Algumas palavras com um leve sotaque carioca e o uso do diminutivo para adjetivar outras. Gael García Bernal, 45, aprendeu português com o diretor Walter Salles, com que trabalhou em “Diários de Motocicleta”. Mas não foi apenas isso. O ator e galã mexicano, protagonista da série “La Máquina”, que estreia neste 9 de outubro no Disney+, adotou também um clube brasileiro.
“No Brasil, meu time é o Botafogo”, disse em entrevista exclusiva para ESPN, antes da pré-estreia da série, na Cidade do México. E, detalhe, em português. “Sou Botafogo por causa de Waltinho Salles”.
Foi simpático como Diego Luna, 44, outro protagonista da série e com quem nutre uma amizade de infância e uma parceria nas telas de 32 anos. No México todos sabem que eles são torcedores do Pumas. Mas, se é que possível dizer isso, são muito mais aficionados pelo boxe, tema de “La Máquina”.
“O boxe é uma ferramenta social e é uma ferramenta que acostumou os mexicanos a vencerem. Quando perguntam qual é o esporte nos dá orgulho esse esporte é o boxe. Eu sou de uma geração que parava em frente à TV para ver Julio César Chavez [seis títulos mundiais de boxe em três categorias diferentes] e não importa quem era o oponente ele vencia”, disse Diego Luna durante a pré-estreia.
Gael levou a paixão para outro nível. Aos 14, começou a treinar boxe. Nunca se profissionalizou, mas desenvolveu amizades, como Saúl “Canelo” Alvarez, hoje o maior pugilista da atualidade no país.
Foi justamente nesse contexto de paixão, admiração e respeito pela história do boxe mexicano que a dupla criou a história de “La Máquina”, uma obra ficcional, que para os fãs de boxe está repleta de “easter eggs” do mundo dos pugilistas e, importante, não apenas do universo mexicano.
Além disso, dois pugilistas profissionais aparecerem. O filipino Mercito Gesta faz ao mesmo tempo o papel de algoz e vítima do protagonista. Já o britânico Christopher Evangelou faz Harry Félix o desafiante ao título de unificação, numa luta mostrada apenas no sexto e último capítulo da série.
“Foi uma ideia que nasceu quando estávamos caminhando em Berlin em um festival de cinema. Paramos para comer um Kebab e falamos desse interesse que o boxe nos causava. Eu já treinava, e Diego estava fazendo um documentário sobre a trajetória de Julio César Chávez”, disse Gael à ESPN.
Isso faz mais de 15 anos, o que leva Diego Luna a fazer uma brincadeira. “Gael precisava envelhecer para interpretar o papel principal. Fizemos bem em esperar”.
A personagem de Gael é Esteban “La Máquina” Osuna, já um veterano no mundo do boxe que deseja encerrar a carreira de forma digna. Luna faz Andy Luján (numa produção de maquiagem que faz o ator estar totalmente diferente e surpreender o público), o manager e também amigo de infância de Esteban, que é muito vaidoso, excêntrico e acaba colocando os dois na rota do crime organizado.
Podemos apontar que essa é a trama principal, mas há muitos outros elementos e subtramas que fazem com que “La Máquina” transite tranquilamente pelo humor, pela ironia e, por que não, pelo triller.
A química que Gael e Diego Luna tem em cena é um dos pontos mais altos. Não é casual. Eles fizeram o primeiro trabalho juntos em 1992, uma novela infantil mexicana que, no Brasil, se chamou “Vovô e eu”. Em 2001, estrearam no cinema juntos com o premiado “E sua mãe também”.
Sete anos depois levaram um tema sobre futebol com “Rudo e Cursi”, dois irmãos que acabam se tornando rivais por jogarem em times diferentes. Por fim, fizeram juntos “Casa di mi padre”, que, embora não tenham sido os protagonistas, foi o último trabalho juntos em tela, há 12 anos.
‘Foi muito agradável trabalhar com eles. Essa química que eles trazem foi construída há muitos anos, de uma amizade que está junto deles em todos os momentos. Algumas vezes, aconteciam coisas que ninguém entendia e eles começavam a rir juntos na cena. Eu tinha de parar, pedir para eles: ‘Como é rapazes?’. Só assim para continuar a filmar. Foi uma delícia estar com eles”, disse o diretor Gabriel Ripstein ao microfone da ESPN Brasil, durante o Red Carpet de pré-estreia.
Mas a dupla também lidou com a dor. Diego Luna revelou que durante as gravações dos seis episódios ele e Gael estavam de luto pela perda, ao mesmo tempo, de seus pais. Disse que eles tiraram apoio justamente da maior metáfora do boxe: “Às vezes, perder é ganhar, cair é levantar”.
“A verdade é que pensamos em toda a história para que fosse original. Então, o protagonista e a ex-mulher são quase como melhores amigos, a corrupção, as relações. Mas basicamente contamos a história de um boxeador que está se despedindo e quisemos armar uma situação para mostrar isso que muitas vezes vencer pode ser perder e perder pode ser vencer”, disse Gael ao público.
A série “La Máquina” tem seis episódios, com duração de pouco mais de 40 minutos, e está disponível no Disney+.
