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Estrelas fora, seleções eliminadas dentro: entenda a polêmica dos álbuns de figurinha da Euro 2024

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Mbappé treina com nariz enfaixado após sofrer fratura na estreia da França na Eurocopa (1:23)

O jogador fraturou o nariz na estreia dos franceses, na última segunda-feira, na vitória por 1 a 0 sobre a Áustria. (1:23)

A Eurocopa completa nesta sexta-feira (21) uma semana com jogos eletrizantes e futebol vistoso nos campos da Alemanha. Diversas seleções já mostraram suas credenciais para sonhar com o título. Entretanto, longe dos gramados, há uma rivalidade que talvez seja mais intensa e maior (certamente mais curiosa): o confronto cada vez mais acirrado entre os álbuns de figurinhas do torneio.

O álbum oficial da Euro 2024, produzido pela empresa Topps, conta com José Mourinho, técnico bicampeão da Uefa Champions League, como garoto-propaganda. Entretanto, dentro de suas páginas, ele não conta com os uniformes oficiais de algumas das maiores seleções e nem com alguns dos maiores craques do torneio, mas inclui algumas equipes que não se classificaram para a competição, bem como jogadores que nunca chegaram nem perto de serem convocados.

Já a Panini, a antiga detentora dos direitos das figurinhas, lançou um álbum de qualquer maneira. Sua versão apresenta cinco das principais seleções do torneio, com todos os astros em seus uniformes oficiais.

"A Panini lançou seu próprio álbum, mas você não vai comprar dois álbuns, né?" diz Chris Abbott, torcedor da Inglaterra, que está colecionando as figurinhas oficiais da Topps com seu filho pequeno. Sem investir seu tempo e dinheiro nos dois produtos, a dupla nunca conseguirá reunir todos os seus jogadores favoritos.

Foi o fim de uma era quando a Topps, que pertence à Fanatics, varejista de esportes americana, anunciou que estava substituindo a Panini como detentora dos direitos de distribuição de figurinhas para a Eurocopa masculina de 2024 e 2028, a Eurocopa feminina de 2025 e as finais da Uefa Nations League até 2028. A empresa italiana produziu todos os álbuns da Eurocopa de 1977 a 2020, e ainda ostenta os direitos da Copa do Mundo, que detém desde 1970.

"[Colecionar] Os álbuns de figurinhas da Panini era uma grande parte da preparação para qualquer torneio (porque), antes da era da Internet, você nunca tinha visto aqueles rostos", diz à ESPN Greg Lansdowne, autor de "Stuck on You: The Rise and Fall... and Rise of Panini Stickers" (algo como “Grudado em você: Ascensão e Queda... E Ascensão das figurinhas da Panini"). "Você nunca tinha visto jogadores de El Salvador ou de Honduras em lugar nenhum. Naquela época, isso era simplesmente impossível. Então, no álbum de figurinhas da Panini, eles eram uma novidade. E depois, quando você os assistia na televisão durante o jogo, dizia: 'Ah, eu o conheço do álbum'".

Ausências marcantes no álbum oficial

Devido a acordos de licenciamento, quatro superpotências do futebol – Itália, atual campeã, Inglaterra, vice-campeã da Euro 2020, França, finalista da Copa do Mundo de 2022 e a Alemanha, anfitriã do atual torneio – não aparecem em seus uniformes oficiais no produto Topps.

Jogadores da seleção inglesa, como Fikayo Tomori, do Milan, Jordan Henderson, do Ajax, Jack Grealish e Rico Lewis, do Manchester City, Mason Mount, do Manchester United, e Callum Wilson, do Newcastle, aparecem no álbum da Topps, mas não figuram na convocação final da Inglaterra. Se você estiver procurando por figurinhas oficiais de Phil Foden, John Stones ou Bukayo Saka, ficará desejando.

"A Topps está orgulhosa de sua primeira coleção de figurinhas para a próxima Eurocopa", disse a Fanatics Collectibles em um comunicado fornecido à ESPN. "Embora estejamos desapontados com a falta de um pequeno número de jogadores, isso se deve ao fato do antigo parceiro do torneio ter bloqueado certas partes da coleção em detrimento dos torcedores. Ao contrário dele, estamos comprometidos com os fãs e acreditamos que a oferta de figurinhas e cards - junto com uma combinação variada de jogadores atuais e antigos - deixará todos animados para o torneio".

A Inglaterra, assim como os outros países mencionados acima, pode ser encontrada em seus uniformes oficiais no álbum da Panini. A Espanha, por sua vez, é a única seleção que aparece com seus uniformes oficiais em ambos os produtos.

"A Panini é sinônimo de futebol há mais de 60 anos. E continuamos comprometidos em produzir o melhor produto possível para as próximas gerações dos nossos colecionadores", disse a Panini em um comunicado à ESPN. "Estamos extremamente orgulhosos de deter os direitos oficiais da seleção principal da Inglaterra, e nos sentimos entusiasmados em criar produtos oficiais dentro dos direitos disponíveis para nós".

