quiser com o valor’. É uma forma de agradecer por tudo que ele fez, transformando a minha vida, pois, se não fosse ele, estaria até hoje trabalhando de limpador de peças em uma oficina mecânica.”
A filha mais nova de Tio Zica, a comissária de bordo Daniela Dias, confirma a história de que Fabinho levou, sim, seu pai a uma casa para lhe-presentear como surpresa. Mas o final dessa história é ainda mais surpreendente...
“A história é essa mesma. O Fabinho levou meu pai para lhe oferecer a casa como presente. Mas o detalhe mais importante desse lindo episódio é que o meu pai recusou o presente. Disse na época que nunca fez nada por seus alunos pensando em recompensas e foi além, falou para o Fabinho que o que ele fez por ele e por outros tantos jogadores que nunca mais entraram em contato era uma missão que ele traçou para a sua vida. Disse que jamais aceitaria um presente daquele e que ele não fez nada além de sua obrigação.”
Passando o bastão
Aos 80 anos, tio Zica quer outro presente de Fabinho. Quer vê-lo assumindo o trabalho com as crianças que ele não consegue fazer mais no EC Madureira.
Por lá, há quatro décadas, Tio Zica desenvolveu não só a aptidão de jogadores, mas também encaminhou milhares de jovens para o primeiro emprego, para os estudos em universidades... Hoje, passado tanto tempo, Tio Zica só quer visitar o Madureira e ver seu discípulo Fabinho dando continuidade ao seu legado. Ele sabe que as escolinhas de lá já não existem mais e que o futebol amador daquele clube que ele tanto ama está praticamente falido.
Fabinho, por sua vez, têm planos e fez a promessa, gravada por nossa equipe no encontro entre os dois, de que fará das tripas coração para não deixar o projeto de vida de Tio Zica, que mudou milhares de vidas, morrer... Para que o mestre possa curtir a merecida aposentadoria, lutando contra alguns problemas de saúde, mas, acima de tudo, com a consciência tranquila de que foi um cidadão de verdade. Um homem de caráter e coração.
