O mais caro estádio da Copa do Mundo de 2014, consequentemente do Brasil, é ainda hoje o que menos jogos recebeu entre os 12 daquele Mundial. Da sua inauguração até 12 de junho deste ano, aniversário de 10 anos do torneio, o Mané Garrincha, em Brasília, contabiliza 222 partidas oficiais.
Mesmo com decisões nos últimos anos, como a Supercopa do Brasil e a Recopa Sul-Americana, e tendo recebido ao menos um vez cada um dos 12 maiores do Brasil, a Arena pena para ter um calendário a altura do valor de construção (R$ 1,4 bilhão).
Foi no ano da Copa que recebeu o maior número de jogos em uma só temporada: 30. Temporada passada foram 12. Em 2024, até agora, apenas seis.
Os outros 11 estádios do Mundial receberam bem mais de 300 jogos cada um desde suas inaugurações até hoje, sendo que Maracanã (684), Castelão (678) e Arena Pantanal (545) lideram o ranking de partidas, segundo pesquisa da própria ESPN (veja abaixo).
Para se ter ideia do quanto o Mané Garrincha está abaixo da média basta comparar com estádios que não são fazem parte da elite nacional. Por exemplo, o campo do Juventus na rua Javari, em São Paulo, que completa 95 anos em 2024, recebeu 252 jogos entre 2014 e hoje, de divisões menores do Paulista, Copa Paulista e Copinha.
Uma das dificuldades de Brasília para emplacar o Mané Garrincha é que o futebol local não conseguiu se desenvolver, como a Fifa e os organizadores da Copa de 2014 prometiam.
Hoje, as principais forças locais são Real Brasília e Brasiliense, que jogam a Série D masculina. No universo feminino há o Real Brasília na A1 e o Sobradinho e o Cresspom na A3. Mas eles não usam o Mané Garrincha. Preferem seus próprios estádios.
Como o problema é antigo, o governo do Distrito Federal decidiu passar o Mané Garrincha para a iniciativa privada, o que ocorreu no final de 2019. Desde então, o grupo Arena 360 vem tentando mudar a gestão do local (fazem parte do contrato o ginásio Nilson Nelson e o Complexo Aquático Cláudio Coutinho).
"É um contrato de 35 anos no qual vamos pagar de outorga cerca de R$ 150 milhões pelo período, mais 5% do faturamento, além de um investimento previsto de em torno de R$ 700 milhões", disse Bernardo Bessa, diretor de operações da Arena BSB.
"De dois anos para cá, recebemos a final da Superliga de vôlei, a Liga das Nações, jogos do NBB, uma etapa da Billie Jean Cup, UFC, Sand Séries de beach tênis, entre outros, e eventos institucionais, como a Casa Cor", disse sobre a nova estratégia de uso do local.
"O menor camarote que eu tenho aqui dentro tem 54 metros quadrados. Eles são muito grandes. Fizemos o quê? Transformamos esse andar de camarote nosso numa laje corporativa. Hoje eu tenho 100% dos meus camarotes locados, com empresas funcionando. Eu tenho mais de 1.000 pessoas que trabalham dentro do estádio. Hoje são 53 empresas com 1.100, 1.200 funcionários", disse sobre os resultados.
Bessa destaca que as pessoas devem começar a perceber os resultados da mudança a partir de agora, uma vez que o primeiro triênio sofreu com a pandemia de Covid-19. Ele defende que a privatização da Arena trará benefícios para a cidade. Primeiro por reduzir uma despesa significativa dos cofres públicos. O custo oficial anual do Mané Garrincha ficava entre R$ 12 e 13 milhões, valor que não inclui energia elétrica, água, limpeza e manutenção da área no entorno etc. Outro ganho, segundo ele, é o impacto financeiro na economia local, com turismo e serviços.
“Um show, como nós fizemos do Paul McCartney ou do Red Hot Chili Peppers, só de credenciados, que são trabalhadores no evento, empregamos mais de 5.000. O impacto na economia nos eventos em 2023 no nosso complexo foi de 1,7 bilhão de reais. Só o show do Red Hot foram 189 milhões de reais injetados na economia”, afirma. "Em 2015, o estádio fez 60 eventos. Nesse ano, até abril, já realizamos 51.”
Mas para uma área que custou tanto, com seu orçamento de R$ 1,4 bilhão e seus 72.000 lugares, a falta de jogos de futebol ainda é um peso e uma sombra. "Faço a você um convite de pesquisar os últimos cinco anos do Campeonato Brasileiro. Te garanto que a Arena de Brasília vai aparecer entre os cinco e dez maiores públicos. Isso mostra que a população responde. Os shows mostram isso. O que nós não temos e a gente tem que trabalhar como cidade e tentar botar um clube brasiliense de novo ou na Série A ou na Série B. Temos que seguir o exemplo do que tá acontecendo com o Cuiabá, com o Amazonas, para botar de novo o futebol local em voga", disse Bessa.
