Prestes a disputar mais uma final pelo Manchester City, e quem sabe ser campeão novamente neste sábado (25), Pep Guardiola é constantemente alvo daqueles que relacionam sua carreira de sucesso apenas aos times que ele dirige. Tiago Nunes foi o último a abordar o assunto.
Nesta semana, em entrevista à ESPN no Peru, o treinador brasileiro disse que adoraria ver Guardiola jogando na altitude de La Paz ou contra o Boca Juniors na Bombonera, como se duvidasse que o colega de profissão fosse ter os mesmos resultados em condições como as que existem na América do Sul.
Os comentários de Tiago Nunes reforçam o que vários outros personagens do futebol brasileiro já disseram. Como se a qualidade do jogo praticado e os títulos dos times de Guardiola fossem atrelados apenas aos luxos que a Europa oferece, de campos impecáveis a, sobretudo, dinheiro.
Sim, é verdade que o espanhol contou com imensas facilidades ao dirigir Barcelona, Bayern de Munique e Manchester City – embora muitos esqueçam que os jogadores dirigidos por Guardiola nem sempre foram as estrelas que se tornaram em suas mãos ou que os oponentes também eram endinheirados. Mas nem sempre foi assim.
Aposentado como jogador do Dorados, do México, em 2006, Guardiola demorou meses para se preparar e assumir o primeiro trabalho como técnico. Após buscar referências profissionais, de Marcelo Bielsa e Juanma Lillo (hoje seu auxiliar no City), o ex-volante foi escolhido para assumir o time B do Barcelona, que havia acabado de ser rebaixado à quarta divisão do futebol local.
Em suas mãos, um elenco basicamente formado por jovens entre 17 e 20 anos, com alguns nomes que chegavam a no máximo 24 e, claro, estavam longe de serem grandes estrelas. Assim como o técnico, um ex-atleta de 36 anos que ninguém sabia o que esperar na nova carreira. O insucesso, a bem da verdade, parecia o cenário mais plausível.
Guardiola teve o apoio de Txiki Begiristain, antigo companheiro de elenco no Barcelona dos anos 1990, diretor do clube à época e que mais tarde o levaria para a Premier League. A missão dada ao inexperiente técnico era simples: conseguir o acesso à Segunda B, o equivalente à terceira divisão espanhola, e apagar o rebaixamento da temporada anterior.
Foi o que aconteceu. Apesar de uma estreia sem graça (0 a 0 contra o Club Esportiu Premià, em um estádio minúsculo para 1,5 mil pessoas), Guardiola aos poucos fez aquele grupo de garotos entender o estilo de futebol que desejava implementar no Barça B. E deu muito certo.
Após terminar a fase classificatória como líder de seu grupo, com uma campanha de 25 vitórias, oito empates e somente cinco derrotas, o Barça de Guardiola eliminou Castillo CF e o UD Barbastro nos playoffs e garantiu não apenas o acesso, como também o título da Tercera. Foi a última taça levantada pelo time B dos culés na história, usado basicamente para revelar talentos para a equipe de cima.
Três deles vingaram: Sergio Busquets, volante alto e esguio de 19 anos, Thiago Alcântara, um habilidoso meia de apenas 17, e também Pedro, atacante de 20 com bom arremate e muita dinâmica. O trio ganhou a chance de representar o time de cima nos meses seguintes e não decepcionou.
Busquets virou uma lenda, com mais de dez anos como titular absoluto, Pedro teve excelentes momentos até sair para o Chelsea, enquanto Thiago, embora não tenha vingado no Camp Nou, tornou-se um jogador de primeira prateleira por Bayern e depois Liverpool.
A história de Guardiola na equipe B durou apenas uma temporada. Impressionada com a qualidade do futebol praticado em uma quarta divisão, a diretoria do Barça aproveitou a insatisfação com o técnico da época, Frank Rijkaard, e ofereceu a Pep a oportunidade de assumir o elenco principal, com a missão de recolocá-lo no caminho dos títulos.
Guardiola, todos sabem, fez mais que isso. Criou uma máquina de jogar bola, baseando seus conceitos de posse de bola e troca de passes na capacidade técnica incrível que nomes como Xavi, Iniesta, Lionel Messi e outros tantos daquele elenco ofereciam, além de adaptar craques consagrados como Thierry Henry à filosofia catalã.
O resultado? 14 títulos em quatro anos de Barcelona, depois sete troféus nos tempos de Bayern seguidos de 17 canecos no comando do Manchester City. Ou 18, se a Copa da Inglaterra contra o Manchester United, em Wembley, acabar no Etihad Stadium.
Nada menos do que 38 conquistas no primeiro nível do futebol europeu, que não existiriam se não fosse aquela primeira, numa temporada atípica na quarta divisão, em condições nem sempre favoráveis. Não em La Paz ou na Bombonera, mas em uma situação que a maioria não conseguiria aproveitar. Guardiola conseguiu. Que tal?
Onde assistir a Manchester City x Manchester United?
O dérbi de Manchester que decide a Copa da Inglaterra às 11h (de Brasília) deste sábado terá transmissão ao vivo pela ESPN no Star+.