Outros craques também estão faltando no livro da Topps, incluindo o vencedor da Chuteira de Ouro na última Copa do Mundo e um dos jogadores mais experientes da nação anfitriã. "Kylian Mbappé e Manuel Neuer não estão no álbum da Topps", diz Lansdowne. "Há muitos jogadores da Inglaterra que, se você conhece o futebol inglês, vai olhar para eles e pensar: 'Por que estão aqui?’”.

Nada contra Luke Thomas, do Leicester City, mas o zagueiro que passou a segunda metade da temporada emprestado ao Middlesbrough, da Championship, provavelmente nunca receberia uma convocação tardia para a equipe de Gareth Southgate para este torneio. Mas o jogador de 23 anos está presente entre os jogadores ingleses no álbum da Topps, enquanto muitos dos principais membros da equipe na Alemanha estão disponíveis apenas para os colecionadores da Panini.

"Não podemos comentar por que nossos concorrentes optaram por deixar vários jogadores fora de sua oferta de produtos", continua a declaração da Panini à ESPN.

Dificuldade de completar a coleção

No final da década de 1980, uma empresa chamada Merlin Publishing foi fundada por ex-funcionários da Panini. Lansdowne diz que a Merlin "fez seu nome" produzindo álbuns de figurinhas de astros da luta livre depois que os shows da WWE e da WCW, principais companhias da modalidade, começaram a ser transmitidos no Reino Unido. "Isso deu à Premier League a confiança necessária para conceder a eles a licença para fazer um álbum da competição em 1993/94. Então, dois anos depois, eles foram vendidos para a Topps", acrescenta Lansdowne.

A Topps, que por sua vez foi comprada pela Fanatics por cerca de R$ 2,7 bilhões em janeiro de 2022, ganhou os direitos da Premier League para trading cards e figurinhas da Panini no mês passado, tendo sido anteriormente parceira da liga de 1994 a 2019. Esse acordo plurianual entrará em vigor a partir da temporada 2025/26. A Fanatics também conseguiu os direitos dos cards da NBA e da NFL da Panini.

A concorrência acirrada pelos direitos de licenciamento nos últimos anos – e as somas investidas neles – reforça o quão lucrativo o mercado de colecionáveis é atualmente. A popularidade das figurinhas de futebol havia diminuído desde seu apogeu, mas, de acordo com a Lansdowne, experimentou um renascimento durante a Copa do Mundo de 2006 que ainda não diminuiu. Terminar um álbum antes de um grande torneio era um rito que continua a ser passado de geração em geração.

De acordo com Abbott, que está ajudando seu filho Fionn, de 4 anos, a colecionar seu primeiro álbum de figurinhas, a finalização tem se mostrado difícil. "Ainda precisamos de mais 150 adesivos", disse à ESPN o operador de turismo de bicicleta de Whitstable, Inglaterra. "É um pouco ruim. Você não está representando os jogadores certos, [há muitas] repetidas e é difícil de completar porque não conhecemos ninguém que esteja colecionando, então não podemos trocar, como eu costumava fazer no parquinho".

O kit inicial da Topps para Euro 2024 – que inclui um álbum em branco, 24 figurinhas e 10 pacotes com seis cromos cada – custa 15,99 libras (cerca de R$ 110) no site da marca no Reino Unido. Cada pacote de figurinhas individual subsequente custa £1 (R$6,86). O livro tem 88 páginas e espaço para 728 adesivos. "Estava realmente animado para completá-lo, mas talvez nós não consigamos", continua Abbott.

Algumas estimativas colocam o custo de completar os dois álbuns na casa dos R$ 6,5 mil. Isso se torna significativo levando em conta que o Reino Unido foi recentemente afetado por "quedas históricas na renda familiar realmente disponível" que levaram a inflação "à sua maior taxa em 40 anos", de acordo com o Escritório de Responsabilidade Orçamentária do Tesouro do Reino Unido, o custo não é apenas alto para muitas pessoas. É impossível de justificar.

Para Abbott, um torcedor de longa data do Tottenham, é simplesmente mais uma parte de ser um fã de futebol em 2024: "O futebol está muito mais corporativo hoje em dia, a Premier League é uma liga global agora, eles não têm mais como alvo os torcedores nacionais", diz ele.

"Uma boa parte dos torcedores sente falta do futebol como ele era: Conseguir um ingresso no portão, sem precisar reservá-lo on-line com dois meses de antecedência. Eu costumava ir aos jogos com os amigos; quando meus filhos forem mais velhos, ir aos jogos comigo é a única maneira de eles poderem comprar um ingresso", conclui.

*Tradução: Vinicius Garcia