Manaus e os recursos públicos
Assim como o Mané Garrincha, a Arena da Amazônia sofreu com ataques de que seria um "elefante branco" após a Copa de 2014 pela falta de força do futebol local.
Dez anos depois, o estádio realizou 460 jogos e é o quinto entre as 12 arenas usadas naquele Mundial. Além disso, o Amazonas FC conseguiu chegar a Série B deste ano, quebrando um jejum de 18 anos sem nenhuma equipe do estado na divisão.
A Arena da Amazônia diferentemente do Mané Garrincha continua sob o guarda-chuva do poder público. A diferença é que os investimentos públicos lá foram maiores para manter um calendário de eventos com futebol, além da ajuda dada aos clubes de Manaus.
"A retomada do futebol amazonense se dá a partir de investimentos do governo do Estado nos clubes profissionais. Foram cerca de 2 milhões de reais em 2021. Depois 5 milhões de reais em 2022. E, em 2023, 7,5 milhões de reais. Um total de quase 15,5 milhões. Isso trouxe desenvolvimento e estabilidade, principalmente para se manter um clube profissional. Os estádios, o grande legado da Copa do Mundo, também nos auxiliaram, porque o governo custeou toda a movimentação de treinamentos, liberando jogos e isentando as taxas da Arena, isentando os jogos. Isso ajudou o desenvolvimento profissional dos clubes e trouxe uma ascensão ao Amazonas, na Série B agora", disse Jorge Oliveira, secretário de Estado de Desporto e Lazer do Amazonas.
No caso, além da Arena Amazônia, o governo local investiu na reforma do estádio Ismael Benigno, chamado de Colina, e na construção do estádio Carlos Zamith, ambos campos de treino de seleções no Mundial de 14 e que abrigam jogos locais, apesar de serem pequenos e hoje não terem refletores para partidas noturnas.
Ainda sobre a ajuda do governo do Estado, Oliveira disse que por ano custo da Arena fica aproximadamente em R$ 4,8 milhões com manutenção, conservação e gastos básicos. Foi somente no ano passado, em parte graças a alta quantidade de shows, que o local fechou um ano com superavit.
"Quando tem jogo de equipes de fora e grandes eventos aí sim é cobrado as taxas originais para que a Arena possa sustentar. Os shows também da mesma forma", disse Jorge Oliveira sobre a estratégia usada para equilibrar a balança e arrecadar fundos.
Apesar de colher resultados, o sistema não é imune a falhas. A final do Campeonato Amazonense desse ano não pode ser na Arena da Amazônia porque o estádio já estava alugado para um show de um grupo sertanejado, o que certamente ajuda a manter as contas saudáveis, mas tira do estádio seu propósito maior que são os jogos. Além disso, dez anos depois, o local já tem uma reforma programada. Será no sistema de iluminação. O gasto será todo público e ainda não foi divulgado.
Ranking ESPN
Aproveitando os dez anos da Copa do Mundo de 2014, a ESPN fez um levantamento aprofundado para saber quantos jogos cada estádio do Mundial recebeu.
É o tipo de informação que muitos administradores de estádios não possuem pelo tempo de uso, muitas vezes por mudanças de gestão ou pelo simples fato de não ter sido documentado. O que significa que foram necessárias semanas de pesquisa e revisão.
A busca se concentrou em partidas realizadas desde a inauguração dos 12 estádios da Copa até 12 de junho deste ano, data que marca os dez anos da abertura daquela Mundial.
Foram consideradas todas as partidas de futebol das principais divisões do país entre adultos, ou seja, campeonatos masculinos e femininos. Também foram computadas as partidas dos torneios de base, tanto masculino como feminino. Foram excluídos ou desconsiderados jogos festivos de final de ano ou jogos corporativos (entre empresas).
Todas as partidas listadas tiveram suas informações confirmadas em súmulas nos sites oficiais.
Em alguns casos, as federações estaduais foram consultadas diretamente por e-mail ou WhatsApp. Isso não significa que não possam haver lacunas. Afinal, algumas federações deixaram de disponibilizar seus acervos. Outras fazem, mas não de forma completa.
Os estádios com mais jogos são aqueles que concentram mais de um clube como mandante, como Maracanã e Castelão. Mas a Arena Pantanal e a Arena da Amazônia também aparecem em alta no ranking por receberem torneios de divisões sub-13, sub-15 e, no caso do estádio de Manaus, sub-8 e sub-10, com frequência.
Quantos jogos cada estádio da Copa recebeu desde 2014
Maracanã, 684 jogos*
Castelão, 678 jogos*
Pantanal, 545 jogo
Mineirão, 498 jogos*
Amazônia, 460 jogos
Pernambuco, 454 jogos*
Corinthians, 406 jogos
Arena da Baixada, 390 jogos
Fonte Nova, 389 jogos*
Beira-Rio, 385 jogos
Arena das Dunas, 353 jogos
Mané Garrincha, 222 jogos*
*A contagem de jogos é de 2013, ano da inauguração dessas arenas
